A Construção da Saúde Mental no Brasil Relacionada às Novas Práticas de Promover Saúde: O Nascimento do Acompanhamento Terapêutico


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A Construção da Saúde Mental no Brasil Relacionada às Novas Práticas de Promover Saúde: O Nascimento do Acompanhamento Terapêutico

Resumo: a loucura, no capitalismo, constituída como doença mental, nem sempre obteve tal definição, esta, foi traçada em cada época da história. Este trabalho tem por objetivo dialogar sobre a história ocidental da loucura, enfatizando, principalmente, a construção da loucura no Brasil e relacionando com o nascimento do Acompanhamento Terapêutico no Brasil. Pensando sobre este tema se pretende discutir os contextos aos quais as sociedades ocidentais definiram a loucura e o que isto reflete na contemporaneidade.

Palavras-chave: história, loucura, Acompanhamento Terapêutico.

 

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Introdução – A Construção da Saúde Mental no Brasil Relacionada às Novas Práticas de Promover Saúde: O Nascimento do Acompanhamento Terapêutico

A loucura possui uma longa história que surge a partir de diversas tradições culturais.

Esta já se passou tanto como um ato de divindade, quanto como uma possessão demoníaca ou mesmo como doença, a qual os sujeitos possuidores eram submetidos a um estado de cura.

Estas tradições refletem até os dias atuais em relação à construção da loucura, desencadeando formas subjetivas de percebê-la.

 

História da Loucura: a Reforma Psiquiátrica

A reforma psiquiátrica surge para desmistificar os ideais clássicos da loucura, possibilitando a constituição de um saber a partir da desinstitucionalização dos sujeitos.

Com isto, a prática do acompanhamento terapêutico se desenvolve ao longo desta reforma como criadora de estratégias clínicas, as quais caminham junto à desistitucionalização garantindo os direitos e a circulação de pessoas que sofrem com questões de saúde mental no cotidiano das cidades, fora dos contextos institucionais e hospitalares (Nardi, M. 2012).

A partir de um estudo bibliográfico sobre o tema, decidiu-se apresentar, neste trabalho, a história ocidental (eurocêntrica), tendo em vista a grande influência europeia na invenção do Brasil, e pensar assim, as problemáticas brasileiras de como esta história chega ao Brasil.

Desse modo, pretende-se refletir sobre a história da loucura junto ao acompanhamento terapêutico a partir do contexto social e histórico brasileiro.

 

Infográfico AT: Objetivamente… O Que é Acompanhamento Terapêutico?

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A História Clássica da Loucura numa Perspectiva Europeia

O período clássico da história europeia se desenvolve principalmente com as civilizações grega e romana, tendo como principais características desses povos a mitologia, além do crescimento da ciência da filosofia.

A cultura clássica tem uma grande importância na construção da sociedade contemporânea ocidental, principalmente pela produção de intelectuais como Sócrates, Platão, Aristóteles, Heródoto, Hipócrates, entre outros.

 

História da Loucura na Idade Clássica

Na Antiguidade, a doença mental era vista como uma manifestação divina, algo com características específicas e definidas, atribuídas à teologia.

Entidades sobrenaturais, por intervenção dos deuses. Assim, a loucura era determinada pelas forças celestiais.

O ataque epiléptico, intitulado a doença sagrada, significava uma profecia quando ocorria durante os comícios, tal evento era interpretado como uma intervenção divina, sendo um sinal de que não se deveria acreditar no que dizia o orador (Afonso, A. et al, 1997).

Com isso, o louco era visto como um portador de um saber divino, intermediador entre os mortais e imortais (Veríssimo, F., 2010).

Sendo assim, a razão do homem era roubada, por uma perspectiva mitológica.

Com o passar do tempo, ainda na Idade Clássica, a loucura perde o sentido místico, passando a ser vista como delírios e manias, sendo, agora, parte do interior do homem e se desenvolvendo a partir de conflitos entre os desejos e as normas sociais.

Assim, criam-se práticas de eliminação compulsória, como o extermínio de recém-nascidos, os quais possuíam “problemas físicos”, entre outros.

 

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História da Loucura na Idade Média

A passagem da Idade Clássica para a Idade Média se consolidou com a desagregação do Império Romano do Ocidente.

Este novo período teve seu apogeu entre os séculos V e XV, e seu término com o fim do Império Romano no Oriente e com a chegada dos europeus na América.

