Acompanhamento Terapêutico: Um Breve Histórico

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Acompanhamento Terapêutico: Um Breve Histórico

Resumo: este estudo analisa produções científicas sobre o tema acompanhamento terapêutico, no período do seu aparecimento até os dias de hoje. Alguns assuntos foram selecionados, como o surgimento desse tipo de trabalho, os seus objetivos e definições, a quem era destinado, as diferentes funções que foram surgindo ao longo dos tempos, assim como o perfil do profissional que atuava nessa área.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico, Saúde Mental, Psiquiatria.

 

Abstract: This study analyses scientific productions about the theme therapeutics accompaniment, in the period between its appearance until nowadays. Some topics were selected, such as the appearance of this kind of work, its objectives and definitions, to whom it was destined, the different functions that were emerging along the years, as well as the profile of the professional that worked in this area.

Key Words: Therapeutic Accompaniment, Mental Health, Psychiatry.

 

Acompanhamento Terapêutico: Um Breve Histórico


INTRODUÇÃO

O presente artigo analisou a literatura referente ao acompanhamento terapêutico e seu histórico, desde o seu surgimento até os dias de hoje. Tendo como objetivo entender como se deu esta prática ao longo dos tempos, que iniciou nos anos 60 na Europa e nos Estados Unidos e após estendeu-se para o Brasil e para a América Latina. No Brasil, a Clínica Pinel, em Porto Alegre e a Clínica Villa Pinheiros, no Rio de Janeiro, foram pioneiras neste trabalho.

A Reforma Psiquiátrica contribuiu para o surgimento da prática do acompanhante terapêutico, pois esta lutava por um tratamento mais humanizado na saúde mental e fora dos muros das instituições psiquiátricas, inserindo o paciente na sociedade.  Isto foi um disparo para a expansão do trabalho do acompanhante terapêutico.

Alguns autores ressaltam que o acompanhamento terapêutico passou por mudanças na sua nomenclatura e que isto também representa uma mudança das funções que este desempenhava. Antigamente eram chamados de atendentes terapêuticos, auxiliares psiquiátricos, amigo qualificado até chegar ao termo utilizado atualmente.

Os tipos de pacientes que eram atendidos também foram modificando ao longo dos tempos, além dos pacientes psicóticos os pacientes neuróticos também passaram a se beneficiar do acompanhamento terapêutico.  Os profissionais que atuavam nessa área eram os leigos, os estudantes de psicologia, medicina e outros cursos, porém, com o aumento da demanda surgiu necessidade dos profissionais se especializarem.

 

Therapeutic Accompaniment

O SURGIMENTO DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

O trabalho do acompanhamento terapêutico (AT) teve início por volta dos anos 60 na Europa e nos Estados Unidos, através do movimento antipsiquiátrico que visava romper com a idéia de que cuidar da doença mental significava exclusão.

Com isso, surgiram as comunidades terapêuticas que tinham como objetivo criar novos modos de lidar com a loucura. Foram nos anos 60 que nasceram as primeiras comunidades terapêuticas no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre (BERGER, 1991).

Nesta mesma época, o Brasil passou a comprar serviços psiquiátricos do setor privado, deste modo a doença mental passou a ter um caráter lucrativo e apenas na década de 70 começaram a surgir criticas e mudanças a esse falho funcionamento da assistência pública (AMARANTE, 1994 citado por SIMÕES, 2005).

Neste período, começou a concretizar no Brasil uma visão bastante diferente do modelo asilar, chamada Reforma Psiquiátrica, que pretendia alterar o tipo de tratamento utilizado na saúde mental e substituir a internação desses pacientes em manicômios por um tratamento em uma rede de serviço territorial que inserisse o portador de sofrimento psíquico na comunidade, ou seja, desinstitucionalizar o paciente (HIRDES, 2009).

A partir disso abriu-se espaço para novas modalidades alternativas ao modelo manicomial, o que foi fundamental para o crescimento do trabalho do acompanhamento terapêutico (SIMÕES, 2005).

Foi no final da década de 60 e início de 70, que o acompanhamento terapêutico surgiu na América Latina e no Brasil. Esse trabalho chegou a Porto Alegre, na Clínica Pinel, e nas comunidades terapêuticas do Rio de Janeiro, principalmente a Clínica Villa Pinheiros (A CASA, 2000).


FUNÇÃO, DEFINIÇÃO E OBJETIVO DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO 

Inicialmente os profissionais eram denominados de atendentes terapêuticos (A CASA, 2000). Eles desempenhavam a função de ficar com o paciente dentro do hospital, ou fora, e cuidá-lo durante o tempo necessário (SIMÕES, 2005).

Também passaram a serem chamados de auxiliares psiquiátrico e tinham a função de acompanhar o paciente no seu cotidiano e davam assistência permanente, 24 horas por dia (IBRAHIM, 1991).

