Acompanhamento Terapêutico na rede pública de saúde mental: perspectiva ética-clínica entre as redes

16 04 2014

Autores:

  • Gabriela Zuchetto – psicóloga, graduada pela Universidade Federal de Santa Maria,  formada no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da Comunidade Terapêutica D. W. Winnicott (CTW) de Porto Alegre, RS, Brasil. (55) 8100.3663 – gabizuchetto@gmail.com.
  • Pedro Henrique Carrard Sitta – Supervisor, psicólogo graduado pela Universidade de Passo Fundo, (54)8101.3317 – pedro.sitta@hotmail.com.

 

 

RESUMO

Colocada a tônica no tema Acompanhamento Terapêutico (AT), o presente artigo pretende articular algumas referências de autores que tratam da clínica, especialmente da clínica no âmbito público e do AT presente nas redes de saúde, com alguns recortes de uma experiência em saúde mental em município na região metropolitana do Rio Grande do Sul. Ainda, trazemos reflexões pessoais a respeito do que temos nos deparado em textos, de experiências e sensações vivenciadas.

Palavras-Chave: Acompanhamento terapêutico, saúde mental, clínica, política.

 

INTRODUÇÃO

Neste texto pretendemos discutir a prática do Acompanhamento Terapêutico na rede pública de saúde brasileira, ou seja, no Sistema Único de Saúde (SUS). Notamos que o AT surge nesse contexto brasileiro a partir de movimentos realizados na perspectiva clínica e política da Reforma Psiquiátrica (década de 1970) e encontra-se como um dos paradigmas que transborda e produz fissuras às barreiras da desinstitucionalização da loucura (Pelliciolli et. al; Bezerra e Dimmenstein, 2009; PALOMBINI e col.,2004). Esse processo opera gradativas mudanças no entendimento sobre a loucura e o pensamento manicomial.

O Acompanhamento Terapêutico (AT) se insere nesse contexto como uma prática relacionada ao advento das Comunidades Terapêuticas, conforme colocam Pelliciolli et. al, e a ascensão do uso de medicamentos psicotrópicos para contenção psíquica para além dos muros manicomiais. Dos diversos avanços alcançados com a Luta Antimanicomial, que, de acordo com Amarante (1996), teve seu marco inicial no ano de 1978 com o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), podemos localizar como objetivo central desse movimento a desinstitucionalização dos sujeitos portadores de sofrimento mental e da loucura.

Este trabalho tem o interesse de instrumentalizar, ou pelo menos tenta, com relação aos paradoxos e tarefas no setor público de saúde, visto que grande parte dos trabalhos encontrados em plataformas de pesquisa on-line sobre AT tratam de resquícios clínicos de um fazer privado, e não referem estratégias fundamentais inter-relacionadas aos aparelhos públicos-sociais que compõe o trabalho do AT na rede pública. Ainda que tenhamos uma gama de possibilidades de trabalho com AT, esta prática se iniciou e até hoje aparece colocada principalmente no campo da saúde mental, e é neste eixo que pensaremos o AT na rede pública de saúde.

Aqui realizaremos um garimpo em autores que ocuparam-se do acompanhamento terapêutico na esfera pública e dos paradigmas atrelados ao fazer clínico na rede pública, acompanhando suas reflexões e trazendo à tona alguns conceitos que consideramos pertinentes. Além da reflexão teórica e conceitual, conto com algumas experiências pessoais em um CAPSi e com uma entrevista-conversa realizada com duas profissionais e gestoras da saúde mental em um munícipio da região metropolitana no Rio Grande do Sul, para desenvolver esta escrita. Serão explorados alguns pontos da experiência relatada bem como, e principalmente, as percepções e sentimentos que emergiram desses encontros.

Fazemos a escolha de olhar para o AT na perspectiva da Psicanalise, para compreendê-lo enquanto dispositivo clinico e para pensar na escuta do sofrimento psíquico, como em Palombini e col.(2004), e agregamos conceitos da Filosofia da Diferença e Psicologia Social e Institucional, para compreender o AT e suas implicações institucionais.

 

ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO E CLÍNICA NA SAÚDE MENTAL

Dentre uma gama de definições possíveis, podemos olhar para o AT como uma prática clínica, a qual pode ser exercida por diversos técnicos e profissionais. De acordo com Palombini e col. (2004), o trabalho de AT na rede pública está incidindo em algumas ações de reinserção social, quando se percebe que os acompanhantes terapêuticos (at)[1] conseguem acompanhar os usuários até os mais diversos dispositivos de saúde e de assistência social presentes na cidade, imprescindíveis para o desenvolvimento da cidadania e autonomia. Com isso, os autores ressaltam como fundamental que não se perca o potencial clínico dessa prática, pois se o AT ficar restrito a incidir em questões assistenciais, retirada a dimensão clínica, corre o risco de o trabalho estar colocado unicamente como uma ortopedia.

Cabe aqui realizarmos uma breve reflexão acerca do que estamos chamando de clínica na rede pública de saúde e que comporta práticas tais como o AT, visto que podemos ter diversas formas de fazer clínico. Consideramos o AT uma clínica da diversidade, do inesperado, pois estamos falando de uma clínica que se faz ao andar, aquela que Lancetti (2012) chama de Clínica Peripatética ou a Clinica do Movimento. Essa clínica modifica a ideia de setting terapêutico, e qualquer lugar é possível para o atendimento. Almeja tomar as ruas, ainda que possa ocorrer dentro de um quarto, mas, fundamentalmente, busca as formas criativas de estar no mundo e de singularização possíveis àquele que é acompanhado.

Alguns autores tem se debruçado sobre uma conceituação de clínica que ultrapasse o individual e o privado, justamente nos termos em que estamos propondo denotar a clínica do AT. Fonseca (2012) coloca que a clínica tem sua ética e política na ação. No processo de existir ocorrem movimentos em busca daquilo que ainda não se é, e assim a clínica se deveria constituir, de verbos que produzem encontros inesperados. O clinicar estaria, de acordo com Fonseca (2012), justamente na dimensão da criação e da invenção. Tais dimensões, compondo outra produção ética-estética da operação clinica, um novo plano de funcionalidade e produção entre sujeito-terapeuta-setting, operam em constante movimento e transformação.

Pelliciolli et. al colocam que na medida em que o AT passa a ser considerado uma clinica no âmbito publico, este torna-se uma tecnologia para uma prática pública contemporânea (p.6), e refere a urgência de se superar a dicotomia publico/ privado no fazer clínico, realizando uma ação clínica como prática de cultura. Assim também, Bezerra e Dimmenstein (2009), apontam para a clínica como uma atitude de intervenção que produz experimentações e acompanha movimentos, que não reproduz lógicas tradicionais e individualizantes.

Quando esboçamos o fazer clínico com tais contornos acima, estamos definindo uma clínica que podemos chamar de transdisciplinar e indissociável das dimensões política, social, cultural, artística. É com este esboço que concebemos uma clínica inserida na rede pública de saúde, e que só pode ser colocada em esboço, pois é uma prática que busca a produção de singularidades e inesperados. No entanto, podemos colocar a seguinte questão: como ficam colocados nesta prática os arcabouços teóricos possíveis para se pensar o sofrimento psíquico?

Ao falar a partir do lugar de profissionais da psicologia, notamos que um(a) psicólogo (a), por exemplo, ao colocar-se no papel de acompanhante terapêutico (at), carrega consigo alguma perspectiva teórica em sua forma de compreender e intervir em manifestações psíquicas. De antemão podemos dizer que a prática de AT é ateórica e pode ter como aliadas técnicas distintas, porém sempre se deve levar em conta a importância primordial da escuta, que deve ser aprimorada ao longo da atuação dos ats. Todo profissional que se dedica a escuta clínico de sujeitos em sofrimento psíquico deve apostar sempre no sujeito para além de sua patologia, conforme Pelliciolli et. al. Ainda que, no inicio do trabalho, possamos nos deparar muitas vezes com sujeitos fragmentados e desvalidados a partir de seu diagnostico psiquiátrico. (Penagos, 2012)

Parece-nos que a função do at e suas respectivas intervenções são estabelecidas no encontro que se dá na prática. O profissional at também se faz ao andar. Pelliciolli et. al relatam que foi possível notar, em pesquisa realizada com ats na rede pública, uma preocupação relativa a uma certa impossibilidade de se fixar uma identidade relativa a prática que realizavam. Os autores acreditam que nenhuma identidade é construída anteriormente de condições discursivas em que são produzidas. Chévez (2012) chama a função de at de situacional, que não pode ser descrita a priori, e deve adaptar-se a distintos acontecimentos.

