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Cantar a loucura: afinação, clínica e encantamento no acompanhamento terapêutico

Resumo

Neste artigo discutimos o acompanhamento terapêutico (AT) como prática clínica sustentada por uma presença sensível e pela afinação da escuta. A partir do conto de João Guimarães Rosa “Sorôco, sua mãe, sua filha”, extraímos a metáfora de “cantar a loucura” para examinar o contágio afetivo como operador de um cuidado inventivo e atento às singularidades da experiência. Para fundamentar essa reflexão, articulamos conceitos de Sándor Ferenczi, como tato, elasticidade da técnica e diapasão, que permitem pensar o cuidado como criação relacional. Concluímos que o AT opera na criação de espaços de encontro que transformam tanto o acompanhado quanto o acompanhante.

Palavras-chave
Acompanhamento terapêutico; dispositivo clínico; psicanálise; literatura


Abstract

In this article, we discuss therapeutic accompaniment (TA) as a clinical practice sustained by sensitive presence and the attunement of listening. Drawing on João Guimarães Rosa’s short story “Sorôco, sua mãe, sua filha”, we extract the metaphor of “singing madness” to examine affective contagion as an operator of inventive care that responds to the singularities of lived experience. To ground this reflection, we articulate Sándor Ferenczi’s concepts – such as tact, the elasticity of technique, and the tuning fork – that allow us to think of care as relational creation. We conclude that TA operates through the creation of meeting spaces that transform both the accompanied and the accompanist.

Keywords
Therapeutic accompaniment; clinical dispositif; psychoanalysis; literature


Abstract

Dans cet article, nous discutons de l’accompagnement thérapeutique (AT) en tant que pratique clinique fondée sur une présence sensible et sur l’accordage de l’écoute. À partir du récit de João Guimarães Rosa “Sorôco, sua mãe, sua filha”, nous extrayons la métaphore de “chanter la folie” afin d’examiner la contagion affective comme opérateur d’un soin inventif et attentif aux singularités de l’expérience. Pour étayer cette réflexion, nous articulons des concepts de Sándor Ferenczi, tels que le tact, l’élasticité de la technique et le diapason, qui permettent de penser le soin comme création relationnelle. Nous concluons que l’AT agit dans la création d’espaces de rencontre transformant à la fois l’accompagné et l’accompagnant.

Mots-clés
Accompagnement thérapeutique; dispositif clinique; psychanalyse; littérature


Resumen

En este artículo discutimos el acompañamiento terapéutico (AT) como una práctica clínica sostenida por una presencia sensible y por la afinación de la escucha. A partir del cuento de João Guimarães Rosa “Sorôco, sua mãe, sua filha”, extraemos la metáfora de “cantar la locura” para examinar el contagio afectivo como operador de un cuidado inventivo y atento a las singularidades de la experiencia. Para fundamentar esta reflexión, articulamos conceptos de Sándor Ferenczi, como el tacto, la elasticidad de la técnica y el diapasón, que permiten pensar el cuidado como creación relacional. Concluimos que el AT opera en la creación de espacios de encuentro que transforman tanto al acompañado como al acompañante.

Palabras clave
Acompañamiento terapéutico; dispositivo clínico; psicoanálisis; literatura


Cantar a loucura: afinação, clínica e encantamento no acompanhamento terapêutico

Singing madness: attunement, clinical practice, and enchantment in therapeutic accompaniment

Cantar la locura: afinación, clínica y encantamiento en el acompañamiento terapéutico

Chanter la folie: accordage, clinique et enchantement dans l’accompagnement thérapeutique

Introdução

Desde o início da década de 1960, o acompanhamento terapêutico (AT) vem se consolidando tanto como uma prática clínica quanto como um campo de reflexão teórica, expandindo sua presença em diferentes territórios de cuidado (Silva & Silva, 2006). Nascido no calor das críticas à psiquiatria institucional e impulsionado por experiências alternativas de atenção psicossocial, o AT passou a ocupar novos espaços além do trabalho com pacientes psicóticos, estendendo-se ao trabalho com pessoas idosas (Nobre & Lopes, 2019), no contexto escolar (Nascimento et al., 2019), na atenção primária à saúde (Mendes et al., 2022) e com crianças autistas (Paes, 2023). No entanto, apesar do seu histórico e dos múltiplos recursos de que ele pode se servir, o AT ainda é frequentemente reduzido a um conjunto de tarefas operacionais, como um passeio desprovido de conexões, uma companhia para se evitar estar só ou um executor de intervenções comportamentais preestabelecidas. Essa simplificação esvazia a dimensão clínica do AT, deslocando-o de seu espaço fundamental como locus de escuta, criação e relação.

