Porque a psicanálise para o acompanhamento terapêutico

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Autor:

  • Flávio Verissimo – Psicólogo (PUC-SP), Psicanalista (Instituto Sedes Sapientiae) e Acompanhante Terapêutico desde 1995. Diretor do Entre Laços – Núcleo de Atenção à Primeira Infância desde 2006. Fones: (11) 367855669 e (11) 91023026. E-mail:[email protected]. São Paulo, SP.

No primeiro artigo falamos sobre a história da loucura e a forma como ela desemboca no surgimento do AT. No segundo artigo, seguimos falando sobre a função do AT na atualidade, o que seria uma decorrência do primeiro texto.  Hoje eu gostaria de fazer uma seqüência do segundo texto, explicando porque considero a psicanálise um instrumento essencial ao AT.

Para essa tarefa, vale retomarmos o surgimento da psicanálise e sua justificativa enquanto método diferenciado de tratamento. Ela surge quando Freud, enquanto neurólogo, tratava de histéricas no hospital geral. Ele constata que as paralisias histéricas não “obedecem” ao conhecimento médico do corpo humano e que muitas vezes a região paralisada não se iniciava nem terminava aonde se iniciam os nervos, tecidos e órgãos. Disto Freud deduz que o corpo em questão não é o corpo orgânico, mas um corpo erógeno, e que as paralisias e analgesias histéricas ocorriam em função deste corpo imaginário. Surge então uma cisão com a medicina, que lida com o corpo orgânico, e que por isso não dava conta das questões histéricas.  Dessa cisão nasce a psicanálise.

Até então, Freud trabalhava com aqueles que hoje chamamos de neuróticos, sem se interessar pela questão da loucura stritu sensu. Esse interesse parece surgir a partir das discussões com Jung a respeito da natureza da libido, que mais tarde levou a uma ruptura entre ambos. Em 1911, Jung publica o texto que seria o golpe final na relação dos dois, Transformações da Libido, no qual explica a questão da loucura com base na sua teoria dos arquétipos, colocando a sexualidade, pilar em que Freud sustentava a psicanálise, em segundo plano. Eis que Freud, supostamente em resposta ao texto de Jung, publica no início de 1912, o texto Notas Psicanalíticas sobre um Relato Autobiográfico de um Caso de Paranóia, conhecido como Schreber. Neste texto, Freud explica o delírio como uma tentativa do sujeito refazer os laços com a realidade, perdidos num anterior investimento libidinal maçiço no próprio ego, que desfaz esse contato ao isolar o sujeito num processo narcísico encapsulante.

Em outras palavras, para Freud, o processo de enlouquecimento passa necessariamente por um momento prévio de turbulência silenciosa, no qual o sujeito retira seus investimentos libidinais da realidade e os dirige ao próprio ego, megalomaniacamente. Este processo, no qual o sujeito fica acuado e retraído, seria o principal momento de adoecimento psicótico, e não se sustenta por muito tempo, irrompendo numa desorganização psíquica que é o que chamamos de crise.

A esse momento de disrupção e desorganização, se segue uma tentativa de cura, de reconciliação com a realidade, que são as construções delirantes. Embora a psiquiatria clássica as veja como sintomas a serem curados e remitidos, a psicanálise, inversamente, as vê como via de construção de uma “cura” (se é que podemos usar este termo no caso dos psicóticos), de algo que pode sustentar o sujeito no mundo, uma teia psíquica que cria uma amarração tão mais frágil quanto for desordenado o discurso delirante. Esta amarração pós-crise nunca substituirá aquilo que rompeu no universo psíquico do psicótico, mas possibilitará uma aproximação com a realidade e com o outro, tal qual uma pele, que impede que o contato, qualquer que seja, torne-se algo doloroso e invasivo.

Faz-se mister ressaltar que isso não faz da psicanálise inimiga da psiquiatria e da medicação antipsicótica. Ela apenas alerta para o excesso de medicação, que impede totalmente o sujeito de construir essa rede psíquica subjetivante. Entendemos assim como ótimo, um uso da medicação que atenue suficientemente o sofrimento psíquico para possibilitar ao sujeito em crise que se disponha a reconstruir uma subjetividade a partir de seu delírio. Obviamente temos que supor que a medicação não o impeça de produzir psiquicamente, ainda que esta produção seja delirante.

O AT entra aí, nesta brecha criada pela possibilidade de compreensão do sentido do delírio, a partir de uma tentativa de reorganização psíquica. O at aproveitará este material para fazer ganchos com a rede urbana, com atividades no mundo que auxiliem na reconstrução deste tecido interno.

Se a psicanálise, como um todo (tanto no tratamento de neuróticos quanto de psicóticos), oferece uma escuta ao sintoma como produção de subjetividade (ao invés de ser algo a ser extirpado, tal qual um tumor maligno), no acompanhamento esse material pode ser um ponto de partida para a reconstrução de um cotidiano que proporcione ao sujeito em crise a possibilidade de se reorganizar e de se sentir realizado naquilo que diz respeito ao seu desejo.  É essa possibilidade de atribuir sentido à loucura, de oferecer escuta ao sintoma e ao delírio, que torna a psicanálise um interessante instrumento de tratamento, seja nos at´s ou seja no consultório.

Artigo publicado no “Site AT” em 25/08/2010.

Supervisão em AT.

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