Uma Breve História da Loucura e do AT


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Autor:

  • Flávio Verissimo – Psicólogo (PUC-SP), Psicanalista (Instituto Sedes Sapientiae) e Acompanhante Terapêutico desde 1995. Diretor do Entre Laços – Núcleo de Atenção à Primeira Infância desde 2006. Fones: (11) 367855669 e (11) 91023026. E-mail:[email protected], São Paulo, SP.

Sem saber ao certo o grau de conhecimento de vocês leitores a respeito de at e da loucura, achei conveniente “começar pelo começo”: vou falar um pouco da história da loucura e de como ela desembocou no surgimento do AT. Vamos contextualizar estas coisas para em outro momento discutirmos os seus desdobramentos. Uso “discutir” porque espero criar, neste espaço, um ambiente de diálogo, onde possamos trocar impressões de forma que os textos estejam bastante próximos dos questionamentos que vocês tenham em mente. Proponho então que a via tenha mão dupla, e para isso meu e-mail está disponível no final do texto. Sugiro que, antes de prosseguir a leitura, você reflita por alguns instantes sobre o que seria a loucura na sua concepção. Se possível, anote num papel, para retornar a ele depois e se situar em meio às concepções históricas.

Na Grécia antiga, o louco era visto como um portador de um saber divino, intermediador entre os mortais e os imortais. Esta concepção será retomada no mundo europeu mais tarde. Mas antes disso, na Idade Média, havia em algumas cidades lugares que funcionavam como depósitos, nos quais iam parar os loucos “locais”. Não eram locais de tratamento, eram só locais em que eles ficavam confinados. Os loucos estrangeiros eram escorraçados e expulsos, indo muitas vezes parar nas Naus dos Loucos (Narrenschiff), que eram nada mais do que depósitos navegantes, que iam circulando de porto em porto e recebiam os loucos expulsos das cidades.

Os loucos eram proibidos de freqüentar igrejas, e ocorria de serem chicoteados em praça pública se o fizessem, ou perseguidos pela população e postos a correr das cidades a bastonadas, como uma espécie de jogo.

Com o fim da lepra, por volta dos séculos XIV e XV, os leprosários são desocupados pelos doentes, e passam a ser o local de depósito dos loucos. Local físico que remete a um local simbólico: da doença (imaginariamente) contagiosa e por isso repulsiva, que atemoriza a todos e deve ser isolada, como era antes a lepra.

No final da Idade Média (segunda metade do séc. XV), como na Grécia Antiga, o louco passa a ser visto como detentor da verdade, uma verdade crítica, onde só através da loucura se poderia acessar uma verdade maior. Esta concepção tem como base a idéia de que a razão pura levaria ao engano, à ilusão de uma realidade diferenciada da realidade concebida pelo divino. A loucura então se apresenta enquanto o engano do engano, a possibilidade de atravessamento do engôdo de se pensar que a realidade percebida é a realidade última das coisas.

No Renascimento, a loucura se torna rainha dos vícios e das virtudes, algo que transcende a ordem maniqueísta do bem e do mal. A loucura desemboca num universo moral, em que os loucos são os ávaros, delatores, adúlteros, bêbados, etc.

O Classicismo (séc. XVI) faz da loucura uma forma de razão. Segundo este conceito, “recusar-se ao desatino é privar-se da razão” (FOUCAULT, 1972, p. 33), pois a única razão possível incluiria a loucura em si mesma. A razão e a loucura se aproximam e se confundem, de modo que, segundo Pascal (p. 36), “os homens são tão necessariamente loucos, que não ser louco significaria ser louco de um outro tipo de loucura”.

Nos séculos XVI e XVII, surge a concepção trágica da loucura, onde ela é concebida enquanto uma ilusão que opera sobre o dilaceramento e sobre a morte. Cervantes, com D. Quixote e Shakespeare, com Hamlet, personificam o estereótipo do louco dessa época.

Ainda no séc. XVII a partir da lógica do Cogito ergo sum, Descartes sugere que o Homem “são” questiona a si mesmo, enquanto o louco não o faz. Isso tem conseqüências trágicas: ao não ser considerado portador de razão, o louco dessa época é tratado como animal, jogado em Casas de Internação, que eram locais sujos, sem ventilação, sem luz e sem roupas, sob a vigilância de verdadeiros carcereiros. Esse procedimento vigora até o final do século XVII.

No período de 1790 a 1840 predomina a ascensão do saber médico sobre a loucura, quando ela passa a ser domesticada através de procedimentos como medicalização, eletrochoques, entre outros tratamentos que mais pareciam com torturas que como tentativas de cura.

A partir de 1955, já sob influência das idéias freudianas, surge a antipsiquiatria, que como o próprio nome diz, contesta o saber médico vigente, entendendo o enclausuramento do louco como um ato higienista e político. Acusa a psiquiatria de tentar tornar científico o tratamento moral antes dado a loucura. Essa corrente compara o manicômio a uma prisão, e tem como ideal a reabsorção do louco no tecido social, com base na idéia de que a loucura é produto deste, e cabe a sociedade absorvê-la em seu cotidiano.

Foi com base nesses ideais da antipsiquiatria que são criadas as comunidades terapêuticas. A proposta era a de democratizar essa estrutura diminuindo drasticamente a separação entre os diferentes níveis, estimulando a comunicação entre todos os membros, incluindo-os no processo terapêutico. No Brasil, é no final dos anos 60 que esse movimento toma corpo através de comunidades terapêuticas no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. É nesse contexto que surge a figura do auxiliar psiquiátrico, que tem como função prestar cuidado afetivamente próximo ao paciente em agudo sofrimento psíquico. Estes profissionais ainda não estavam encarregados de fazer ponte com o lado de fora das instituições, restringindo-se ao seu espaço interno.

No final da década de 70 é trazida da Argentina a idéia do auxiliar terapêutico como ponte entre a instituição psiquiátrica e o ‘fora’, idéia muito bem recebida por conta do desmonte das comunidades terapêuticas nessa época. Esta função era exercida principalmente por estudantes de psicologia, medicina e ciências sociais. Em 1981, este profissional passa a ser chamado de amigo qualificado, reforçando a função do vínculo no tratamento. Após alguns anos, se optou por modificar o nome para acompanhante terapêutico, sob argumento de evitar confusões, auxiliar na discriminação entre acompanhante e acompanhado e ressaltar o caráter profissional do vínculo, em detrimento do aspecto de continência em termos de amizade.

Hoje o acompanhamento é um recurso que se torna cada vez mais indispensável em situações de reintegração social daquele que, em virtude de seu sofrimento psíquico, se enclausurou numa instituição ou em sua própria casa. O uso deste recurso tem se ampliado para muito além dos casos de psicose, revelando-se eficaz nos tratamentos de fobias, depressão, TOC, histerias graves, dependências químicas, entre outras patologias que têm em comum a quebra dos vínculos sociais.

Referências Bibliográficas

BARRETO, Kleber Duarte – Ética e Técnica no Acompanhamento Terapêutico – Andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Unimarco, 1998.

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE COMUNIDADES TERAPÊUTICAS: http://www.febract.org.br/comunidades.htm

FOUCAULT, Michel – História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 1972.

PEIXEIRO, Maíra: http://www.portaldoenvelhecimento.net/artigos/artigo1151.htm

Artigo publicado no “Site AT” em 02/03/2010.

Supervisão em AT.

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