Podemos notar que ao longo dos tempos o entendimento sobre esta forma de atuação foi se modificando, e derivaram-se diversas denominações, atendente grude, atendente psiquiátrico, auxiliar psiquiátrico, amigo qualificado dentre outros, até chegar ao denominador comum de acompanhante terapêutico (at).

Para Lancetti (2012), o terapeuta em movimento espera-se colocar em um estado de funcionalidade denominado função-bá, expressão para além de babá, dotada de sentidos permeados as cátedras históricas referenciando a ama-de-leite, preta velha, ama-seca. Nestas figuras operavam diversas formas e posições de cuidados atravessados por posições de forças, ainda assim, sustentando a vida, a autonomia do próprio fazer. Cuidadoras de alta complexidade.

O AT como sinônimo produzido semelhante ao que LANCETTI denomina trabalho afetivo, a partir de um transclínica, que perpassa pelo manejo comum, multiplica possibilidades de ação, passa pelas bordas da técnica, para as bordas da produção ética-estética, da saúde ampliada para a saúde que transcende a clinica, que ativa o comum. O Paradoxo de trabalho ao mesmo tempo é cientifico e técnico, participando de uma organização sanitária e suas instituições. É denominado trabalho em movimento, acompanhando as bordas dos serviços, das comunidades, ativando o comum, junto aos aparelhos comunitários, públicos, sutis, cidadãos, expressivos e inventivos, transformando de virada o saber técnico e cientifico, em cultural e popular.

 

EXPERIÊNCIAS E ENCONTROS COM AT EM REDE DE SAÚDE MENTAL

Enquanto me aventurava em leituras a respeito do AT e sua inserção como prática na saúde pública, tive a oportunidade de ressignificar algumas das experiências que vivenciei como estagiária em um Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil (CAPSi). Gostaria de comentar algumas situações de atendimento clínico que realizei com crianças e adolescentes, que podem elucidar a ideia de que o AT transpõe as barreiras do setting terapêutico, e não necessariamente ocorre fora da instituição. Penso que está relacionado à função terapêutica, ao aspecto clinico-político e ao vinculo estabelecido com os sujeitos e com as instituições.

Realizei, em algumas de minhas experiências, atendimentos individuais, e quando reflito sobre possíveis planos terapêuticos, penso na possibilidade de estabelecer algo que poderíamos chamar de AT dentro da instituição. Tive a oportunidade de me encontrar com crianças que apresentavam pouquíssima comunicação e interação com o ambiente ou interações sempre agressivas e comigo também, as quais a equipe de saúde mental decidia que precisavam de um olhar individualizado e atendimento de um profissional, tateando para possibilidades terapêuticas incertas. Na época, como estagiária, recebi algumas demandas semelhantes a essa, e tais crianças e adolescentes demonstravam necessidade de movimentar-se pelo espaço do serviço, ainda que não focassem seu olhar ou ação em nenhum profissional ou objeto específico, ou simplesmente agissem de forma violenta causando sempre a repulsa de outros, e eu as acompanhava. Enquanto acompanhava, as observava atentamente, visto que as entendia muito pouco e a partir desse não saber podia escutar e perceber algumas sutilezas de suas comunicações e movimentos aparentemente imprecisos. Aos poucos buscava mediar sua relação com o ambiente e com as demais pessoas, nomeando objetos, lugares e funções dentro do serviço. Assim, aos poucos esses sujeitos que acompanhei iam estabelecendo olhares diferenciados, se identificando com alguns objetos, comunicando-se de alguma forma com as demais pessoas que por lá circulavam.

Para além dessas implicações clínicas e de definições da função do terapeuta, pretendemos colocar em reflexão a ideia de que o at pode ser um articulador e mediador entre sujeito e instituição. Dentro da instituição mesmo podem se iniciar as primeiras andanças, comunicação e laço social dos sujeitos. Dessa experiência de oferecer atendimento aos pacientes fora da sala e de outros movimentos que ocorriam na instituição, pude notar que a equipe foi abrindo possibilidade para outros jeitos de trabalhar, extrapolando técnicas convencionais e enrijecidas, passando a trabalhar mais na ótica de CAPS e menos de Ambulatórios. Quando se trata de trabalho em instituições, é preciso que haja a reflexão a respeito do quanto a instituição incide nos processos terapêuticos do sujeito e também como este pode (deve) gerar fluxos dentro da instituição, e para fora dela.

Após ter notícia de que em município da região metropolitana no Rio Grande do Sul havia instituída a prática de Acompanhamento Terapeutico na Rede de saúde mental, com a contratação de profissionais assim denominados – acompanhantes terapêuticos, busquei o contato com profissionais deste local. Marcamos uma entrevista, e lá encontrei-me com uma profissional de um CAPS e com a coordenadora de saúde mental do município.

Realizei uma entrevista que se deu em um nível de conversa informal, em que o relato livre das profissionais delineava o trajeto que iriamos seguir para conceituar e elucidar a proposta do AT. Por vezes solicitava maior exploração de alguns pontos, realizava algumas perguntas embasadas no discurso que escutava e enlaçava algumas de suas falas com aquilo que propunha manter como núcleo da minha pesquisa, o Acompanhamento Terapêutico na Rede Pública de Saúde. Abaixo seguem trechos da conversa, conceitos e ideias que, a partir de nosso olhar, demarcaram aquilo que buscávamos.

Para historicizar a instituição do profissional de at neste município, podemos localizar no final da década de 90 o primeiro movimento nesse sentido, quando foi realizado um concurso público para o cargo de at, e ingressaram dois profissionais na rede, uma delas está atuando até hoje. Nesta mesma época surgia o primeiro serviço substitutivo em saúde mental, pois até então as internações psiquiátricas eram a única forma de tratamento ao sofrimento psíquico. Com essa mudança, a demanda que se apresentava no serviço fazia com que os ats não pudessem realizar estritamente sua tarefa, estando ocupados com as tarefas de implementação do serviço substitutivo.

Aos poucos as equipes de saúde mental daquele local foram retomando o debate sobre a necessidade de se realizar o AT para dar andamento a diversos casos, no sentido de realizar atendimentos fora do serviço, inclusive domiciliar, e poder acompanhar os pacientes em determinadas ações para ganho de autonomia. Foi retomada a prática de AT por diversos profissionais, não apenas aqueles contratados como tal. Hoje há no município um total de cinco acompanhantes terapêuticos. As entrevistadas relataram que recentemente foram contratados dois profissionais redutores de danos, e que também há no munícipio um consultório na rua, dispositivos clinico- politico que também se inserem na lógica do AT, de acordo com as profissionais, visto que são ações que ocorrem na rua, onde a vida das pessoas está.

Para uma destas profissionais entrevistadas o entendimento de AT se dá, na rede de saúde pública, como uma postura ética profissional, está pra além de uma técnica ou de um dispositivo clínico, pois, nas palavras dela, está “intimamente relacionado à clínica da transdisciplinariedade e á perspectiva da Linha de Cuidado”, em que o profissional, o serviço e a rede de saúde delineiam o trajeto COM o usuário, o usuário é quem diz por onde percorrer. Percorrendo diversas leituras sobre AT, podemos notar que há certa variedade de definições para esta prática, e acreditamos que é importante a diversidade conceitual, visto que não se trata de uma prática estabelecida por determinada disciplina ou entendimento teórico, a pluralidade propicia a invenção, tão preconizada por essa terapêutica.

Quando questionei sobre o papel do AT na rede de saúde e seu impacto fora dela, colocam-me que o AT se propõe a demarcar laço da loucura com a cidade, assim como o serviço deve se propor, e está estreitamente relacionado a reafirmação e luta da Reforma Psiquiátrica, que afinal, é o que a gente faz…”. O exercício de AT na rede, juntamente com outras intervenções, propicia o exercício de cidadania dos usuários, pois estes ganham autonomia, se apropriam dos processos de saúde e de vida, e, de acordo com a percepção dessas profissionais, se encontram hoje em plena participação nas decisões do campo da saúde. Podemos perceber nesses relatos, a presença de forte emancipação e empoderamento político dos sujeitos, características preconizadas nas políticas de saúde mental (Lei 10.216, Manual de CAPS, dentre outros) e do Sistema Único de Saúde (Lei 8080, Lei 8142), relativas ao controle social.