Neste período a grande maioria dos cidadãos vivia no campo, tendo como uma das maiores características a busca da autossuficiência.

A igreja católica se tornou a instituição mais poderosa desta época, com  um sistema hierarquizado e um discurso dominador escondido atrás das divindades.

O poder político pertencia aos senhores donos de terra, no entanto, a sociedade feudal estabeleceu uma hierarquia social na qual o clero ocupava o topo, abaixo estaria à nobreza, formada pelos senhores do feudo (donos das terras) e por fim os camponeses.

A Idade Média é marcada pelo feudalismo, tal como as Cruzadas, a Guerra dos Cem Anos, além de grandes pandemias de pestes e revoltas camponesas.

Com a ascensão do cristianismo a loucura ganha novos paradigmas.

No discurso de que todo o sujeito possui uma alma, o louco é de certa forma esquecido, principalmente pelo fato de que até o fim das Cruzadas a lepra se transforma em um dos grandes maus da Europa.

E, assim, os leprosos tornam-se a grande preocupação da sociedade, sendo banidos das cidades, e, ao partir do principio da purificação do sujeito, a segregação se torna um ritual, pois somente assim o leproso alcançaria a salvação.

Com isto, ainda se acreditava que, pessoas com alguma diferença, seja física ou mental, estavam possuídas pelo demônio.

Por conseguinte, a loucura passou a ser tratada através de exorcismos, acorrentamento dos loucos ou até mesmo, queimando-os, para que alcançassem a purificação.

Com o fim da lepra, o espaço que antes era ocupado por essa passa a ser preenchido pela pobreza e pela loucura, os quais eram entendidos como uma espécie de purgatório terreno (Ribeiro, B. & Pinto V., 2011).

Tais razões tornaram a loucura algo insuportável perante a sociedade, unindo-a a outros grupos de excluídos.

 

História da Loucura no Renascimento

O Renascimento surge no fim da Idade Média, com o propósito de romper com as tradições religiosas.

O período se baseia no pensamento científico.

Esse movimento burguês apontava uma cultura laica e definida pela razão.

 

História da Loucura na Idade Moderna

Neste momento de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna, a loucura perde seu sentido divino e se liga a moralidade, esta então passa a ser um fenômeno relacionado à falta da razão.

 

Ao final da Idade Média, o homem europeu estabelece relação com alguma coisa que confusamente designa Loucura, Demência, Desrazão. Mas essa relação é experienciada em estado livre, isto é, a loucura circula, faz parte da vida cotidiana e é uma experiência possível para cada um, antes exaltada do que dominada (Frayse-Pereira, 1984).

 

Até meados do século XV, a loucura fazia parte do cenário comum da sociedade, ou seja, mesmo com as crenças e descrenças sobre a loucura, ela fazia parte do contexto, não havendo hábitos tão fortes de exclusão.

Neste período, apenas os “doentes mentais” com possíveis curas eram retirados das cidades.

Foi nesta passagem de um período histórico para outro, com um forte movimento renascentista que surgiu a “Nau dos loucos”, barco criado para embarcar os loucos, a fim de, escorraça-los dos muros das cidades.

Narrenschiff – a Nau dos loucos – era o barco que levava a carga insana de uma cidade para outra (Foucault, 2005).

Estes partiam sem destino, vagavam de uma cidade a outra, com um percurso incerto, talvez se ligando ao personagem da loucura, um ser incerto perante a sociedade.

Contudo, durante o renascentismo o louco também ganhou um espaço de sabedoria relacionando-o à linguagem das artes, como, pintura, literatura e teatro, ou seja, em áreas que a ilusão deveria ser mantida para que houvesse o seu apogeu.

 

Nos meados do século XVII, brusca mudança; o mundo da loucura vai tornar-se o mundo da exclusão (Foucault, 1994).

 

História da Loucura, Revolução Industrial e Capitalismo

Com a Revolução Industrial, ou seja, o inicio do capitalismo, a loucura perde seu espaço, pois não se enquadra no sistema de produção que se cria.

Este período é caracterizado pela substituição do trabalho artesanal pelo uso de máquinas, sendo a partir disto assalariado.

A Revolução Industrial possibilitou a propagação do capitalismo, havendo grande aumento na produtividade dos trabalhadores e uma ampliação na acumulação de capital.