Este artigo propõe um resgate às raízes do AT para, munido das mudanças que reforçam sua força, pensá-lo como uma prática que se faz no entrelaço entre escuta, afeto e invenção. Mais do que uma técnica, buscamos estabelecer o AT enquanto uma estética da presença, em que o cuidado se dá não por aquilo que se faz, mas pelo modo de se estar. Para explorar essa dimensão, evocamos a literatura como campo de experimentação simbólica, tomando o conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de João Guimarães Rosa, como metáfora para pensar uma clínica que canta junto à loucura, sem a pretensão de decifrá-la ou corrigi-la, mas com a disposição de estar com, de afinar-se ao outro, mesmo em sua opacidade. Ao lado disso, lançamos mão das imagens do (en)canto, da afinação e da presença sensível (Kupermann, 2008), articuladas a partir de contribuições da psicanálise de Sándor Ferenczi (1928/2011), que aponta a necessidade de encontrar uma frequência compartilhada entre terapeuta e paciente, uma vibração que torne possível o encontro, o “sentir com”, em um mesmo diapasão.

O argumento que defendemos aqui, a partir da metáfora de “cantar a loucura”, que o conto roseano nos apresenta, e das contribuições ferenczianas à técnica psicanalítica desde sua proposição do “sentir com”, é que a consideração dos aspectos éticos e relacionais na clínica do AT potencializam o encontro como espaço de criação. Assim, o (en)canto não aparece como ilusão ou fuga, mas como um gesto de cuidado, uma política da delicadeza, uma força de desobediência diante das formas endurecidas que podem enredar a clínica. Como assinalam Simas e Rufino (2020), encantamento é afirmação da vida, é experiência de conexão, de transgressão e de criação compartilhada. Importa sublinhar que a crítica aqui desenvolvida não pretende instaurar dicotomias entre modos de cuidado, tampouco propor hierarquias entre dispositivos. Nosso foco é examinar certos usos e apropriações, por vezes excessivamente procedimentais, que podem atravessar qualquer prática clínica, inclusive o próprio AT.

Uma pequena história do AT

Primeiro, sem a pretensão de buscar uma origem, inspirados em Velozo e Serpa Júnior (2006), propomos um desvio para contextualizar o AT como prática clínica. Ele emerge em diálogo com os questionamentos que ganharam força nos anos 1950 e 1960, período marcado por profundas transformações no campo da saúde mental. Em especial nos Estados Unidos e na Europa, começa a se consolidar um movimento crítico à psiquiatria clássica, pautada no modelo hospitalocêntrico, centrado na institucionalização, na medicalização e na exclusão dos sujeitos ditos loucos de suas redes sociais e comunitárias. É nesse contexto que ganham força a experiência de psiquiatria democrática, na Itália, liderada por Franco Basaglia, a antipsiquiatria inglesa, impulsionada por Ronald Laing e David Cooper, e a psicoterapia institucional na França, conduzida por François Tosquelles e Jean Oury.

Experiências pioneiras com o AT foram reportadas na Argentina, na década de 1960. Essas práticas passaram por transformações, que foram desde a presença de um auxiliar de enfermagem que ajudasse o paciente em suas tarefas cotidianas dentro do hospital psiquiátrico, até ações que buscavam romper radicalmente com a lógica manicomial, propondo formas de cuidado mais próximas da vida cotidiana, enfatizando as relações extra-hospitalares e os territórios. Essa função recebeu diferentes nomes, como auxiliar psiquiátrico, auxiliar de rua, amigo qualificado e AT (Guerra & Milagres, 2005). O AT surge nesse caldeirão efervescente de práticas que visavam acompanhar os sujeitos fora das instituições totais, construindo com esses atores uma rede de circulação e vínculos. Tratava-se de conectá-los novamente aos espaços da cidade, estando junto nos encontros nas praças, nos mercados, no convívio em sociedade. Um gesto clínico investido do direito ao espaço público e do existir com dignidade (Silva & Silva, 2006).

Movidas pelas críticas institucionais e inspiradas pelas experiências internacionais de resistência às estruturas manicomiais, no Brasil, as práticas em saúde mental também passam a ser alvo de questionamentos e denúncias, sobretudo a partir dos anos 1980. Desde os anos 1970, muitos psicanalistas no Brasil e na Argentina se engajaram em práticas clínicas alternativas desafiando a lógica manicomial vigente. Nesse processo, surgiram denominações como atendente psiquiátrico (na Clínica Pinel, Porto Alegre) e auxiliar psiquiátrico (na Clínica Villa Pinheiros, Rio de Janeiro), termos que designavam profissionais que atuavam mais próximos ao cotidiano dos pacientes. Essas práticas foram aos poucos assumindo formas mais autônomas e reflexivas, adotando expressões como amigo qualificado (no Instituto A CASA, São Paulo, no final dos anos 1970) e, em seguida, acompanhante terapêutico, na década de 1980, por se adequar melhor ao que era realizado (Benatto, 2014).