O fora da rede de saúde, ou, podemos dizer, a cidade em si, demonstra o estranhamento, mas há acolhimento”. A presença desses usuários na rua, os quais muitas vezes encontravam-se à margem ou com dificuldades de enlace com o social, como ocorreu no desfile em ocasião do Dia da Luta Antimanicomial, parece imprimir marcas de certa cultura, em que a diferença torna-se possível, e deve ser provocada, referem as profissionais. De acordo com uma das entrevistadas, “o AT provoca na cidade a transformação, no sentido de marcar a loucura de outro jeito”. Esse outro jeito estaria para além dos sentidos comuns dados em nossa cultura para o louco e para a loucura.

A coletividade surgiu no discurso das profissionais como condição de trabalho para que todas as ações e avanços em saúde mental que tem ocorrido sejam possíveis, e para defrontar-se com os desafios. Na fala delas, colocam-se hoje como desafios a possibilidade de articular o tempo do desejo com o tempo das instituições, visto que escutar o sofrimento psíquico dando voz à loucura, é adentrar no campo do desejo. Outro desafio colocado, segundo elas, diz respeito à relação da saúde mental com o sistema judiciário, que muitas vezes exige respostas rápidas e eficientes à forma de se tratar sujeitos que podem estar colocando-se em risco, a si ou a outros, devido ao seu sofrimento.

No ensejo, podemos colocar que o AT, de acordo com Palombini e col. (2004), como uma modalidade clinica inserido no campo da saúde mental, opera como uma zona de intermediacao entre o acesso institucional de tratamento ou de atencao ao usuario e o seu acesso aos demais espacos da cidade. Podemos aqui apontar para conceito de espaço transicional, noção fundamental na obra de Winnicott, para compreender a subjetividade. Com isso, podemos pensar o quanto este autor contribui, do campo da psicanalise, com a ideia de podermos pensar na flexibilizacao do setting terapeutico, propria da pratica do AT, e também da forma e da função em que se insere o AT. O conceito de espaço transicional desenvolvido por Winnicott podemos definir como o entre, ondeocorre a analise, onde se localiza o potencial terapêutico e do próprio desenvolvimento emocional, tendo inicio nas relações de cuidado e acolhimento.

Palombini e col. (2004) referem que, se por um lado o at atende a uma demanda da instituição de saúde, dando resolução a determinados procedimentos, de outro lado expõe o atendimento integral que a população demanda, colocando em questão algumas práticas estabelecidas entre os muros da instituição, o que pode ocasionar um tensionamento importante, entre o serviço de saúde e o at.

Ao colocar o tratamento de saude para o campo da vida cotidiana, abrindo as possibilidades pra além da evolução de sintomas e diagnosticos, o at vai colocar em questao saberes cientificos que tentam se reafirmar. A criacao de novas possibilidades de encontro entre distintos saberes vai depender da abertura das equipes e gestao em saude ao que vem de fora, sendo que a inserção desse “fora” nos trabalhos em dispositivos de saúde será papel cumprido muitas vezes pelo profissional at.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Partindo da ideia de pensar a presença do Acompanhamento Terapêutico na rede pública de saúde, buscamos diversas conexões, com a teoria, com o encontro de profissionais e reflexões a partir de algumas experiências e leituras. Tais conexões nos colocam algumas implicações clínicas, éticas e políticas a respeito do tema.

Nesse contexto de ideias, conceitos e experiências, podemos definir que o Acompanhamento Terapêutico é antes uma prática institucional e não individualizada, no sentido de quebrar algumas barreiras de definições e práticas instituídas.  A prática do AT, para além de ser um dispositivo terapêutico possível na construção de planos terapêuticos individuais, mantida sua perspectiva clínica,  por vezes exerce o papel de apoio na instituição e articulador de políticas e de redes que demarcam territórios de saúde e cultura.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. AMARANTE, P. (1996). O homem e a serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz.
  2. BEZERRA, C. G.; DIMENSTEIN, M. Acompanhamento terapêutico na proposta de Alta-assistida implementada em hospital psiquiátrico: relato de uma experiência.Psic. Clin., Rio de Janeiro, vol.21, n.1, p.15 – 32, 2009.
  3. CHÉVEZ, A. Corpus del Acompanhamento Terapêutico. In: SILVA, A. T. (Org.) . E-book AT: Conexões Clínicas no Acompanhamento Terapêutico. Porto Alegre. Edição do autor, 2012.
  4. BARRETTO, K.D. (2012) Ética e Técnica no Acompanhamento Terpêutico – Andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Dobra Editorial.
  5. FONSECA, T.M.G. Clinicar. In: FONSECA, T.M.G.; NASCIMENTO, M.L.; MARASCHIN, C.(Org.)( 2012) Pesquisar na Diferença: um abecedário. Porto Alegre: Sulina.
  6. LANCETTI, A. (2012). Clínica peripatética.São Paulo: Hucitec Editora. 7 ed.
  7. PALOMBINI,A.L. e col. (2004) Acompanhamento Terapêutico na \Rede Publica – a clinica em movimento. Porto Alegre: UFRGS editora.
  8. PELLICCIOLI, E.C.; GUARESCHI, N.; BERNARDES, A. G. O. Trabalhador da Saúde Mental na Rede Pública: o Acompanhamento Terapêutico na Rede Pública. Disponível em: < http://www.rizoma.ufsc.br/pdfs/550-of7b-st2.pdf > Acesso em: 10 jun. 2013.
  9. PENAGOS, J.M.R. Del destino al destinar: apuntes desde la soledad. In: SILVA, A. T. (Org.) . E-book AT: Conexões Clínicas no Acompanhamento Terapêutico. Porto Alegre. Edição do autor, 2012.
  10. WINNICOTT, D.W. (1975) O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora.

 

Nota:

1 – Ficou instituído, nas produções bibliográficas sobre o tema, que refere-se a sigla at para acompanhante terapêutico e AT para acompanhamento terapêutico.





Acompanhamento Terapêutico com paciente borderline: benefícios neste atendimento

16 06 2013

 Autora: Laura Tomasini Potrich –  psicóloga (PUCRS), formação em Acompanhamento Terapêutico pela Comunidade Terapeutica D. W. Winnicott. laurapotrich@gmail.com

RESUMO

Tende em vista a emergência de tratamento combinado para os transtornos da personalidade limítrofe e a importância do acompanhante terapêutico como agente da saúde, fazendo parte da equipe para este tratamento, este artigo apresentará benefício do tratamento de pacientes com diagnóstico de transtorno da personalidade borderline. Serão também abordadas as características do acompanhamento terapêutico, bem como os benefícios que este recurso pode oportunizar para esses pacientes.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico; Transtorno da personalidade Borderline; Benefícios. Leia o resto deste post »





Circunscrevendo o campo do AT

17 11 2011

  • Título: Circunscrevendo o Campo Diverso, Divergente e Diferente do Acompanhamento Terapêutico.
  • Autora: Natasha Frias Nahim Bazhuni.
  • Editora: Biblioteca 24 horas.
  • São Paulo.
  • Número de páginas: 166.

Este livro versa sobre a prática do ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO (AT) surgido no campo da Saúde Mental com o movimento da Reforma Psiquiátrica. Será útil para qualquer profissional da área de saúde e afins, que atuam neste campo ou por ele se interessam. Esta prática não está instituída, nem sistematizada e por não estar referida aos espaços tradicionais de tratamento, as teorizações valeram-se de conceitos de diversas abordagens, revelando a mistura das disciplinas e dos diversos campos de saber. É fundamental interrogar a prática do AT, realizando um duplo movimento entre clínica e teoria, construindo uma posição teórica embasada em um método, uma proposta de manejo e intervenção que balize a situação clínica produzida pelos atendimentos. A partir desta tomada de posição é que o AT se localizará diante de seu fazer na clínica das psicoses.





Acompanhamento Terapêutico e a Terceira idade: Da constituição de uma clínica à promoção de saúde

2 01 2010

Autor:

  • Vicente Coda – Estudante de graduação do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Fone: (51) 9975-0083. E-mail: viccoda@hotmail.com
  • Artigo de Conclusão do “Curso de Capacitação em Acompanhante Terapêutico” da Comunidade Terapêutica D. W. Winnicott (CTW) de Porto Alegre, RS, Brasil.