Seguindo a lógica da Revolução Industrial, todos devem produzir, e isso ocorre nas fábricas, e não mais no campo.

Assim, todos aqueles que não se enquadram nesta proposta participarão do grupo dos excluídos.

A loucura, neste momento deixa de ser definida como avidez e passa a ser vista como ociosidade. Ocorrendo, neste contexto, em toda a Europa, uma repressão à ociosidade.

Com isto criam-se medidas de repressão através de instituições, como casas de correção e de trabalho, assim como, os hospitais gerais, que, no entanto, não tinham como objetivo a cura, mas a limpeza das cidades, assim como promover o trabalho aos “desocupados” (Tudis, C. & Costa N. et al, 2001).

 

Durante a Idade Média  a percepção social da  loucura, representada pela ética do internamento, não se cruza com a elaboração de conhecimento sobre a loucura. O internamento na Idade Clássica é baseado em uma prática de ‘proteção’ e guarda, como um jardim das espécies; diferentemente do século XVIII, marcado pela convergência entre percepção, dedução e conhecimento, ganhando o internamento características médicas e terapêuticas. Durante a segunda metade do século XVIII, a desrazão, gradativamente, vai perdendo o espaço e a alienação ocupa, agora, o lugar como critério de distinção do louco ante a ordem social. Este percurso prático/discursivo tem na instituição da doença mental o objeto fundante do saber psiquiátrico. (Amarante et al, 1998).

 

Neste contexto o saber médico ganhou grande influência na construção da loucura e assim, segundo Paulo Amarante

 

A caracterização do louco, enquanto personagem representante de risco e periculosidade social, inaugura a institucionalização da loucura pela medicina e a ordenação do espaço hospitalar por esta categoria profissional (1998).

 

A loucura passa a ser classificada como doença, e, portanto, tratada pela medicina moderna, estabelecendo-a como um problema de ordem moral a qual deveria ser destinada ao isolamento.

Entretanto, com o surgimento do iluminismo, no final do século XVIII, a Europa presencia mudanças políticas, econômicas e sociais.

O século das luzes apresenta à sociedade ideais de liberdade, fraternidade e igualdade.

Esses princípios denunciam as internações das doenças mentais, muitas vezes disfarçadas pelo tratamento médico.

Assim, Pinel na França, Tuke na Inglaterra, entre outros, criam um movimento de Reforma.

Ele tem por bases humanitárias, o objetivo de oferecer aos loucos o cuidado psiquiátrico sistemático e libertando-os das correntes, porém este gesto nem sempre os proporcionou um espaço de liberdade.

Mesmo com o rompimento das amarras físicas se constrói outros tipos de amarras, como a ciência, que como cita Amarante:

 

[…] classifica e acorrenta como objeto de saberes/discursos atualizados na instituição da doença mental (1998).

Acompanhamento Terapêutico: o efeito político da clínica de rua

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A História da  Loucura no Brasil e o Nascimento do Acompanhamento Terapêutico

A chegada dos Europeus na América desencadeou uma nova civilização marcada pela exploração e por muitas revoltas, principalmente estrangeiras em relação às disputas de terras, assim como, em relação aos nativos que, aqui, habitavam.

O Brasil Colônia se desenvolve no contexto de grande escravidão, tanto indígena, quanto africana.

 

Pois será exatamente esta característica central da vida econômica da colônia – o trabalho baseado na atividade servil – que condicionará a situação social do período, moldará preconceitos e determinará transformações e consequências que terminarão por exigir providências e ações concretas (Tundis, S. & Costa, N., 2001) .

 

Assim, como na Europa, nos séculos XVII e XVIII, a ociosidade desagrada a sociedade. A desordem passa a perturbar a paz burguesa, e, impede o desenvolvimento econômico da nação.

 

A vida social da época aparece assim fortemente polarizada entre os dois extremos da vida social; de um lado uma minoria de senhores e proprietários e, de outro, a multidão de escravos; entre estes, a massa indefinida que não cessa de crescer dos inadaptados, dos indivíduos sem trabalho definido ou totalmente sem trabalho. […] É essa casta numerosa dos ‘vadios’ que nas cidades e no campo é tão numerosa e de tal forma caracterizada por sua ociosidade e turbulência, que se torna uma das preocupações constantes das autoridades […] (Tundis, S. & Costa, N., 2001).

 

Diante desta situação precisava-se de uma solução para com as pessoas que vagavam nas cidades.