A partir de 1981 esses profissionais eram chamados de amigo qualificado e tinha como tarefa ficar com o paciente nos momentos em que este não estava participando das atividades hospitalares, isso ocorria muito nos finais de semana (BARRETTO,1997 citado por SIMÕES, 2005).

Foi na década de 80, no Brasil, que o termo acompanhante terapêutico passou a ser empregado (SIMÕES, 2005). Nos dias de hoje o acompanhamento terapêutico tem o seguinte objetivo:

Consiste numa atividade terapêutica cujo objetivo central é promover a singularidade de pessoas que sofreram algum tipo de crise e favorecer a vivência de uma experiência significativa onde seu desejo encontre expressão.

Busca, por outro lado, criar condições para que o sujeito acompanhado possa conviver com as pessoas de seu meio, com seus familiares, consigo mesmo e com as tarefas de seu dia-a-dia (AAT, 2006)

Segundo Schubert (2010), a alteração da terminologia caracteriza as diferentes funções e postura na atuação do acompanhante terapêutico. Além disso, esse profissional deixou de ser um simples “babá” para ser um agente importante no tratamento do paciente.

Atualmente o acompanhante terapêutico desempenha as seguintes funções, segundo Cenamo et al, (1991):

  •  Ser um ego auxiliar: o at “empresta” o seu ego para o paciente, o que acaba potencializando o ego do acompanhado;
  •  Servir como um modelo de identificação, deixando que o paciente reconheça no at o que ele deseja desenvolver;
  • Ser continente com as angústias do paciente;
  • Aliviar as ansiedades persecutórias que o paciente apresenta;
  • Função especular, ou seja, fazer uso de atitudes interpretativas e devolver para o paciente;
  • Ser um interlocutor dos desejos e fantasias do acompanhado.

Para Mauer e Resnizky (1987), o acompanhante deve:

  • Conter o paciente;
  • Reforçar e desenvolver a capacidade criativa do mesmo;
  •  Representar o terapeuta;
  •  Informá-lo sobre o seu mundo objeto;
  • Ressocializar o paciente;
  • Ser um catalisador das relações familiares.

As autoras ainda ressaltam que:

O acompanhante terapêutico deve tender a reforçar as defesas de adaptação adequadas e ajudar a desenvolver novos mecanismos de defesa. Isso será feito ao longo da convivência, mostrando-lhe que frente a uma situação determinada há possibilidades de reagir de modos diferentes.

Silva (2001), destaca que o acompanhante deve mostrar as conquistas do paciente e que isto revela para o ele a sua “Vontade de Potência”. Ou seja, ele percebe que não é um ser impotente frente à vida.


Acompanhamento Terapêutico: Histórico

 

À QUEM SE DESTINA O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

Nos dias de hoje, o acompanhamento terapêutico é uma opção para o tratamento de pessoas portadoras de alguma doença mental.

O at acompanha o paciente em diversas atividades como passeios, programas ao ar livre, na prática de esportes, no ambiente familiar, atividades culturais e entre outras (SCHUBERT, 2010).

Foi com o declínio e fechamento das comunidades terapêuticas, nos anos 70, que os acompanhantes passaram a realizar esse tipo de atividades, pois familiares e terapeutas solicitavam o trabalho do acompanhante, buscando uma alternativa à internação (A CASA, 2000).

Na Clínica Pinel, o acompanhamento era destinado para pacientes que estavam internados na instituição. Já na Clínica Villa Pinheiros, a demanda era de pacientes psicóticos que estavam internados ou faziam parte do hospital-dia (REIS, 1995 citado por SIMÕES, 2005).

Na instituição A Casa, em São Paulo, o acompanhamento era realizado com os pacientes psicóticos e neuróticos graves (BARRETTO, 1997 citado por SIMÕES, 2005).

Veríssimo (2010), destaca que inicialmente o acompanhamento terapêutico era utilizado principalmente com pacientes psicóticos, porém foi identificado que também podia ser benéfico para pacientes que, de um modo ou de outro, desenvolveu algum prejuízo relacionado à interação social.

Simões (2005), ressalta que nos anos 80, o acompanhamento terapêutico expandiu, através de atendimento de crianças, adolescentes e outras doenças incapacitantes, e que o trabalho que era feito totalmente em instituições privadas expandiu para o setor público.

A mesma autora ainda ressalta que atualmente, o trabalho do at vem sendo útil para diversos casos como:

  • Pacientes com problemas orgânicos;
  • Portadores de deficiência física;
  • Pacientes pré e/ou pós cirúrgicos;
  • Toxicomania;
  • Idosos.

 

PERFIL DO PROFISSIONAL: O ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO

As atividades de acompanhamento eram realizadas por estudantes de medicina, psicologia, ciências sociais e entre outras. Havia também leigos, ou seja, pessoas que não tinham ou estavam tendo alguma formação.

Porém, como o AT foi sendo cada vez mais solicitado, gerou necessidade de haver uma especialização para exercer essa clínica.