Resumo:
Neste trabalho pretendo realizar uma reflexão sobre a emergência do acompanhamento terapêutico, delimitando as atividades e funções que esta prática proporciona. A partir disso, buscarei articular como esta clínica se constituiu como uma estratégia para o tratamento de idosos, refletindo sobre suas intervenções e supostos efeitos, através de um acompanhamento individual ou em grupo, seja inserido em uma equipe multidisciplinar ou como uma prática independente.

Palavras-chave: Acompanhamento terapêutico, práticas terapêuticas, idosos.
1 – Introdução
O Acompanhamento Terapêutico (AT) é um dispositivo clínico que tem como característica prestar um atendimento psicológico diferenciado, desenvolvendo suas atividades em distintos settings terapêuticos, sem um local fixo para sua ocorrência. É um serviço que vem apresentando uma crescente demanda, seja ligado à esfera pública ou privada, onde presta atendimentos a diferentes perfis de indivíduos e situações. Diante desta variedade, há a necessidade de um aprimoramento por parte dos profissionais que realizam esta prática, bem como um aprofundamento teórico-prático que possibilite um auxílio qualificado.

O presente artigo tem como objetivo fazer um breve esboço acerca da prática do AT e como este pode se constituir como importante ferramenta no subsídio à prevenção e promoção da saúde de idosos, seja como uma estratégia terapêutica dentro de um tratamento composto por uma equipe multidisciplinar, ou como uma prática independente.
Fazer uma reflexão do AT vinculado a pessoas que estejam na terceira idade, parte do pressuposto de ser esta uma prática que busca alternativas para indivíduos que de alguma maneira se encontram diante de limitações, sejam elas físicas ou psíquicas, onde no idoso pode estar agravado pela projeção da finitude da vida. O idoso freqüentemente fica mergulhado em suas incapacitações resultantes do processo de envelhecimento, relutando em fazer projetos por alegar falta de tempo de vida ou problemas de saúde, sem levar em conta ser esta uma fase da sua existência em que ainda pode desfrutar de atividades saudáveis e, principalmente, prazerosas.

Diante deste panorama faz-se a inserção do AT, onde através da dupla acompanhante-acompanhado ocorrerá a busca de possibilidades e ao/o encontro de situações em que o idoso poderá reencontrar sentimentos de satisfação e bem-estar, desenvolvendo um novo padrão de atitudes e atividades, e o (re)significado de estar nesta etapa da vida.
2 – A Constituição da Clínica do Acompanhamento Terapêutico
Nesse primeiro momento, para uma melhor compreensão do AT e suas práticas, farei uma breve contextualização da emergência desta clínica, apontando questões históricas e formulações teóricas que fizeram parte da sua constituição, esta possuindo estreita ligação com as práticas psicológicas e suas instituições.

O AT tem sua emergência iniciada a partir de um contexto de significativas alterações no panorama político e social, em meados do século XX. Está vinculada ao término da Segunda Guerra Mundial e o início do movimento antimanicomial e da antipsiquiatria. Diversas contestações acerca das estruturas manicomiais já ocorreriam no início do século XX, onde muito se discutia em relação às condições desumanas a que eram submetidos os internos. Apesar disso, foi somente no período pós-guerra que estes movimentos ganharam força e os debates passaram a girar principalmente sobre a ineficácia terapêutica (Berger, Morettin & Neto, 1991).

O primeiro fato decisivo foi a criação do Hospital-Dia, por Ewen Cameron, no ano de 1946, em Montreal, Canadá, que mais tarde foi implementado, com a adesão dos chamados Hospital-Noite e “Hospital de fim de semana” (Tavares, 2005). Posteriormente, o movimento contra os hospitais psiquiátricos foi difundido para outras regiões do mundo, entre as décadas de 1950 e 1960, com o surgimento das primeiras “Comunidades Terapêuticas” na Inglaterra, Alemanha e EUA.

Todos esses novos centros de tratamento buscavam estabelecer novas formas de relação com a loucura, criando espaços onde o louco receberia acolhimento e seus discursos e contestações ganhariam voz (Berger, Morettin & Neto, 1991).

Neste mesmo período, houve também o aparecimento das primeiras substâncias que prometiam alterar o funcionamento neuropsicológico do sujeito tido como “louco” (os antipsicóticos e os antidepressivos). Estes psicofármacos, apresentados como uma possibilidade de intervenção mais “humanizada”, na sua essência desempenharam uma função semelhante às intervenções manicomiais, o controle do paciente. O controle físico (contenção), ocorrido nas instituições psiquiátricas, deu lugar ao controle químico. Contudo, as novas drogas eram mais rápidas, econômicas e eficazes, além de possibilitar que os pacientes, ditos “perturbados”, conseguissem mudar sua conduta e desempenhar atividades socialmente aceitas. Esses importantes avanços proporcionaram a remodelação dos tratamentos, instaurando a possibilidade da circulação dos pacientes pela cidade e abrindo uma janela para a reinserção social destes indivíduos.

Diante deste contexto, segundo Tavares (2005), houve o aparecimento dos primeiros acompanhantes terapêuticos (at), intitulados “agentes terapêuticos”, que tinham a função de controlar a ingestão das medicações prescritas e a vigilância do comportamento dos pacientes acompanhados fora da instituição.

Inicialmente, os ats (que receberam diferentes denominações ao longo da história – e que em determinados locais ainda as possuem -, já sendo chamados de: agentes terapêuticos, auxiliares psiquiátricos, atendentes psiquiátricos, amigo qualificado, entre outros) eram em sua maioria jovens técnicos de enfermagem, que trabalhavam no sentido de colocar em ação os programas de tratamento que eram elaborados pelo psicoterapeuta ou pela equipe de saúde, através de intervenções que possibilitassem uma adaptação mais rápida ao meio urbano (Tavares, 2005).

No Brasil, referem Berger, Morettin e Neto (1991), no final da década de 1960, seguindo as mesmas contestações às instituições manicomiais ocorridas na Europa, houve o aparecimento das primeiras comunidades terapêuticas no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, onde o recurso do AT também passou a ser utilizado. Essas comunidades perduraram até o início da ditadura militar, período em que ocorreu a retomada dos programas de tratamentos clássicos nos hospitais psiquiátricos e, conseqüentemente, deram fim às comunidades terapêuticas.

A partir deste fato, avaliava-se como uma tendência, também o término das atividades dos acompanhantes terapêuticos, por estarem estes ligados a essas comunidades. Porém, em virtude dos satisfatórios resultados obtidos em diversos tratamentos através do AT e o receio quanto às internações psiquiátricas, os ats começaram a serem procurados por famílias e terapeutas para a realização de atendimentos particulares. Com isso, o serviço, ao contrário do esperado, obteve um implemento em sua demanda, e profissionais de outras áreas da saúde também passaram a realizar AT: médicos, psicólogos, educadores físicos, terapeutas ocupacionais, entre outros (Tavares, 2005).

A queda das comunidades terapêuticas no Brasil possibilitou ao acompanhante terapêutico ser um agente de saúde autônomo, sem ligação com uma equipe ou instituição, sem um lugar físico. Tavares refere que “o ‘estar na rua’ (despedido) auxiliou o ‘agente andarilho’ a assumir a ‘rua’ como o seu campo fundamental de trabalho” (Tavares, 2005, pág. 109). A “rua” deixou de ser uma um simples pano de fundo e tornou-se um ambiente de construção de subjetividades, onde na interação acompanhante-acompanhado, diferentes formas de pensar, agir e viver passaram a ser legitimadas.

A crescente procura pelo serviço de AT trouxe a necessidade de um aprofundamento de estudos e pesquisas desta atividade, também como uma tentativa de delimitar seu campo de atuação. Mesmo havendo divergências quanto às funções do AT, diversos autores buscaram – e ainda buscam – definições para esta prática.

Barretto, Cenamo e Silva (1991), entendem que entre as funções do AT está a condição de proporcionar um lugar, um espaço, uma voz ao aparecimento de interesses e de uma individualidade, servindo como um ego auxiliar, de maneira que o “acompanhar” tenha o significado de “pensar junto”. O acompanhante deverá averiguar se o acompanhado dispõe de estratégias/soluções diante de uma situação ou problema, estimulando seu raciocínio para, com ele, construírem uma solução.