Uma das alternativas foi à inclusão destes sujeitos nas Santas Casas de Misericórdia. Porém, estes não recebiam o mesmo tratamento que os demais.

Reprimidos por maus tratos físicos e sujeitados a insuficiência de nutrição e doenças infecciosas, estes sujeitos eram acumulados nos porões destas instituições, sem absolutamente nenhuma assistência médica.

Neste contexto, Tundis & Costa descrevem que:

 

O destino do doente mental seguirá irremediavelmente paralelo ao dos marginalizados de outra natureza: exclusão em hospitais, arremedos de prisões, reeducação por laboterapias, caricaturas de campos de trabalho forçado (2001).

 

Considerando que esses espaços vinculados à loucura eram destinados aos pobres – nos casos de famílias da nobreza, estes eram enviados à Europa para o tratamento da loucura – com a abolição da escravidão.

Tendo em vista a numerosidade de ociosos nas ruas das cidades, fundou-se o primeiro hospício. Ele recebeu o nome do imperador D. Pedro II, no Rio de Janeiro, fortemente vinculado à Santa Casa de Misericórdia.

Ele teria o propósito de assistir a todo o império, com capacidade para 350 pessoas.

Por volta de um ano de fundação, este hospício já teria atingido a lotação completa de loucos, por esse motivo, não se aboliu as internações nos porões das Santas Casas de Misericórdia.

Com isso, obteve-se com urgência a construção de novos hospícios e casas de asilos pelo Império.

A localização do hospício se encontrava afastado das cidades, em um local de difícil acesso.

Porém, com o crescimento urbano, ambos foram se aproximando e, juntamente, abeirava-se o pavor do povo em relação aos insanos que habitavam dentre os muros do hospício.

Neste contexto, os internados, eram tratados pelas camisolas de força, por jejuns, cacetadas, e até a morte.

Logo após a proclamação da república, surge uma nova psiquiatria, sendo agora científica e junto a esta, a Assistência Médico-Legal aos Alienados. Ou seja, esta nova psiquiatria tem por síntese o conhecimento médico baseado nos objetos controláveis, observáveis e mensuráveis.

Neste mesmo período, há um forte movimento sanitarista, o qual propõe uma reforma em busca de novos planos de assistência à população.

Com isso, a saúde pública e a psiquiatria se unem com o propósito de retirar das ruas das cidades àqueles que, no imaginário social, traziam doenças aos cidadãos, os cortiços, os desocupados, entre outros.

Assim, surge a ideia da implantação de colônias agrícolas para doentes mentais, tendo como princípio diminuir, de certa forma, a superlotação dos hospícios, com o propósito de solucionar o problema do louco, a partir de práticas (não) terapêuticas, a fim de assistir a todas as fases do progresso da doença.

Porém, o modo (não) terapêutico de lidar com o louco não muda, os maus tratos continuam e a população de internados aumentava. E, assim, a demanda para construção de novas instituições hospitalares ampliava.

Tundis & Costa justificam este crescimento da população pelo fato de não haver um propósito que se pudesse agrupar como clínico ou terapêutico, estes autores descrevem que:

 

[…] desde pessoas que lá chegaram após uma passagem por um hospital psiquiátrico até indivíduos em cuja história de vida consta, como determinante de internação, ‘doenças’ como a de moças namoradeiras que foram desvirginadas e desonradas, crianças que se tornaram órfãs, mendigos ou arruaceiros que, pela intermediação de um chefe político local ou um delegado de polícia, encontraram no encaminhamento ao hospício a solução definitiva (2001).

 

Diante disto nota-se que à psiquiatria brasileira competia, neste momento, apenas em promover a ordem social, conforme a cultura propunha.

O modelo assistencialista e hospitalocêntrico que se firmava nesta época é rompido pela luta antimanicomial, a partir da Reforma Psiquiátrica, com base na desmistificação da legislação de 1934 que propõe a hospitalização e o asilamento do doente mental, visando a ordem pública.