Com o passar do tempo, Psicólogos, Terapeutas Ocupacionais e outros profissionais da área da saúde passaram a trabalhar como acompanhante terapêutico (A CASA, 2000).

Primeiramente, a prática do at era influenciada pela teoria freudiana, já que está era a concepção de doença mental utilizada na Clínica Pinel e na Clínica Villa Pinheiros, pioneiras no acompanhamento terapêutico no Brasil.

Porém, atualmente o at pode se embasar em diferentes correntes teóricas, como a teoria cognitivo-comportamental e a teoria sistêmica. É indicado para o profissional que trabalho com acompanhamento terapêutico, ter supervisão e fazer análise pessoal (SIMÕES, 2005).

 

CONCLUSÃO: O ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

A partir deste estudo podemos concluir que o acompanhamento terapêutico iniciou na Europa e nos Estados Unidos. Entre as décadas de 1960 e 1970 este trabalho chegou à América Latina e no Brasil, inicialmente na Clínica Pinel, em Porto Alegre, e na Clínica Villa Pinheiros, no Rio de Janeiro.

Aqui no Brasil a Reforma Psiquiátrica contribuiu para a expansão do trabalho do acompanhante terapêutico, pois ela lutava para a desinstitucionalização dos pacientes portadores de doença mental.

Antes de chegar ao termo acompanhante terapêutico, os profissionais eram chamados de atendente terapêuticos, auxiliares psiquiátricos e amigo qualificado.

Assim como a nomenclatura ia mudando as funções que eles desempenhavam também se alteravam. Eles atendiam pacientes psicóticos, porém, notou-se que os pacientes neuróticos também poderiam se beneficiar com o acompanhamento.

Os estudantes e os leigos eram os profissionais que trabalhando nessa área, mas posteriormente, os trabalhadores da área da saúde, já formados, também iniciaram nessa prática.

Com o aumento da demanda de pacientes os profissionais necessitaram de uma especialização, além de supervisão e terapia individual. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. AAT. Associação de Acompanhamento Terapêutico. Sobre o acompanhamento terapêutico. São Paulo, [2006]. Disponível em: http://www.aat.org.br/ Acesso em: 02 ago. 2010.
  2. A CASA. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA.  História. São Paulo, [2000]Disponível em: http://www.acasa.com.br/acasa/texto.asp?id=22 Acesso em: 15 jul. 2010.
  3. BERGER, Eliane. MORETTIN, Adriana Victorio. NETO, Leonel Braga.  História. In: CARROZZO, Nelson Luiz. A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. São Paulo: Escuta, 1991.
  4. CENAMO, Ana Clara Vieira, SILVA, Ana Laura Bicalho Prates e, BARRETTO, Kleber Duarte. O setting e as funções no acompanhamento terapêutico: o caso Júlia.  In: CARROZZO, Nelson Luiz. A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. São Paulo: Escuta, 1991.
  5. HIRDES, Alice. A reforma psiquiátrica no Brasil: uma (re) visão. Ciênc. saúde coletiva vol.14 no.1 Rio de Janeiro, 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232009000 100036&lang=pt  Acesso em: 02 ago. 2010.
  6. IBRAHIM, César. Do louco à loucura: percurso do auxiliar psiquiátrico no Rio de Janeiro. In: CARROZZO, Nelson Luiz. A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. São Paulo: Escuta, 1991.
  7. MAUER, Susana Kuras de, RESNIZKY, Silvia. Acompanhamento terapêutico e pacientes psicóticos. Campinas: Papirus, 1987.
  8. SCHUBERT, René. Acompanhamento terapêutico: uma introdução. Site AT. Porto Alegre, 2010. Disponível em:  https://siteat.net/rene/ Acesso em: 15 jul. 2010.
  9. SILVA, Alex Sandro Tavares  da. Reflexões sobre a clínica do acompanhamento terapêutico. Porto Alegre, 2001. Disponível em: http://siteat.wordpress.com/ Acesso em: 15 set. 2010.
  10. SIMÕES, Cristiane Helena Dias. KIRSCHBAUM, Débora Isane Ratner. Produção Científica sobre o Acompanhamento Terapêutico no Brasil de 1960 a 2003: uma análise crítica. Rev gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS), 2005.  Disponível em: http://www.seer.ufrgs.br/index.php/RevistaGauchade Enfermagem/article/viewFile/4569/2496 Acesso em: 15 jul. 2010.
  11. VERÍSSIMO, Flávio. Sobre a função do acompanhamento terapêutico na atualidade. Site AT. Porto Alegre, 2010. Disponível em: https://siteat.net/flavio-2/ Acesso em: 15 jul. 2010.

Autora: Joice Rodrigues – Graduanda em Psicologia pela PUC/RS. Artigo de Conclusão do “Curso de Capacitação em Acompanhante Terapêutico” (CTDW).

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