Sobre a função do acompanhamento terapêutico na atualidade 1


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Autor:

  • Flávio Verissimo – Psicólogo (PUC-SP), Psicanalista (Instituto Sedes Sapientiae) e Acompanhante Terapêutico desde 1995. Diretor do Entre Laços – Núcleo de Atenção à Primeira Infância desde 2006. Fones: (11) 367855669 e (11) 91023026. E-mail: [email protected]. São Paulo, SP.

Gostaria de dar seqüência a nossa conversa, iniciada no artigo anterior, em que falamos sobre o desenrolar do acompanhamento sobre a ótica da história da loucura. Aqui, no entanto, falarei sobre como a função do at foi se desenvolvendo, da época do seu surgimento, nas comunidades terapêuticas, até os dias de hoje.

Nas comunidades terapêuticas, o acompanhante tinha uma função de auxiliar psiquiátrico; era ele quem estava mais próximo do paciente e ajudava a administrar a medicação, bem como auxiliava o psiquiatra a obter dados que o at dispunha graças a sua proximidade com os pacientes. Cabe ressaltar que isso ocorria dentro das instituições, já que o at não saia com os pacientes, e que os pacientes em questão eram em sua grande maioria psicóticos.

Com o desmonte das comunidades terapêuticas, o at passa a ter função extramuros, circulando com o paciente pelas ruas da cidade e na sua casa. É daí que nasce uma das funções principais do acompanhamento: reinserir o paciente, retraído por conta de sua crise psíquica, no meio social. Como vimos, a antipsiquiatria teve como mote principal a compreensão da loucura como um produto social, redistribuindo as suas causas à comunidade e retirando seu caráter exclusivamente individual. O at intervém nesse sentido, não só reinserindo o louco no social, mas também flexibilizando o entorno quando possível. Um exemplo bastante claro vem de uma época em que o CAPS Itapeva mantinha um carrinho de cachorro quente na Avenida Paulista. Os transeuntes, em sua maioria, conheciam o serviço e, conhecendo suas especificidades, toleravam hot-dogs que eventualmente saiam sem salsicha ou que demoravam um pouco para serem confeccionados. Desenvolveu-se o que poderíamos chamar de espaço potencial, onde o ambiente – formado pelas pessoas que ali passavam diariamente – tornou-se continente ao modus operandi característico dos “loucos” que vendiam aqueles cachorros-quentes.

Com o passar do tempo, o AT deixou de ser um recurso exclusivamente para psicóticos. Compreendeu-se que dele poderiam se beneficiar todos aqueles que, por conta de fragilidades na constituição do ego, vieram a ter uma crise e a perder a possibilidade de circulação no tecido urbano. A função do at, em decorrência disso, se ampliou, passando a ser a de reconstruir (ou em alguns casos, de construir) um suporte egóico que permitisse ao sujeito estar no mundo, situar-se frente aos outros e estabelecer relações sem que isso significasse uma ameaça. Cabe ressaltar que não estamos falando necessariamente de constituir um ego, mas em muitos casos apenas de formar suplências, isto é, de construir, através da relação at-paciente, substitutos que possibilitem ao sujeito, mesmo psicótico, circular livre de ameaças (ou apesar delas). Estas funções são tão amplas quanto são as funções do ego: servir como modelo de identificação, espelhamento da subjetividade do paciente, nomeação dos afetos, necessidades e desejos, discriminação entre realidade subjetiva e objetiva, continência aos momentos de angústia, “apresentação” de objetos e lugares que possam ser significativos, enfim, funções que possibilitem ao sujeito que se desorganizou psiquicamente por conta de uma crise, se reorganizar de modo a poder se relacionar e produzir a partir de seus elementos subjetivos.

Em seu rico texto “O Ego e o Id”, Freud descreve o ego como um servo submetido a três senhores: as exigências do mundo externo, as exigências do mundo pulsional e ao superego. Não por acaso, Kleber Barreto em seu livro “Ética e Técnica no Acompanhamento Terapêutico”, concede ao at uma função análoga a de Sancho Pança frente a Dom Quixote (embora às vezes as funções se invertam). O at acompanha o paciente, daí seu nome. Não o guia, não o segue: fornece a ele entornos minimamente necessários para “sair da toca” que a crise o enfia, através da relação necessariamente criada entre ambos que em muitos aspectos se assemelha à amizade. É essa a força do acompanhamento, lugar a ser conquistado que lhe possibilita atuar como facilitador dos relacionamentos entre o paciente e o mundo, seja esse mundo interno e/ou externo.

Artigo publicado no “Site AT” em 21/04/2010.

Supervisão em AT.

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