Sobre o Acompanhamento Terapêutico e o sofrimento psicótico: da escuta de um discurso ao trânsito pela rua

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Autor:

  • Luciano Vignochi – Psicólogo, Acompanhante Terapêutico, em formação no Percurso de Escola da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). E-mail: [email protected]

“Heterogeneidade. S. f. Qualidade ou caráter de heterogêneo. [ Antôn.: homogeneidade]
Heterogêneo. [Do gr. heterogenés, “ de outro gênero, + eo] Adj. 1. De diferente natureza. 2. Composto de partes de diferente natureza. ~ V. reator – e sistema -. [ Antôn. ger.: homogêneo.]
Heterogênese. [ De heter(o)- + -gênese.] S. f. Biol. 1. Geração espontânea. 2. Alternância de gerações.
[ Antôn.: homogênese.]”
Heterogenético. Adj. relativo a heterogênese.”2

Devido a uma série de discussões a respeito da Clínica do Acompanhamento Terapêutico3 é que se faz presente para mim a necessidade de pensar nesta clínica enquanto uma prática em crescente construção. Para realizar esta tarefa pretendo trazer a tona algumas lacunas abertas e, a partir destas, dar um passo adiante nas proposições teórico-clínicas, no que diz respeito ao Acompanhamento Terapêutico enquanto uma práxis do campo psi e, em sua especificidade relativa ao campo das psicoses.

Como ponto de partida, acredito ser de fundamental importância amparar-me na constatação de que é preciso considerar a necessidade de algo da ordem de uma escuta do inconsciente. Com isto, quero dizer que esta prática não prescinde da escuta psicanalítica com Lacan ao retomar a perspectiva freudiana da escuta do discurso do sujeito do inconsciente, a partir das associações livres, atos falhos, lapsos de linguagem, chistes e sonhos. No entanto, penso que esta clínica carece de uma compreensão sobre a presença do acompanhante no real e suas múltiplas representações. Entendo que a demanda formulada pela pergunta o quê fazer? com o saber sobre o inconsciente aponta para além das concepções teóricas recorrentes. Neste sentido, me parece importante ampliar a noção de real para além do dito de que este se refere somente a algo da ordem da impossibilidade quando estamos falando da dimensão pragmática na clínica do Acompanhamento Terapêutico. Por isto, penso que seja também necessário tomar em análise um certo resto de real que pode abrir uma questão outra: Quais as articulações possíveis entre uma psicanálise do discurso e o fazer do acompanhante terapêutico no que se refere ao sofrimento psicótico?

I

Por enquanto, vamos suspender a questão acima e considerar que estamos sendo tomados também desde um outro lugar no que diz respeito a especificidade do Acompanhamento Terapêutico. E, este lugar é o para além das quatro paredes de nosso consultório, pelo qual alguns pacientes nos convidam a errar4 com eles – a saber a rua. É por estarmos transitando pela casa, pelo cinema, pelo parque, pela avenida X, ou pelo consultório do Dr. X, que a cena nos interessa, no que ela pode produzir de fala, mas também no seu acontecer em si e em todos os deslocamentos e trânsitos por um certo real da rua.

Por isto, penso haver a necessidade de estendermos a escuta do inconsciente lacaniano acrescentando aí um espírito – se é que se pode falar assim – estabelecido pela Psicoterapia Genealógica5. Neste ponto é importante nos remetermos novamente a tomada do real verificando que se apresenta ao par acompanhante/ acompanhado e não somente demanda escuta, mas também olhar e movimento. Desta forma, ficamos diante de cenas que são construídas a cada encontro, cenas do cotidiano. Isto diz de um acompanhar, tomando o inconsciente no social em sua relação com o real do corpo e dos objetos. É disto que tratamos, também, em nossa prática.

Agora, a questão suspensa anteriormente se desdobra e já fala mais: Como interpretar durante uma saída a um shopping center, por exemplo? Como transitar no decorrer de uma cena que se dá aí? O que pode-se propor objetivando algo da ordem de uma potência criativa6?

Avançando nestas questões podemos entender que: se estamos acompanhando terapêuticamente é porque buscamos tomar a questão do desejo na fala, no olhar e nos gestos de nosso paciente e com ele estar presentes intervindo em suas tentativas de realizar algo da ordem desta questão. Ou, para falar de outra forma: o acompanhante terapêutico intervém no espaço entre as fronteiras do dito e do visto e sua extensão ao trânsito do desejo, estando ali no momento do acontecimento, na relação com o real. É neste sentido que o Acompanhamento Terapêutico pode ser tomado em sua peculiaridade enquanto uma psicoterapia7, já que parte do inédito da cena e atravessa a vida cotidiana no que esta se oferece a um cíclico e concomitante exercício de fala-escuta-criação-realização.

II

Quanto a questão da fala e de sua escuta nas psicoses, Freud8 nos remete ao dado clínico de que estudos sobre a esquizofrenia levam-no a afirmar o predomínio do que se deve fazer com as palavras sobre o que se deve fazer com as coisas. Prosseguindo nesta questão , Lacan9 lança o tu és aquele que me seguirás para depois analisar este significante e sua relação com as psicoses, a partir do que diz respeito ao desejo do paranóico Schreber. Quanto ao AcompanhamentoTerapêutico e sua relação com esta questão, restam as seguintes “deixas” clínicas inspiradas nestes autores: O acompanhante terapêutico segue o desejo que é do paciente na sua relação com o Outro – a rua e suas representações possíveis; acompanhar pode possibilitar ao paciente a construção de saídas possíveis frente ao sofrimento psicótico, ou seja, algo da ordem de uma intervenção onde a palavra poderá ser escutada com o ato em movimento, possibilitando que algo seja realizado de forma não destrutiva.