Nesse contexto, a psiquiatria tradicional começa a ser confrontada pelos movimentos sociais, trabalhadores da saúde, familiares e usuários, que denunciam não apenas as práticas violentas ocorridas no interior dos manicômios, como também os efeitos da exclusão, conduzindo a uma reivindicação de formas de cuidado baseadas em liberdade e na vida em comunidade. Com isso, o AT se afirma, especialmente a partir dos anos 1990, como prática alinhada à Reforma Psiquiátrica e à luta antimanicomial, compondo os dispositivos de cuidado no território (Vasconcelos, Machado & Mendonça Filho, 2013).

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Como indicam Guerra e Milagres (2005), desde a década de 1990, com um consenso maior sobre o trabalho do AT, vários estudantes de psicologia e psicólogos recém-formados começaram a ser acompanhantes terapêuticos. Por extensão, abriu-se uma discussão sobre a profissionalização do AT, o que refletiu na criação de formações na área, como, por exemplo, a iniciativa pioneira da Clínica Urgentemente que, em 1995, inaugurou uma formação de AT para profissionais da saúde mental, em Belo Horizonte. As autoras apontam ainda que vários profissionais com formação superior passaram a se dedicar a essa função, vagas em serviços públicos de saúde mental foram criadas em algumas cidades e algumas instituições de ensino superior instituíram estágios em AT na graduação.

Nas franjas dessas iniciativas de profissionalização e da consolidação do AT como uma tecnologia de cuidado alinhado à reabilitação psicossocial, as discussões sobre a clínica do AT ganharam força nos anos 2000. Produções nacionais começaram a se dedicar a conjugar o AT com diferentes referenciais teóricos, como a psicanálise (Greco, 2001), a terapia comportamental (Londero e Pacheco, 2006) e as abordagens psicossociais (Lancetti, 2008).

As produções listadas acima, ainda que por caminhos próprios, enfatizam o caráter criativo que a clínica do AT demanda — em toda pluralidade teórica e contextual que ela possa tomar. Entretanto, nossa experiência, enquanto psicanalistas que trabalham com AT, indica como essa abertura, embora necessária, é facilmente capturada por formas procedimentalistas de execução da função, o que acaba por reduzir o encontro a um repertório de procedimentos preestabelecidos: sair de casa ou aplicar uma técnica, por exemplo. Em alguns contextos, mesmo sob a bandeira da reforma psiquiátrica, práticas como o AT correm o risco de se normatizarem sob formas administrativas de cuidado, convertendo o encontro em tarefa, a escuta em protocolo, o tempo em meta, com intervenções pautadas fundamentalmente na manipulação de contingências.

Não se trata de desconsiderar o valor dos procedimentos, entendidos aqui como um acúmulo de práticas e saberes que se criam em aderência à experiência, tampouco de opor práticas sensíveis a práticas técnicas, mas de reconhecer que determinados usos burocratizados das técnicas, e não as técnicas em si, podem limitar a força relacional do AT. O argumento que sustentamos é que manter a abertura e a criatividade que a prática exige implica não reduzi-la a esses procedimentos. Parte fundamental para que esse reducionismo não prospere é dar atenção aos aspectos relacionais e éticos que o AT convoca por meio do encontro entre acompanhado e acompanhante.

Para seguir nessa direção e explorar quais aspectos relacionais e éticos que são postos em cena pelo AT, recorremos a uma metáfora extraída do conto de João Guimarães Rosa: “cantar a loucura”. Pretendemos apresentar nossa metáfora clínica, assim como a extensão de questões que ela faz emergir como problemáticas para o AT.

Cantar a loucura

A gente se esfriou, se afundou — um instantâneo. A gente… E foi sem combinação, nem ninguém entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de dó do Sorôco, principiaram também a acompanhar aquele canto sem razão. E com as vozes tão altas!

(João Guimarães Rosa, “Sorôco, sua mãe, sua filha”, Primeiras Estórias).

O trecho da epígrafe acima pertence a um conto de João Guimarães Rosa, “Sorôco, sua mãe, sua filha”. Nele, é narrada uma cena dramática em que um homem interiorano conduz sua mãe e sua filha, ambas loucas, a um trem destinado ao hospício de Barbacena1. A escrita se detém na descrição poética da multidão compadecida com a situação, a aparência da jovem e da idosa, os motivos que levaram Sorôco a acionar aquele recurso e a despedida angustiante dos três.

No texto roseano, um elemento recorrente que aparece em vários instantes da narrativa é a música. De forma mais específica, um canto descompassado e estranho. Em um primeiro momento, a filha de Sorôco aparece cantando com os braços levantados e o olhar perdido enquanto era conduzida ao trem. O que ela cantava era uma “cantiga [que] não vigorava certa, nem no tom nem no se-dizer das palavras — o nenhum” (Rosa, 2019, p. 24). Em um segundo momento, a mãe de Sorôco surge cantando a mesma canção incompreensível da neta no instante antes de seu embarque. Por fim, o conto finaliza com Sorôco triste na plataforma do trem após a despedida cantarolando o mesmo canto sem razão. O coro de vozes da multidão se junta a ele, como a epígrafe indica.