Ao at também caberá fornecer a segurança necessária para que este cidadão se envolva em novas experiências, proporcionando a escuta de seus medos e anseios, ao mesmo tendo em que trabalha questões de desânimo e descrença, motivando-o, de maneira que desenvolva uma autonomia de pensamentos, e estes resultem em ações.
Segundo Mauer e Resnizky (1987):

“O acompanhante deve tender a reforçar as defesas de adaptação adequadas e ajudar a desenvolver novos mecanismos de defesa. Isto será feito ao longo da convivência com o paciente, mostrando-lhe, por exemplo, que frente a uma situação determinada há possibilidades de reagir de modos diferentes.” (Mauer e Resnizky, 1987, pág. 56).

Será através deste amparo fornecido pelo at que se viabilizará a reinserção social do acompanhado, bem como um importante campo para a obtenção de informações sobre a vida do paciente. Como referem Mauer e Resnizky, ao estabelecer contato com o cotidiano da pessoa que está sendo acompanhada, “o at disporá de informações fidedignas sobre seu comportamento na rua, os vínculos que mantém com os membros de sua família, o tipo de pessoas que prefere se relacionar, as emoções que o dominam” (Mauer e Resnizky, 1987, pág. 41).

Um dos focos do AT será, portanto, executar atividades de convivência e socialização, primando pela restituição dos vínculos do paciente com a família, amigos, vizinhos, dentre outros cidadãos com quem se deparar. Além disso, o “acompanhar” deverá servir como uma tentativa de “apanhar com o sujeito os frutos que possam brotar de uma circulação pelas ruas e principalmente, por lugares estranhos para ambas as partes” (Mittman, 1998, pág. 16). O at vai estar com esse sujeito em lugares que permitam que o que há de seu (do sujeito) e o que traz consigo, possa ser utilizado, criando uma circulação nova, dando significado e sentido ao que antes nada significava. Como diz Barreto:

“O acompanhamento terapêutico é um procedimento clínico que busca potencializar essa dimensão simbólica do cotidiano de um sujeito, auxiliando-o a recuperar ou estabelecer aspectos, objetos, ações que o constituam e que o ajudem a se inscrever de uma forma simbólica na realidade compartilhada”. (Barretto, 1997, pág. 263).

Algumas divergências em relação ao papel do at podem ser encontradas quanto às funções deste em um tratamento. Muitas são as discussões que giram em torno de o AT ser desenvolvido pelos profissionais de forma autônoma ou se há a necessidade deste estar vinculado a uma equipe de saúde.
Eggers (1985) define o at como:

“…um profissional de saúde mental que só existe dentro da equipe terapêutica, com um papel complementar ao do psicoterapeuta, agindo fora do setting no tratamento de pacientes críticos e com uma função específica de ensinar a operar no marco social” (Eggers, 1985, pág.07).

Mauer e Resnizky (1987) seguem esta idéia, defendendo que o acompanhante terapêutico deve dar assistência ao paciente em crise mediante sua inserção em uma equipe de saúde:

“…seu trabalho não pode cumprir-se de forma isolada. Este está sempre inscrito no seio de uma equipe. É a pertinência a ela, a identificação com o esquema referencial e as pautas de trabalho que dela emanam que permitirão perfilar seu papel com clareza” (Mauer; Resnizky, 1987, pág. 37).

Contudo, essa visão de ser o at um agente dependente de outros profissionais sofre críticas. Na medida em que progressivamente, com a evolução do AT, as pessoas que passaram a realizar esta prática possuírem melhor qualificação, houve também um implemento do papel que este pode e passou a desempenhar em um tratamento:

“… o AT não se trata somente de uma forma de auxiliar, de ajudante técnico de um determinado profissional da saúde, quer dizer, ele mesmo se coloca como um profissional e toma a frente dos tratamentos em questão”. (Pelliccioli; Guareschi; Bernardes, 2004, pág.7).

Ao meu ver, um fator que contribui para esses questionamentos é a não existência, em âmbito nacional, de um código de ética que regularize tanto a formação profissional como as atividades praticadas no AT, como ocorre, por exemplo, na Argentina, onde há o “Código de Ética AT”. Decorrente a esta falta de critérios, profissionais de diferentes áreas podem se utilizar da intitulação “AT”, mesmo sem possuírem qualidades suficientes para lidarem com pacientes e situações que as exigiriam (principalmente em situações que possa envolver algum risco, tanto para o paciente, como para os cidadãos que estiverem na “rua” e também para o próprio at). Levando em conta esta ausência de delimitações e o amplo campo de atuação do AT, lidando com uma gama de pacientes possuidores de distintas limitações físicas ou psíquicas, dificultam e até inviabilizam a definição do papel e da função do AT. Acredito que essa variada demanda remete à afirmação de Chnaiderman, de que “nunca vai se chegar a uma teoria global do que é o Acompanhamento Terapêutico” (Chnaiderman, 1991, pág. 86).

Buscando identificar as situações em que o trabalho do at pode ser uma abordagem com resultados positivos, algumas pesquisas objetivaram traçar um perfil dos profissionais que desempenham esta atividade. Carvalho (2004), em pesquisa realizada com 32 ats , mostra que esses agentes, na sua maioria, são jovens com idades que vão de 26 à 35 anos (53,1%), psicólogos (62,5%), solteiros (75%), sendo que a maioria (75,1%) atua há menos de 01 até o máximo de 04 anos.

Londero e Pacheco (2005), buscaram identificar o referencial teórico e área de conhecimento mais adequados e utilizados na prática do AT. Através de entrevistas com profissionais que já haviam desenvolvido tratamentos com o auxílio de ats, obtiveram dados em sua pesquisa que apontam que esta é uma atividade que pode e vem sendo desempenhada por profissionais de diferentes áreas da saúde, tendo em sua maioria a utilização de referencias teóricos que combinam a abordagem cognitiva-comportamental e a psicanálise. A primeira utilizada mais em função de disponibilizar técnicas de modificação do comportamento, enquanto a segunda para uma compreensão psicodinâmica.

Diante de um panorama de questionamentos quanto ao papel e funções do AT, lançarei mão das funções descritas por Eggers (1985) para delimitar a prática do at, tendo em vista o posterior desenvolvimento deste artigo que objetivará as atividades pertinentes ao AT no auxílio à prevenção e promoção de saúde dos idosos. Estas foram divididas pelo autor em três níveis:

A) Funções do acompanhante terapêutico com o paciente:
– Estar próximo do paciente;
– Diminuir o sentimento de solidão;
– Auxiliar o paciente a planejar, organizar o pensamento;
– Ajudar a estruturar hábitos;
– Reorganizar condutas de forma mais adaptativa;
– Auxílio em decisões;
– Assumir responsabilidades pelo paciente;
– Estimular capacidades latentes;
– Ajudar o working through (finalizar atividades, trabalhos);
– Agir como superego;
– Examinar com o paciente os seus limites;
– Operar a alta progressiva na hospitalização;
– Atuar como ponto de contato entre o paciente e a família;
– Manter o vínculo terapêutico quando o paciente troca de terapeuta;
– Executar com o paciente um programa de atividades físicas e recreativas.

B) Funções do acompanhante terapêutico com a família:
– Fomentar novas formas de comportamento no grupo familiar;
– Atuar na família baixando o nível de ansiedade;
– Avaliar o paciente na família, no seu meio ambiente;
– Avaliar as condições que a família oferece para manter o paciente em seu meio.

C) Funções do acompanhante terapêutico com a equipe:
– Indicador sensível. Informar os efeitos da psicoterapia.
3 – Articulando o Acompanhamento Terapêutico com Idosos
O envelhecimento se constitui em um processo biopsicossocial, decorrente, portanto, da interação de diferentes fatores. A partir disso, pensar em uma velhice única, tratando todos os indivíduos que se encontram nessa fase como estando em uma única categoria, com um olhar somente sobre as questões biológicas – no que concerne as perdas – é desconsiderar as influências sociais e psicológicas que também estão envolvidas na realidade do idoso.

Segundo Rebello (2006), por mais que o declínio do corpo físico seja inevitável no processo de envelhecimento, havendo perdas irreversíveis do ponto de vista biológico, é necessário dar atenção também aos outros fatores da velhice, estes, podendo não estarem vinculados ao declínio e às perdas. Para Goldfarb (1998) o idoso pode ser considerado um sujeito em constante crescimento, afetado por um processo de declínio físico e pela consciência da finitude e do encurtamento do futuro. Contudo, salienta o autor, o limite será do corpo físico, biológico, havendo a continuidade da existência de uma outra parte deste ser capaz de prazer, que buscará o amor e que deverá ser incentivado a sentir e se sensibilizar com a proximidade dos outros e a força dos vínculos. É este idoso, retomando Rebello (2006), um sujeito desejante, merecedor de atenção pela possibilidade de transformações, onde somente os cuidados básicos – como moradia, alimentação, higiene e saúde – são insuficientes.