 

Na segunda metade da década de 1970, no contexto do combate ao Estado autoritário, emergem as críticas à ineficiência da assistência pública em saúde e ao caráter privatista da política de saúde do governo central. Além disso, surgem as denúncias de fraude no sistema de financiamento dos serviços e, o que é mais importante para o posterior movimento da reforma, as denúncias do abandono, da violência e dos maus-tratos a que eram submetidos os pacientes internados nos muitos e grandes hospícios do país. Não se criticavam os pressupostos do asilo e da psiquiatria, mas seus excessos ou desvios. Em 1978, é criado o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). Combinando reivindicações trabalhistas e um discurso humanitário, o MTSM alcançou grande repercussão e, nos anos seguintes, liderou os acontecimentos que fizeram avançar a luta até seu caráter definidamente antimanicomial. (Tenório, F., 2002)

 

A Reforma Psiquiátrica surge como um desmonte da cultura do manicômio, propondo a desinstitucionalização da loucura, a fim de que haja um deslocamento das práticas psiquiátricas para práticas de cuidado realizadas na comunidade (Gonçalves, A. M. & Sena, R. R., 2001).

Este movimento político e social que teve a pretensão de construir um novo estatuto ao louco, que lhe garantisse cidadania, respeitando seus direitos.

Para isso ocorreram modificações no sistema de tratamento clínico eliminando gradualmente a internação como forma de exclusão social.

Consequentemente criam-se novas maneiras de promover saúde, tendo como ponto de partida que a doença mental não é a falta de saúde, mas um sofrimento psíquico com possíveis tratamentos.

Assim, surge o Acompanhamento Terapêutico, como uma abordagem diferenciada, baseada na Reforma Psiquiátrica e comprometida à socialização dos sujeitos.

 

Essa aproximação torna-se possível porque o Acompanhamento Terapêutico, ao promover a circulação pelo espaço urbano de sujeitos que, até então, estavam enclausurados dentro dos manicômios, acaba apostando na produção de novos modos de subjetivação a partir desse encontro das diferenças (Tavares, A., 2006).

 

O Acompanhamento Terapêutico surge, no Brasil na década de 1960, no contexto da ditadura militar, no entanto, com o nome de atendente psiquiátrico.

Neste momento histórico, a repressão militar fechou as instituições e o profissional saiu da instituição para a rua como espaço terapêutico, assim, para este profissional, a rua se tornou um espaço clínico, sendo um local possível para  promover saúde.

Esta prática se desenvolveu primeiramente na cidade de Porto Alegre, com Marcelo Blaya, na Comunidade Terapêutica Clínica Pinel, atendendo em grupo.

Mais tarde, no Rio de Janeiro troca-se o nome desta abordagem para Atendente Psiquiátrico, com o apoio de Carmem Dametto, na Clínica Vila Pinheiros, por influência da psicanálise.

E, apenas em 1970, na Argentina, se desenvolve a prática como “Amigo Qualificado”. Porém, devido as proporções que este nome causou, em 1971 chega-se a atual nomenclatura: “acompanhante terapêutico”.

Como de costume, o saber médico prevalecia, e infelizmente em muitos casos ainda prevalece, no contexto do acompanhante terapêutico não foi diferente. Havia uma grande relação de poder entre psicólogo/psiquiatra e acompanhante terapêutico, tendo, inclusive, por muito tempo como a definição da prática, segundo José Carlos Eggers:

 

Definiria o AT como um profissional de saúde mental que só existe dentro da equipe terapêutica, com um papel complementar ao do psicoterapeuta, agindo fora do setting no tratamento de pacientes críticos e com uma função específica de ensinar a operar no marco social (1985).

 

Atualmente esta definição não é mais usada, pelo fato de o AT não existir somente dentro de uma equipe terapêutica.

Conforme alguns autores, esta prática, atualmente, não deve ser subordinada a um saber científico, podendo este ser autônomo, sendo um profissional da saúde, sem a necessidade de haver um “cargo chefe”.

O setting se comporta em qualquer espaço que o AT, o paciente e a família suportem frequentar, além disso, o trabalho não necessariamente deva ser desenvolvido apenas com pacientes críticos, mas com sujeitos com sofrimentos psíquicos.

Com esta possível evolução da definição da prática, pôde se desvencilhar do saber médico.

 

Acompanhamento Terapêutico: a clínica de rua

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Conclusão – A Construção da Saúde Mental no Brasil Relacionada às Novas Práticas de Promover Saúde: O Nascimento do Acompanhamento Terapêutico

A loucura se desenvolveu ao longo da história em diferentes culturas e de diversas formas, podendo afirmar, inclusive, que esta se firmou de modo aspiral, por passar por diversas vezes pelo mesmo ponto, porém em uma sociedade diferente, com métodos modificados de tratamento.