O conto de Rosa desenha um movimento em que as personagens se deixam tocar por uma canção sem razão, fora do tom e sem palavras, entoada por pessoas na experiência da loucura. Como se o próprio canto fosse uma correspondência da errância imputada à loucura. No final do conto, essa canção surge outra vez por meio das vozes das pessoas que, inicialmente, estavam como espectadoras e que passam a entoá-la graças à capacidade da audiência de acessar um campo comum de sensibilidade que a música se situava. Junto disso, a possibilidade de entrar em contato com esse campo aconteceu apenas porque uma escuta acompanhou aquele som, mesmo com a não razão e os seus desacertos. Foi essa capacidade de acompanhar esse movimento e se afinar a ele que possibilitou cantar a loucura.

Cantar a loucura: essa é uma metáfora bastante produtiva para dizer sobre a clínica do AT. Graças ao próprio contexto de surgimento dessa modalidade clínica, onde afãs sanitaristas e antimanicomiais repercutiram, o AT se ligou a diretrizes que encontram na desinstitucionalização e na reabilitação psicossocial grandes balizados clínico-políticos (Guerra & Milagres, 2005Silva & Silva, 2006Benatto, 2014). Mesmo com isso, como já mencionado, corre-se o risco de essas diretrizes se converterem em práticas mecânicas e técnicas protocolares, em que as possibilidades do encontro das pessoas envolvidas se endureçam. Essas práticas procedimentalizadas no interior do AT podem assumir formas diversas: desde a aplicação automática de instrumentos padronizados de registro, passando pelo uso acrítico de técnicas comportamentais desconectadas da experiência da dupla, até rotinas administrativas que restringem o encontro ao cumprimento de metas e tarefas. Não se trata de condenar esses recursos, importantes em muitos contextos, mas de compreender que, quando empregados de modo totalizante, podem reduzir o AT à execução de protocolos, esvaziando o espaço potencial que lhe é constitutivo.

A aproximação entre o AT e a música surge com uma forma de desterritorializar essas práticas e técnicas a partir de uma problemática que lança luz sobre aspectos éticos e estéticos presentes nessa modalidade clínica. Cantar a loucura, nesse sentido, introduz um deslocamento que reabre o campo do cuidado para o imprevisível, favorecendo gestos sensíveis, artesanais e situados. Trata-se de uma imagem que reafina a clínica, evitando que ela se estreite quando capturada por usos excessivamente formais e mantendo vivo o movimento criativo que sustenta o encontro (Vasconcelos, Machado & Mendonça Filho, 2013).

Ao se aceitar a proposta de seguir os possíveis caminhos abertos pela metáfora de cantar a loucura, o AT passa a ser visto como um espaço de experimentação e sensibilidade das forças e afetações que se fazem presentes a partir do encontro. Algo próximo do que Rolnik (1997) nomeia como um “exercício experimental de uma função que incide nos emperramentos da processualidade potencial do desejo” (p. 93). Nessa perspectiva, o AT não se limita a um fazer funcional ou técnico; ele exige do clínico uma disponibilidade radical, um corpo vibrátil, poroso às intensidades do fora e capaz de escutar aquilo que ainda não se formou como sentido. Esse canto sem sentido, desarticulado, parece operar como uma linguagem que não busca comunidade no molde da lógica ou da razão, mas expressar uma intensidade, algo como um rastro sonoro de uma experiência que não encontra forma discursiva. É uma linguagem da presença, do corpo, da afetação. Em certo sentido, evidencia uma forma de subjetivação que ainda não foi capturada por um regime de signos dominantes (Martí, 2019).

É essa escuta das forças em movimento, e não apenas das palavras, que convoca o AT a se desfazer das formas preestabelecidas e construir, junto ao outro, um território ainda inexistente. Como lembra Rolnik (1997), trata-se de um trabalho de composição no qual a escuta não visa decifrar ou explicar (a cantiga segue em desatino), mas co-habitar o desajeitamento. Nesse sentido, a experiência do AT se transforma em uma “arte da invenção e da experimentação” (p. 94), que só se sustenta se quem acompanha puder acolher em si o risco do encontro e a intensidade do desconhecido.

Nesse ponto, como propõe Gondar (2004), trata-se de se lançar em um campo de experimentação no qual se abrem brechas para produzir e expressar algo que escape às injunções de assujeitamento. Para isso, talvez seja preciso escutar com outros sentidos. Escutar com o corpo, com o tempo, com as presenças. Como afirma Gondar (2020), o encontro clínico não é feito apenas de palavras, mas de gestos, ritmos e expressões que envolvem o corpo em sua potência de afetar e ser afetado. Escutar, nesse sentido, é estar sensível aos ritmos, aos silêncios, às ressonâncias expressivas que se instauram na relação clínica. É escutar com os olhos, como diz a autora, ou mesmo cantar com o corpo, mesmo sem saber a melodia. Porque há cantos que só fazem sentido quando ecoam em mais de um corpo. Nessa escuta ampliada, o AT se dispõe à presença viva do outro, e à criação de um comum que ainda não tem forma, mas pulsa como ritmo compartilhado.