É nesse contexto que o AT entra como um recurso, em busca do bem-estar, das vontades e das necessidades do acompanhado. No desenvolvimento do seu trabalho, será necessário ao at estar próximo do seu paciente, atento para perceber os medos e dificuldades do idoso, independente de que ordem sejam essas dificuldades (biológicas, psicológicas ou sociais), sendo capaz de avaliar a real situação em que ele se encontra. O at terá como uma de suas funções incentivar esse idoso a reencontrar a palavra, sua capacidade de pensar e desejar, expressando suas inconformidades e auxiliando-o a se organizar e planejar sua ações. Como defende Barreto (1998), será através das intervenções no cotidiano do acompanhado que o at terá uma função terapêutica e um potencial analítico, colocando em movimento processos de simbolização que acarretam em uma transformação da subjetividade do sujeito, alterando seu humor e diminuindo suas angústias.

Muitas vezes o at encontrará o idoso resistente a se envolver em qualquer atividade ou possibilidade de mudança. Há momentos em que o idoso poderá ficar enclausurado em suas incapacitações conseqüentes do envelhecimento, não se dispondo a fazer projetos pela idéia de ter um futuro breve, com pouco tempo de vida. Clausura esta, que pode ser vista como uma depressão ou algum problema orgânico (Rebello, 2006).
O at, diante desta situação, poderá agir utilizando-se de seu repertório teórico/experimental, no intuito de tirar o idoso dessa inércia, auxiliando-o em um processo de ressignificação da velhice que objetivará ao acompanhado se (re)adaptar a essa fase de sua vida, tornando-o consciente de suas limitações e das possíveis alterações que terá em suas tarefas e atividades cotidianas, mas ainda capaz de planejar e concretizar um projeto de felicidade. Para Py, mesmo a velhice estando acompanhada de suas fragilidades, havendo uma tendência do idoso em desmerecer sua existência ao relacionar seu envelhecimento e adoecimento à morte, este ser humano pode ser impulsionado “para a descoberta de novas possibilidades, no fluxo incessante do vir a ser: Para que sair de cena se sempre posso transformar meu personagem?” (Py, 2004, pág. 112).

O trabalho do acompanhamento ao idoso se constituirá desde uma simples escuta, onde os vínculos poderão se estabelecer mediante o sentimento do idoso em ser aceito mesmo com todas as suas limitações, diante de alguém (o at) que aposta na sua transformação e lhe dará respaldo e segurança ao longo desse processo. Barreto (2005) refere a existência de situações em que não há muito o que ser feito, mas só o significado de ter alguém próximo, atento, que carrega a história do vínculo, capaz de compartilhar a experiência do acompanhado, será de grande significado para o acompanhado. Ter um bom vínculo será fundamental ao AT no incentivo de novas atitudes.

Ao idoso que se encontra em situação de isolamento social, o processo de reinserção pode ser iniciado desde a motivação a investigar sua situação clínica. O AT poderá se fazer presente desde a identificação dos profissionais a serem contatados até o acompanhamento na realização das consultas e exames que forem necessários. As informações resultantes desta atividade podem ser de grande auxílio para o at traçar os objetivos do tratamento, ao identificar se as limitações do paciente possuem causa física ou são decorrentes há questões de ordem psíquica. No caso do prejuízo ser físico, o at pode ajudar o idoso ainda na busca de tratamentos que possam devolver sua autonomia (ou ao menos parte dessa) e também no processo de readaptação à essas limitações.

Nesse processo de reinserção social será importante ao at estar em contato com os profissionais de saúde que estiverem desenvolvendo os atendimentos clínicos do idoso. Esta se constituindo em uma via-de- mão-dupla, pois tanto o at auxiliará aos demais profissionais através de suas observações do cotidiano do paciente, como também terá suas atividades delimitadas pelos achados clínicos que estes obtiverem.

Um fator que interfere significativamente na vida dos idosos e que poderá ser foco de atenção durante o AT, é a dificuldade de inserção social decorrente de uma sociedade com hábitos e leis que dificultam a simples locomoção do idoso, conforme aponta Moraes (2003) em reportagem para a Revista Veja. Para a autora, há uma percepção geral de que o idoso não recebe a atenção e o respeito que merece, tendo complicadores como: degraus de ônibus muito altos, tempo reduzido dos semáforos para atravessarem as ruas, assaltados, dentre outros; se constituindo em fatores que inibem os idosos a saírem nas ruas. Isso, mesmo diante de uma população que tem um crescimento significativo no Brasil. Segundo o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há no Brasil 15 milhões de idosos, e uma previsão de que esse valor exceda os 30 milhões de pessoas dentro de 20 anos (Moraes, 2003).

Todas essas são demandas em que o AT pode surgir como uma estratégia de ação. Mesmo incapacitado de alterar a sociedade na grande escala, ao estender a mão para esses idosos, o acompanhante pode possibilitar a estes cidadãos readquirirem a segurança em ir às ruas, pois como cita a autora, sua vontade pode ser inibida, porém, não cessa: “mesmo a passos lentos, esses senhores e senhoras querem ser capazes de andar com as próprias pernas” (Moraes, 2003, pág. 49).

Além de viabilizar a melhora da auto-estima dos idosos, o at pode realizar tarefas distintas que variam de acordo com a vontade do acompanhado, sua possibilidades financeiras e suas necessidade e condições físicas e metais. Utilizando-se do setting móvel, a dupla acompanhante-acompanhado percorrerá ruas, visitando locais turísticos, shoppings centers, teatros, cafés, bares, estádios esportivos, supermercados, além da própria casa do paciente ou de seus vizinhos, articulando atividades lúdicas, como um jogo de carta ou uma seção de filmes ou leituras. Também poderão organizar um programa de atividades físicas e recreativas para o idoso, buscando, por exemplo, academias que ofereçam atividades específicas para a terceira idade e/ou oficinas de artesanatos, lembrando que além de promoverem a saúde, esses espaços propiciam ao idoso que constitua novas amizades. Será através desses novos mapas e rotas traçadas, que o idoso terá a possibilidade de voltar a circular pela cidade de forma independente, mas sem abrir mão do at, que poderá ser contatado em situações em que o seu auxílio for necessário.

Moraes (2003) também sugere que as dificuldades encontradas pelos idosos na sociedade é reflexo de mudanças ocorridas na organização das famílias, onde a hierarquia de papéis que tem se estabelecido é muito mais horizontal do que vertical, não havendo mais uma obediência e consideração de netos e filhos com seus pais e avós. Em uma sociedade dinâmica, caracterizada pelas novidades e o consumo, onde os jovens têm seus horários preenchidos por suas ocupações e não acompanham o dia-a-dia dos mais velhos, há uma ruptura nas relações, onde o idoso acaba sendo visto como algo descartável – incapaz de gerar capital – e, conseqüentemente, vítima do desrespeito.

Conforme referido na primeira parte deste artigo, sobre as funções do AT, segundo Eggers (1985), estar no ambiente familiar poderá auxiliar o at a avaliar o paciente em seu ambiente cotidiano, bem como conhecer as condições e relações que a família estabelece com o idoso. Reestruturar vínculos familiares, envolvendo progressivamente filhos e netos no tratamento, tenderá a ser tarefa para o at. Mostrar para estes que o idoso é merecedor de atenção e que sua ajuda poderá ocorrer ao acompanhá-lo em uma caminhada ou em uma simples escuta, mas que, se possível, vá além disso, não se limitando a breves momentos de confraternizações anuais. Ao at caberá auxiliá-los, orientando sobre as possíveis necessidades do idoso, pensando junto com o paciente e seus familiares as atividades mais indicadas, sem deixar de estar atento para lidar com as possíveis resistências da família, tanto na aceitação do seu trabalho, como na aceitação do próprio idoso (ou deste “novo idoso” que estará se constituindo através do AT).