Quando a insanidade é vista como doença, o saber médico passa a ganhar grande poder, podendo assim, determinar o que seria loucura e o que não poderia ser.

Submetendo, por muito tempo, o louco em internações, transformando o sistema em um processo assistencial e hospitalocêntrico.

É de extrema importância relembrar que se teve como principio a influência europeia na história do Brasil, e consequentemente as influencias europeias que se obteve na construção da loucura no Brasil, principalmente na luta antimanicomial.

Tendo em vista que a Reforma Psiquiátrica brasileira teve um grande pilar, que seriam as Reformas Psiquiátricas na francesa e italiana.

Este movimento surge como modo de socialização daquele que não era mais visto como um cidadão, então a partir da desinstitucionalização dos sujeitos, pôde-se tornar a prática psiquiátrica em um cuidado desospitalizado, dando cidadania ao louco.

A prática do Acompanhamento Terapêutico se desenvolve juntamente com a reforma psiquiátrica, com o objetivo de promover saúde em um ambiente que proporcione a socialização do paciente, desmistificando tanto o saber médico quanto os modos de perceber a loucura como antissocial.

 

Referências

  1. AFONSO, A. et al. A loucura e o controle das emoções. Revista de Psicofisiologia, 1(1), 1997.                                                                                        Disponível em: http://www.icb.ufmg.br/labs/lpf/revista/revista1/volume1_loucura/cap1.htm
  2. AMARANTE, Paulo. et al. Loucos pela vida: A trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. 2º ed. Editora Fiocruz. Rio de Janeiro, 2001.
  3. FOUCAULT, M. Doença mental e Psicologia. 5ª ed. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1994. Tradução de Lilian Rose Shalders.
  4.                  . História da Loucura na Idade Clássica. 8ª ed. Perspectiva. São Paulo, 2005. In: RIBEIRO, B. & PINTO V. Entrando na “Nau dos loucos”: breve revisão da história da loucura e seus desdobramentos. 2011. Disponível em: http://periodicos.uniformg.edu.br:21011/periodicos/index.php/testeconexaocienc ia/article/view/50/77
  5. FRAYSE-PEREIRA, J. A. O que é loucura. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1984. In: RIBEIRO, B. & PINTO V. Entrando na “Nau dos loucos”: breve revisão da história da loucura e seus desdobramentos. 2011. Disponível em: http://periodicos.uniformg.edu.br:21011/periodicos/index.php/testeconexaocienc ia/article/view/50/77
  6. GONÇALVES, Alda Martins & SENA, Roseni Rosângela. A Reforma Psiquiátrica no Brasil: Contextualização e reflexos sobre o cuidado com o doente mental na família. Revista Latino América, março de 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v9n2/11514.pdf
  7. EGGERS, José Carlos. O Acompanhamento Terapêutico: Um Recurso Técnico em Psicoterapia de Pacientes Críticos. In: Revista de Psiquiatria- RS/nº7. Porto Alegre, janeiro/fevereiro. In: Baseggio, Ananda Rech. Acompanhamento Terapêutico auxiliando na prática terapêutica ocupacional. Trabalho de Conclusão do Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico. Porto Alegre, 2009. Disponível em: https://siteat.net
  8. NARDI, Marycels. O acompanhamento terapêutico como ferramenta de inclusão social: uma reflexão. Trabalho de Conclusão do Curso de
  9. Capacitação em Acompanhamento Terapêutico. Porto Alegre, 2012. Disponível em: https://siteat.net/marycels/
  10. RIBEIRO, B. & PINTO V. Entrando na “Nau dos loucos”: breve revisão da história da loucura e seus desdobramentos. 2011. Disponível em: http://periodicos.uniformg.edu.br:21011/periodicos/index.php/testeconexaocienc ia/article/view/50/77
  11. SILVA, Alex Sandro Tavares da e SILVA, Rosane Neves da. A emergência do acompanhamento terapêutico e as políticas de saúde mental. Psicol. cienc. prof. [online]. 2006, vol.26, n.2, pp. 210-221. ISSN 1414-9893.
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  14. VERÍSSIMO, Flávio. Uma breve história da loucura e do AT. São Paulo, 2010. Disponível em: https://siteat.net/flavio/

 

Autora: Luise Toledo Kern – acadêmica do Curso de Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Formação no Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico (CTDW).

 

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