O canto sem razão que atravessa o conto não representa um ruído a ser corrigido. Cantar a loucura, portanto, não é tentar harmonizá-la com a norma, mas oferecer corpo e afeto para que essa expressão singular possa ecoar. Trata-se de estar com o outro na sua forma de se dizer: “a gente estava levando agora o Sorôco para a casa dele, de verdade. A gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga” (Rosa, 2019, p. 26). Isso exige do acompanhante um deslocamento: sair da condição daquele que conduz ou interpreta para tornar-se aquele que escuta, canta e vibra com (Rolnik, 1997). É nesse ponto que a metáfora do canto ganha força, pois há algo da música que só acontece quando mais de um se deixa atravessar por ela.

Apoiando-nos no conto roseano para falar sobre o AT, em que a possibilidade de acessar o campo de sensibilidade da canção acontece diante do esforço em acompanhar uma música errante e sem razão, uma questão se anuncia: como acompanhar alguém em sua vida cotidiana nos seus movimentos erráticos e espontâneos? Questão que ganha mais uma dimensão quando pensado o AT com pessoas que experimentam a loucura, onde facilmente essa relação pode perder suas propostas de estar ao lado e ganhar uma postura de tutela ou secretariado. Em outras palavras, o desafio é: como qualificar uma escuta da loucura que permita acompanhá-la nos processos que ela agencia? Esse será o problema que o próximo tópico do texto se ocupará.

Sentir com, afinar-se no mesmo diapasão com o outro

… que nesta [psicanálise] como em qualquer outra profissão, haverá sempre os artistas de exceção, de quem esperamos os progressos e as novas perspectivas.

(Sándor Ferenczi, A elasticidade da técnica psicanalítica)

O acompanhamento terapêutico se funda, muitas vezes, em situações- -limite, em que a linguagem convencional já não dá conta da experiência, como alguns casos de grande comprometimento cognitivo ou quadros de desorganização dos estados mentais. Como acompanhar alguém que está em uma condição como essa? Qual escuta e qual presença essa clínica convoca?

Sándor Ferenczi, em suas experimentações sobre a técnica psicanalítica, indicou como a frieza procedimental da clínica poderia ser iatrogênica para alguns pacientes. Assim, ele defendeu a ideia de que o clínico se servisse de uma margem de elasticidade em suas práticas, principalmente com os chamados casos difíceis. Essa elasticidade deveria partir do gesto do analista se colocar no mesmo diapasão do paciente, reconhecendo as sensibilidades do encontro para discernir quando e como intervir, além de reconhecer suas simpatias e antipatias despertadas pelo encontro. Essa atitude sensível Ferenczi nomeou de tato: “O tato é a faculdade de ‘sentir com’ (Einfühlung)” (Ferenczi, 1928/2011, p. 31). Ferenczi acionou esse recurso como uma alternativa a uma postura clínica autoritária e coercitiva, oferecendo, em contrapartida, uma postura empática e compreensiva, em que o enquadramento clínico se estica e ganha tração a partir das demandas do encontro. Para ele, a naturalidade e a honestidade nos comportamentos do analista seriam condições para seu trabalho (Ferenczi, 1990). Essas ideias oferecem algumas respostas aos problemas levantados neste trabalho.

Ferenczi desenvolveu essas ideias para dizer de uma sensibilidade necessária ao psicanalista a fim de saber “quando e como se comunica alguma coisa ao paciente”, “quando deve se calar” e “em que momentos o silêncio é uma tortura para o paciente” (Ferenczi, 1928/2011, p. 27). Para isso, seria necessário ao analista se colocar no “diapasão do doente” (p. 42). Ao abordar essa elasticidade técnica necessária para alguns casos, Ferenczi se serve de duas metáforas estéticas: a Einfühlung (sentir com) e o diapasão — ambas indicando a necessidade de uma adaptação do analista às questões demandadas pelo paciente.

Como Kupermann (2008) argumenta, as ideias ferenczianas, como a do “sentir com”, influenciaram vários autores posteriores que se aliaram a uma atuação clínica fundamentada em uma ética do cuidado. O que Ferenczi trouxe à pauta, e que se desdobrou em outras discussões, foi a necessidade de o analista assumir uma presença sensível, onde se mostra atento ao “campo de afetação” (Kupermann, 2008, p. 128) que o encontro coloca. O “sentir com” abre espaço para uma dimensão afetiva e relacional que vai além do que é dito com palavras apenas, o que dá vez à necessidade de explorar as impressões sensíveis que surgem no campo da relação. A partir disso, o plano clínico deixa de ser algo previamente definido e passa a ser tomado como um processo vivo, que se desenrola a cada encontro e se constrói na presença, na escuta e na sensibilidade de acompanhar o outro em sua própria trajetória.