Por fim, sugiro como uma possibilidade de reinserção dos idosos, a realização do AT em grupo. Acredito que para um melhor aproveitamento desta atividade, respeitando o objetivo de ser este um espaço terapêutico que propicie a formação de vínculos, o número de participantes seja limitado, não excedendo a dez participantes. Também poderá favorecer, e até ser necessário para o bom andamento das atividades, ter mais de um at coordenando/organizando o grupo, de maneira que caso ocorra alguma situação inesperada o at não esteja desamparado.

O grupo, mediante combinação prévia, poderá organizar passeios à praças, piqueniques, visitar lugares históricos, realizar oficinas de artesanatos ou de leituras, entre outras possibilidades que possam surgir da vontade e da curiosidade dos membros do grupo. Além disso, poderão estar vivenciando juntos experiências que tiveram anteriormente de forma isolada, tanto por estarem em um determinado local que lhes desperta diferentes sentimentos, como pelas discussões que surgirão, tendo como disparador o marco social.

A aproximação entre os idosos, articulada por essas atividades, constituirá um espaço para compartilharem suas experiências, sejam elas positivas ou negativas, com pessoas que estão em uma fase semelhante da vida. Pelliccioli (2004) em sua experiência com grupos de AT, constatou que esta troca de informações pode ter uma importante contribuição para os pacientes pensarem em novas possibilidades para as suas vidas:

“…o grupo passa a ter como efeito terapêutico não apenas uma possibilidade de catarse, mas de construção de outras possibilidades destas pessoas se pensarem, se reconhecerem e se experimentarem diferentemente do que até então servia como referente, ou mesmo como significante em suas vidas” (Pelliccioli, 2004, pág. 73)

Ao(s) profissional(ais) que optar(em) por utilizar o AT em grupo em sua prática, acredito ser de fundamental importância ter conhecimento sobre grupos terapêuticos, pois o at deverá considerar que sua tarefa não será somente agir como guia/organizador, ou referência, mas capacitado para trabalhar com a dinâmica do grupo, identificando os possíveis papéis que cada membro venha a desempenhar e sabendo articular a comunicação entre eles. Também neste momento o trabalho realizado por uma dupla (ou trio) de ats, com diferentes olhares e através da discussão de suas análises, pode proporcionar uma melhor compreensão das atividades desenvolvidas, dos participantes, bem como de suas relações.

Outra possibilidade é a realização do AT em grupo em residenciais geriátricos. Nessas instituições os idosos muitas vezes vivem em espaço fechados, engajados sempre nas mesmas atividades com o mesmo grupo de pessoas, com horários fixos, atendendo às normas institucionais, com poucas possibilidades de expressarem os seus desejos e restritos de vivências externas. Diante de tamanho tempo ocioso, estando praticamente (ou completamente) exilados, não é de se estranhar que muitos se sintam desmotivados em buscar alternativas para desenvolverem atividades que proporcionem algum sentimento de satisfação.

Amaral (2006) propôs em uma instituição de longa permanência para idosos, localizada em Guarulhos, São Paulo, a realização de passeios com os idosos fora do residencial. A atividade, intitulada “Projeto Passeios”, teve como objetivo levar os residentes a visitarem e revisitarem lugares significativos da cidade, onde haviam habitado e circulado anteriormente. Para muitos desses idosos, diz Amaral, essas eram as únicas oportunidades de saírem para uma atividade cultural, pois na maioria das outras saídas que faziam era para consultas médicas ou ficavam na casa de seus familiares.

Esses passeios em grupo, podem possibilitar aos residentes passarem horas agradáveis, distantes de suas rotinas, deparando-se com contextos diferentes, observando pessoas e automóveis que transitam pela cidade, enfim, tudo que desperta a curiosidade do olhar dos idosos, alheios a esse cotidiano, “estrangeiros na sua própria cidade” (Amaral, 2006, pág.4). Todas essas experiências poderão servir como conteúdos de conversas entre os residentes, não somente entre aqueles que se engajarem nas atividades, como também entre estes e os seus companheiros da moradia que optarem permanecer no residencial por alguma limitação ou receio em circular pelas ruas. Os passeios trarão a possibilidade destes idosos reavaliarem e ressignificarem sua existência com este novo olhar sobre suas experiências (passadas e atuais), além de oportunizar mudanças na dinâmica de convivência entre eles, estreitando os vínculos.

O AT, portanto, surgirá como importante ferramenta com ação preventiva e viabilizadora do pulular do bem-estar destes, e entre estes, cidadãos. Como refere Amaral, será através dessas “histórias que se cruzam entre os acompanhados, que tem no espaço da rua, na companhia de seus pares nos passeios, no espaço aberto à escuta, oportunidades para aflorarem amizades e situações de confiança que podem se aprofundar” (Amaral, 2006, pág.8).
Considerações finais
No presente artigo, tive o objetivo de desenvolver uma reflexão sobre o Acompanhamento Terapêutico, desde sua constituição, onde foi feita uma breve análise dos fatores políticos, sociais, científicos e psicológicos, envolvidos no processo que resultou na sua emergência como um dispositivo clínico, para posteriormente articular sua prática como importante ferramenta na assistência à prevenção e promoção da saúde de idosos.
No primeiro momento, em que busquei analisar a criação da prática do AT, foi possível constatar o quanto é problematizada esta prática quanto a sua definição e a delimitação de suas funções. Para alguns autores esta foi, e ainda é, uma prática dependente da indicação de outros profissionais, estando sempre inserida em uma equipe de saúde. Visão essa possivelmente influenciada pelo fato de os primeiros ats terem desempenhado sua atividades como auxiliares psiquiátricos, e não levar em consideração a evolução (quanto à qualificação) dos profissionais que hoje atuam como ats. Não quero, com isso, passar a idéia de acreditar que o AT não possa ocorrer em um trabalho de equipe, muito pelo contrário, até mesmo em virtude de um tratamento com uma equipe multidisciplinar oferecer uma gama maior de possibilidades e cuidados aos pacientes, mas defendo que os ats, pelos avanços teórico-práticos, estão capacitados a tomar frente das decisões dos tratamentos, o que pode ser comprovado por pesquisas (Carvalho, 2004; Londero & Pacheco, 2005) que apontam para o fato de muitos dos indivíduos que trabalham como ats, serem em um número expressivo, profissionais graduados, ou em processo de formação, em atividades na área de saúde mental.

Por mais que se tenha uma compreensão das atividades às quais está vinculado o AT, passa por discussões como essa a impossibilidade de demarcar as suas funções. No decorrer dessa produção, tentei trazer conceitos e algumas funções das quais o AT dispõe para intervir no tratamento de pacientes com distintas limitações (físicas ou psíquicas), sempre levando em conta uma análise destas objetivando as atividades pertinentes ao AT no auxílio aos idosos.

Tive como meta fazer um esboço das possíveis situações que o at pode se deparar quando contatado para desempenhar sua prática com pacientes que estejam na terceira idade, onde a compreensão do “o que é estar na velhice” e de todos os prejuízos e características do processo de envelhecimento serão fundamentais para o desenvolvimento desta prática. Sugiro a gerontologia, e destaco também a psicogerontologia, como importante respaldo teórico nesta empreitada.

A diversidade de situações e contextos em que o idoso pode estar inserido, isto é, podendo estar morando sozinho, com um companheiro(a), com familiares, ou residindo em uma instituição geriátrica (pública ou privada), além das limitações físicas/mentais que poderão estar presentes, exigirão do at uma boa capacidade de observação, de ser motivador muitas vezes e ter criatividade para buscar as atividades possíveis de serem realizadas, mantendo a função terapêutica.

Para finalizar, neste trabalho procurei articular maneiras de possibilitar a reinserção social dos idosos, tanto em atividades individuais como em grupos, onde o vínculo pudesse ser retomado não somente com familiares e amigos, mas deste idoso com os seus ideais e a concretização de suas vontades. Desta forma, o at poderá se constituir em um agente auxiliando estes cidadãos no desenvolvimento de um novo significado do que é estar nesta etapa da vida e das possibilidades, atividades e situações das quais pode desfrutar de prazer, bem-estar e saúde.

REFERÊNCIAS

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CHNAIDERMAN, Miriam (1991). Vida e Morte no Trabalho com Psicóticos. In: A CASA, Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital-Dia (org.). A Rua Como Espaço Clínico: Acompanhamento Terapêutico. São Paulo: Escuta. p. 61-65.

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Artigo publicado no “Site AT” em 02/01/2010.

Supervisão em AT.





Acompanhamento Terapêutico e a família do paciente

23 12 2006

Autor: Alex Sandro Tavares da Silva.