Posteriormente, essas ideias são retrabalhadas por Ferenczi quando ele trata da mutualidade. Em suas experimentações com a análise mútua2, a necessidade de reconhecer os efeitos da presença do analista nas sessões é radicalizada, incluindo a forma como o psiquismo da dupla analítica se afeta mutuamente na relação (Ferenczi, 1990). Evocando a expressão de Molin et al. (2020), há, nessa fase do pensamento ferencziano, um convite a “enlouquecer com”; ou seja, reconhecer como os fragmentos psíquicos do analista, sua loucura privada e suas ansiedades se unem aos materiais do analisando, compondo o campo do encontro analítico.

Essas experimentações propostas por Ferenczi tinham por finalidade produzir novos enquadramentos técnicos e abrir novos horizontes clínicos, entretanto, como ele mesmo sublinha, elas deveriam ser acompanhadas de uma observação prudente. Ele alerta para os possíveis descaminhos de sua ideia de “sentir com” quando diz que ela poderia ser usada por clínicos para supervalorizar o “fator subjetivo”, e assim ceder à intuição no lugar de uma “apreciação consciente da situação dinâmica” (Ferenczi, 1928/2011, p. 41). Como mostra Peixoto Júnior (2021), há na obra de Ferenczi um cuidado constante em conjugar experimentação e prudência, de modo que as novas propostas técnicas não ultrapassem limites éticos necessários ao trabalho analítico. Seja na elasticidade da técnica ou na mutualidade, o “sentir com” funciona como baliza ética, garantindo que tais movimentos clínicos se orientem por um novo arranjo que tem o avanço do processo analítico como objetivo.

Da mesma forma, o AT assume esse contorno ao não se pautar em algo fixo, mas na disponibilidade para acolher o imprevisível e criar a partir dele. Com Ferenczi, é possível compreender a relação direta entre corpo e ambiente. É no imbricamento entre esses dois elementos, território de afetos, que algo pode emergir. Para que isso aconteça, no entanto, é preciso que o encontro seja atravessado por afetos genuínos, por uma presença capaz de sustentar a experiência sem antecipar seu desfecho. Em vez de agir sobre o outro, o acompanhante terapêutico, em extensão das proposições ferenczianas, deve estar implicado na cena como parte viva dela. Com isso, o AT se desenha não como um fazer sobre, mas como um estar com e um sentir com: uma prática que se dá nas vibrações produzidas pelo vínculo, no corpo a corpo com a experiência, em que o cuidado se enraíza com a disponibilidade para compartilhar, afetar e ser afetado. Parafraseando o autor, pode-se afirmar que a disposição para “sentir com” é condição fundamental para afinar a escuta na prática de acompanhamento terapêutico.

Tal como na música, em que a afinação cria a harmonia possível entre diferentes instrumentos, o acompanhante terapêutico precisa encontrar a frequência de cada encontro, um ponto de ressonância afetiva. Como indica Gondar (2020), “mais importante é a percepção e o respeito ao ritmo do paciente, tanto quanto a possibilidade de podermos compor com esse ritmo, colocando-nos no diapasão desse sujeito, para que esse ritmo, que é o dele, possa ser sustentado” (p. 34). Assim, acompanhante e acompanhado constroem, juntos, um espaço em que os tempos, gestos e respirações se afinam. É nessa sintonia que se torna possível acessar o campo de sensibilidade do cuidado, uma dimensão em que o AT se aproxima da música: como se fosse necessário cantar junto para escutar.

Com base nas contribuições de Ferenczi, é possível compreender que a sustentação do encontro terapêutico no AT demanda mais do que o domínio de técnicas ou protocolos. Ela se ancora em uma disposição ética, na capacidade de estar com o outro de uma maneira sensível e implicada. A noção de “sentir com” é tomada aqui não apenas como um recurso clínico, mas como um princípio ético que qualifica a presença do acompanhante. Essa postura, como dito, implica uma escuta que acolhe aquilo que se expressa para além da linguagem verbal, que reconhece formas de comunicação ancoradas no corpo, nos gestos, nos silêncios e nas intensidades afetivas que atravessam o encontro.

E talvez seja esse o território de produção de cuidado: um espaço onde o som, o sentir e a presença criam campo comum. Afinar-se é, nesse contexto, também se encantar. Pois só se sustenta a escuta quando algo no encontro convoca a permanecer. É nesse entremeio, entre afinação e encantamento, que se prepara o terreno para uma clínica que acolhe a imprevisibilidade da vida. Assim, os deslocamentos que a metáfora do canto suscitam, encontram ressonância no gesto ferencziano do ‘sentir com’: ambos convidam a um modo de presença que não é interpretativo nem diretivo, mas acompanhante, capaz de sustentar uma sintonia afetiva no terreno imprevisível do encontro.