 

Título em espanhol: Acompañamiento Terapéutico y la familia del paciente.

Palavras-Chave: Acompañamiento Terapéutico, Clínica, familia.

Título em inglês: Therapeutic Accompaniment & the family of the patient.

Key Words: Therapeutic Accompaniment, Clinic, family.

RESUMO: Essa produção busca destacar a importância do acompanhante terapêutico (at) ter uma postura atenta, não apenas as manifestações do paciente, mas também da família do mesmo. Essa atenção poderá dar a oportunidade do profissional tentar esclarecer dúvidas, medos, suporte necessário; além de informar sobre as estratégias de intervenção usadas noAT.

PALAVRAS-CHAVE: Acompanhamento Terapêutico, clínica, dinâmica familiar.

O presente trabalho aborda alguns processos que o acompanhante terapêutico (at) encontra na sua prática clínica, com foco na sua relação com a dinâmica familiar do paciente em acompanhamento.

Nessa relação, conforme inúmeras práticas clínicas desenvolvidas desde a década de 1990, fica evidente que o at pode se deparar com:

  1. A família que direciona ao at uma “demanda de salvação”, depositando no profissional as últimas esperanças para tratamento de uma patologia abordada (durantes anos) por inúmeros profissionais.
  2. A família que toma o at como um intruso que irá levar para fora do “protegido lar” algo “feio”, e se fecha, não permitindo a entrada do profissional e a saída (o circular) do familiar doente (o paciente).
  3. A família que despeja sobre o at a responsabilidade por toda e qualquer forma de tratamento, passando a não ajudar em nada, e a cobrar tudo.
  4. A família que não quer a melhora do seu ente, mas que contrata o serviço de AT por pressão de outros profissionais (psicólogos, professores, terapeutas ocupacionais, médicos, pedagogos, etc.) e/ou conhecidos (amigos, vizinhos, colegas, familiares) que apontam o erro de não buscar ajuda clínica intensiva imediatamente.
  5. A família que contrata o at, mas faz de tudo para que a intervenção não ocorra, pois o tratamento mostraria que a mesma é incompetente para resolver os seus próprios problemas.
  6. A família que coloca sobre o at a responsabilidade de resolver todos os problemas da família, querendo fazer dele um “terapeuta familiar” que atende em domicílio.
  7. A família que deseja que o at seja um “educador” (de matérias escolares, boas maneiras, convívio social, etc.) e passa a querer elaborar listas do que deve ocorrer nas sessões de atendimento, criando metas, cobrando tempo para resultados (duradouros e instantâneos).

Assim, tendo em vista os itens expostos, é de fundamental importância que o profissional da saúde que utiliza a estratégia clínica do AT tenha uma atenção muito grande aos processos vividos não apenas com o paciente, mas também com a família do mesmo.  A relação com esta, quando abordada de forma criteriosa, pode ser uma grande fonte de auxílio na promoção do processo clínico, tornando o Acompanhamento Terapêutico de fato um trabalho terapêutico.

Por fim, se a família do paciente não for considerada como elemento importante no processo clínico, a intervenção do acompanhante terapêutico poderá sofrer interferências não produtivas que, em alguns casos, podem chegar ao ponto final, da finalização da intervenção (de forma abrupta), ou, no mínimo, sofrer sabotagens constantes, tornando inviável a sua continuidade, pelo menos com o objetivo de ser ético e terapêutico.

Supervisão em AT.





Acompanhamento Terapêutico e Novos Modos de Existêncializacão

23 12 2004

Autores:

  • Vanessa Gimenes Gomes.
  • Wiliam Siqueira Peres.

Resumo:
Este trabalho procura pensar uma outra forma de prática clínica em Psicologia, que não a tradicional – dentro de uma sala, onde é definido o setting terapêutico, privilegiando outros modos de existencialização. O acompanhamento terapêutico (A.T.) se apresenta enquanto uma técnica de intervenção clínica que se dá nos espaços públicos. Esta é entendida segundo Caiaffa (1991) com uma proposta de intervenção que acontece fora de um local definido enquanto um imóvel, um prédio e dentro de locais de circulação pública, ainda que o público esteja apenas no desejo do tratamento e mesmo que esse espaço se restrinja a uma residência. O caso utilizado para pensar a questão do acompanhamento terapêutico é de uma mulher que se encontra em processo psicoterápico, no qual percebeu-se a necessidade de buscar outras estratégias de intervenção que pudessem possibilitar rupturas no cotidiano que levavam-na muitas vezes a momentos depressivos. A estratégia clínica do acompanhamento terapêutico problematiza o fato de procurar ‘saídas': “O acompanhante sai com o paciente pelo mundo, buscando juntos as melhores conexões, os melhores encontros, quase sempre extramuros, no mais exterior dos espaços terapêuticos, no mais interior do social”.(Carrozzo, 1991: 12). No contexto em questão, essa era uma das necessidades vivenciadas pela paciente: poder conectar-se, ligar-se, comunicar-se com o mundo de forma ativa, ou seja, em que ela pudesse estar atuando. Decidir por fazer um acompanhamento terapêutico implica disposição para conhecer lugares novos, de modos diferentes… É como viajar para um lugar desconhecido, às vezes a sensação de ser refém, outra de ser invasor como também de um simples passeante. “É uma exploração a dois na qual se experimenta caminhos até os limites permitidos pelo entorno”. (Porto, M.; Sereno, D. 1991:26). O primeiro dia de A.T. trouxe a sensação de estranheza de não saber o que fazer, como fazer e para onde ir. Trilhar junto este espaço com uma outra finalidade que não só a de passar pela rua, possibilitou modificações em nossa relação, como uma maior cumplicidade, confiança, além de uma melhor demarcação de limites. Este trabalho, apesar de estar em processo, nos permite alguns apontamentos que indicam que o acompanhamento terapêutico pode potencializar o que tem de saudável na vida do sujeito, de modo que este possa se apropriar e reapropriar de seus sentidos e de suas percepções, ampliando seu universo de referências e permitindo a criação de novas estratégias de relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo.
Fonte:

http://www.xiisic.ufop.br/anais/1691.htm

 

Artigo publicado no “Site AT” em 23/12/2004.

Supervisão em AT.





Acompañante Terapéutico

20 06 2002

Autor:

  • Sergio Sáliche – Psicólogo

El trabajo del acompañante terapéutico dentro de los hospitales y de las clínicas es para y en función del paciente, es un trabajo conjunto con el psicólogo que lo atiende, el psiquiatra de la institución, los terapistas ocupacionales y demás profesionales.

Es necesario trabajar en equipo para que las indicaciones necesarias para el tratamiento del paciente sean coordinadas y no se caiga en modalidades terapéuticas que terminan siendo esquizofrénicas.

Es imprescindible que quien cumpla la función de acompañante terapéutico trabaje en el ámbito de la Salud Mental y sea supervisado permanentemente por un psicólogo, porque muchas veces se desconoce lo perjudicial que para el mismo pueda serle o para el paciente. Recordemos que los pacientes que necesitan de acompañantes son generalmente internados o con graves trastornos de su salud mental. Hoy en día las instituciones privadas por reducir sus costos toman a personas no preparadas adecuadamente para que salgan con pacientes en tratamiento institucional.

Este trabajo no consiste solo en sacar a pasear al paciente sino también en: contenerlo dentro del hospital o dentro del ámbito en que se encuentre, por ejemplo: hogares sustitutos, particulares, etc., actuar como agente resocializador como puente para facilitarle al paciente su reinserción y restablecimiento del lazo social. Percibir, reforzar y desarrollar la capacidad creativa del paciente, no planificando ni decidiendo por él lo que significa crear un espacio en donde el paciente haga lo que quiera aunque empiece algo y no termine por que lo que importa es que se estructure con relación a algo para sobrellevar su enfermedad. Servir como agente catalizador de las relaciones con la familia. Respetar sus tiempos de silencio, de angustia y ansiedad lo que implicaría acomodar el tiempo cronológico a lógico del paciente. Poner el cuerpo, escuchar su delirio, su razón, su locura, su cordura.

Todo esto significa brindarle a los pacientes la posibilidad de apropiarse de su cuerpo, de su voluntad, de su espacio y posibilitarle un nuevo intercambio social.

 

Fonte

http://www.hojasderoca.com.ar/varios/servicios/a/trabajos/1.htm.

 

Artigo publicado no “Site AT” em 20/06/2002.

Supervisão em AT.








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