Encantamento e presença sensível como condições do cuidado

Freud (1914/2012), ao refletir sobre a experiência estética, observa que algo na obra de arte nos captura, nos desarma e nos coloca em um estado de suspensão, como se, por instantes, deixássemos de resistir ao desconhecido. Esse encantamento, que rompe as defesas do eu e permite que sejamos afetados por uma cena, um som ou uma imagem, pode ser pensado para além da fruição artística. Em sua estrutura mesma, o encantamento envolve uma abertura, uma entrega àquilo que se apresenta e nos excede. Transpondo esse movimento para o campo do acompanhamento terapêutico, o que se propõe aqui é considerar o encantamento não como fascínio ou idealização, mas como um modo ético de estar com o outro: um tipo de atenção em que algo do imprevisível e do enigmático no encontro não é imediatamente interpretado, corrigido ou conduzido, mas sustentado.

Como indicam Simas e Rufino (2020), o termo encantamento guarda em sua raiz a ideia de um canto que afeta, que mobiliza e desestabiliza os sentidos já organizados. Derivado do latim incantare, o encantamento carrega o gesto de invocar uma experiência que escapa à racionalidade imediata, produzindo outra textura de mundo; não se trata de magia no sentido vulgar, mas de um modo de percepção que permite ver além do dado, do evidente ou do mensurável. Nesse sentido, o encantamento reposiciona a experiência cotidiana sob uma chave que valoriza a complexidade do sensível.

A noção de encantamento, então, torna-se um fundamento político. Ela desorganiza os dispositivos de captura que reduzem a vida à funcionalidade ou ao desempenho. Opera como uma resposta à convocação feita por Gondar (2004), que aponta para a urgência da invenção de modalidades clínicas de enfrentamento aos códigos de assujeitamento e de práticas que desestabilizam “os jogos de poder e as regras que os sustentam” (p. 126). Nessa direção, em confluência com o AT, que se produz historicamente em resposta aos modelos de captura da subjetividade, o encantamento permite uma escuta expandida, não apenas ao outro, mas ao tempo do outro, às suas referências invisíveis, à sua inscrição em redes de pertencimento que desafiam a linearidade da razão moderna. Encantar-se, nesse registro, está longe de idealizar a clínica, mas abrir espaço para outras formas de presença que sustentem o cuidado como um gesto de vínculo e de reconhecimento da alteridade.

O encantamento, nas palavras de Klein, Ferreira e Verztman (2023), “cria um universo aberto para que, com ele, possamos nos misturar e nos diferenciar. Ele não pode ser abandonado, sob pena de a vida perder todo o seu frescor” (p. 7). Essa perspectiva de pensar a clínica, desloca o AT de um eixo interventivo para um eixo relacional; de uma prática auxiliar para uma prática de cuidado. A experiência deixa de ser pensada como neutra e universal, e passa a ser reconhecida como atravessada por mundos, histórias e cosmologias distintas: um canto em desrazão com os signos vigentes.

Nesse sentido, no campo do AT, o encantamento opera como uma experiência que se propaga por contágio; não o contágio no sentido patológico, mas como transmissão sensível, mútua afetação (Salgado & Oliveira, 2023). O acompanhante terapêutico, ao se permitir contaminar pelo que se apresenta no encontro, possibilita que essa afetação reverbere no outro, instaurando um campo de ressonâncias. Como indicam Londero e Paulon (2012), “eis um movimento que perfura o cotidiano, deforma-o no que em si há de controle, viabilizando (…) a presença de uma espécie de estesia, uma sensibilidade que nos atira para a experimentação de outros sentidos” (p. 820). Esse contágio não opera pela via da persuasão, mas pela experiência compartilhada de uma presença sensível na oferta de cuidado às pessoas em sofrimento (Kupermann, 2008) que desloca, configura e cria possibilidades de relação. Assim, o encantamento, ao se expandir para além do indivíduo, insere-se no plano do comum, capaz de sustentar uma clínica que aposta na transformação mútua (Rolnik, 1997).

No conto roseano, nosso ponto de partida e lugar de chegada, temos essa experiência de encantamento por contágio que se inicia de forma quase imperceptível: como mencionado, primeiro é a filha que canta, depois a mãe se junta, em seguida Sorôco, e, por fim, toda a população que assistia é tomada pela vibração e sonoridade daquele canto e passa a cantar junto de Sorôco. O encantamento não é mediado pelo sentido literal da canção; o que move essa cadeia é a presença e a disponibilidade de cada um para ser atravessado pelo gesto do outro; algo que vai tomando os corpos e direcionando para um lugar comum, o lugar do encontro. Um processo que só se torna possível quando há disposição para “imprimir deslocamentos em si mesma diante do inesperado que cada relação clínica [ou não] oferta” (Londero & Paulon, 2012, p. 820).

Londero e Paulon (2012) chamam atenção para esse impensado da clínica, que transcende certa ortodoxia terapêutica, como condição para o cuidado. Um cuidado que só pode se dar a partir do momento em que se leva em conta essa disponibilidade para o encontro com o outro. Uma disponibilidade que não se confunde com improviso descompromissado, mas abarca uma postura ética que se constrói na abertura para a singularidade da experiência, permitindo que o campo clínico seja coabitado e criado a partir da imprevisibilidade própria de cada encontro. Como apontam Veloso e Serpa Júnior (2006) “devemos contar com outros recursos que ampliam nosso olhar na clínica. São as soluções locais, são os laços de solidariedade e todas as possibilidades informais e imprevistas que possam surgir” (p. 236). É nesse espaço de indeterminação, munido por certo encantamento e por uma presença sensível, em que o AT se permite deslocar-se junto ao acompanhado, que o cuidado deixa de ser mera aplicação de técnicas e se torna um processo vivo, sensível, relacional e clínico.

Considerações finais / A delicadeza como força clínica

A nossa luta é pela delicadeza.

(lema da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial – Renila)

Este texto pode ser interpretado de várias formas, desde os vários caminhos que ele abre. Uma maneira bastante produtiva de síntese seria dizê-lo como uma intervenção que propõe a delicadeza como uma força clínica. Questão já levantada por movimentos sociais que buscam outras formas de dizer da loucura para além dos enquadramentos estritos do campo psi e posições estigmatizantes. Ponto igualmente relevante para pensar o acompanhamento terapêutico como um território clínico criativo.

O recurso à literatura roseana, extraindo dela a metáfora sobre “cantar a loucura”, e o encontro com o “sentir com” ferencziano apontam algumas direções clínicas para o AT. Nessa confluência, a possibilidade de acompanhar o comum da vida com a imprevisibilidade e complexidade que ele guarda apenas se faz possível quando uma posição estético-política de encantamento é sustentada. Essa posição, como trabalhado nas páginas anteriores, é uma maneira de resistir aos modos de captura e endurecimento das produções desejantes. O alvo dessa proposição não é desvalidar o uso da técnica no âmbito da prática de acompanhamento terapêutico, mas apresentar uma crítica às maneiras como um apego a procedimentos totalizantes fragilizam o AT em sua dimensão relacional e capacidade de inovação em ato. Além disso, ao pautar a dimensão relacional no trabalho do AT, seus horizontes éticos e políticos se destacam, quando procura abrir passagem para modos de vida mais dignos para pessoas com sofrimentos psíquicos no seu dia a dia.

Por fim, se em sua emergência histórica o AT se vinculou a práticas de contestação institucional, no cenário contemporâneo ele se insere, sobretudo, como um dispositivo de colaboração e costura entre diferentes saberes e práticas em redes na saúde mental. Sua força não está em uma oposição frontal a outros modos de cuidado, mas na capacidade de operar nos interstícios em que os dispositivos se tencionam, falham ou se revelam insuficientes. Graças ao lugar onde essa modalidade de cuidado se insere, há um convite à clínica para se desestabilizar de um modelo verticalizado e assumir uma lateralidade própria ao acompanhamento. O declínio dessa centralidade abre espaço para a construção de um lugar outro, sempre em processo, configurado pelos fluxos criados pelas demandas que a vida faz. Ainda que marcado por uma geografia móvel, errática e descompassada, nossa aposta é que o esforço em se afinar com ele, na intenção de ocupar um mesmo diapasão, surge como uma condição de um fazer clínico mais coerente com a afirmação da vida como ela é.

  • 1. Os chamados “trens de doido” eram composições ferroviárias que, ao longo do século XX, levavam centenas de pessoas ao Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. Vindas de diversas regiões do país, essas pessoas eram embarcadas sob justificativas diversas, quase sempre associadas a questões morais e não de saúde mental (Arbex, 2013).
  • 2. Análise mútua refere-se a uma série de experimentações clínicas realizadas por Ferenczi e documentadas em seu Diário clínico (Ferenczi, 1990). Essas experimentações consistiam na proposta de que o paciente revisasse, junto a ele, a posição de analista: por um momento, Ferenczi assumia o lugar de paciente, para, em seguida, retomar seu lugar de analista. A finalidade dessas experimentações era demonstrar ao analisando que aquele era um espaço de encontro em que o analista se colocava sem hipocrisia, com autenticidade e vulnerabilidade. Mesmo que o psicanalista tenha posteriormente abandonado essa prática, devido aos componentes afetivos e transferenciais que ela despertava, uma série de autores contemporâneos vêm retomando as implicações teóricas da análise mútua a partir dos estudos sobre mutualidade (Câmara & Herzog, 2023).

Referências

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Autores

Gabriel Lucas Baessa Dias – Mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (Belo Horizonte, MG, Brasil).

João Henrique de Sousa Santos – Doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Docente na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais – FCM-MG (Belo Horizonte, MG, Brasil).


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