Prosseguindo nesta tentativa de estabelecer uma relação entre a prática do Acompanhamento Terapêutico e a teoria psicanalítica do inconsciente, leio em Calligaris10outra deixa :

“Quando, por acaso, um analista encontra um paciente no caminho da errância (que seja a errância física, como a errância de meu paciente , ou a errância psíquica, como a errância de um paciente que está escrevendo ou expressando este saber idealmente total que ele “deve percorrer”), quando ele se encontra interpelado dessa forma, nunca é interpelado como sujeito suposto ao saber do paciente, nunca é interpelado na mesma posição na qual o interpela um neurótico. Ele é interpelado talvez como uma rede lateral do saber. Ele mesmo é um pedaço do mapa. E, talvez o que está sendo interpelado num analista é a psicanálise mesma, como um pedaço de um saber total, através do qual ou pelo qual o psicótico vai passar, como ele vai passar em outros lugares, num caminho de errância do qual também a psicanálise faz parte. …No encontro com um paciente psicótico fora de crise, há pouca razão para que o psicanalista faça mais do que ACOMPANHÁ-LO11 nesse caminho que faz parte de sua errância. De fato, há pouca razão para que um analista proponha um alvo diferente do que está sendo pedido, e não há nenhuma para que ele recuse de ACOMPANHAR12 o seu paciente numa volta pela psicanálise.13

Estas palavras levam-me a pensar que se a errância psicótica é física e psíquica e o analista é um pedaço do mapa pelo qual o paciente erra, é possível acompanhá-lo fisicamente, intervindo junto a esta errância. É importante esclarecer que se trata de uma escuta a partir destes pedaços de um saber total atribuídos a ele pelo paciente, bem como da utilização de sua própria presença no real, intervindo fisicamente junto a tal errância, no trânsito pelos mais variados espaços sociais. Ao meu ver, esta seria uma aproximação coerente entre a teoria psicanalítica e o fazer do Acompanhamento Terapêutico, relativa a especificidade do sofrimento psicótico.

III

Lembro-me agora de um paciente que acompanho para quem as referências estão no acompanhante no real como amigo/psicólogo/psicanalista/músico, o que fala de sua busca de saberes relativos a Amizades, Psicologia, Psicanálise, Música,… É possível, então pensar que são estas as questões que estão colocadas para ele . Ora, é a partir da relação com alguém que lhe acompanha no desenrolar delas, que seu trânsito pelo cotidiano torna-se menos aterrorizante. É isto que pode fazê-lo vivenciar algo da ordem de seu desejo e, a partir disto poder realizar, ainda que acompanhado, algo no social que seja comprar um livro, assistir um filme no cinema, comprar um CD, ler e conversar sobre suas leituras, em fim: transitar pela rua buscando situar-se em relação ao viver a partir de suas experiências com a presença do outro e de seu trânsito pelos espaços sociais no cotidiano, os representantes do Outro .

Um ponto importante que me despertam estas reflexões é o apelo ao múltiplo papel do acompanhante. Já sabemos que a demanda psicótica transita e busca fim nos saberes e na presença do acompanhante no real. É, de fato fundamental que o acompanhante possa situar-se frente a esta demanda, tendo como referência que seus saberes são pontos de apoio construtores de uma rede defensiva a partir da qual abrem-se novamente múltiplas questões/trânsitos ao seu paciente. Este exercício permanente é fomento ao viver, pois abre para experiências outras um errar antes solitário e tomado pelo sofrimento arrebatador. Assim, algo impossível de ser enunciado pode ser traduzido numa saída ao encontrar a boca, os olhos, as mãos, as pernas, um automóvel, um ônibus, um táxi e alguém que pode estar junto para fazer algo mais do que simplesmente sofrer calado.

IV

Antes de encerrar, gostaria de sublinhar que este escrito se construiu a partir de experiências clínicas. Portanto, pode de saída parecer equivocado do ponto-de-vista paradigmático. Mas, o que fala mais é o fazer e o aprendizado originado na experiência de intervenção na rua. Neste ponto, Baremblit14 pode ratificar o que venho propondo. Do lugar de Analista Institucional este autor fala da necessidade de levar-se em conta a clínica do Acompanhamento Terapêutico enquanto um fazer singular. Neste sentido, alerta para a importância do feeling, do conjunto de vivências retiradas do acompanhamento de pacientes. Segundo Baremblitt15, isto possibilita a construção de uma parateoria ou prototeoria, ao contrário de ficar repetindo-se o instituído de uma teoria. Por isto, o que proponho é algo da ordem de uma potência inventiva necessário ao pensar as intervenções possíveis no Acompanhamento Terapêutico no que se refere a especificidade do sofrimento psicótico.

Por hora, o que posso dizer é que desde a Psicanálise com Freud e Lacan, temos elementos para formar uma rede de saber a respeito da escuta do inconsciente psicanalítico no Acompanhamento Terapêutico o que é de fundamental importância para esta modalidade enquanto uma clínica das psicoses. E, que também precisamos levar em conta nosso andar pela rua, o que aponta para uma clínica em movimento. Justifica-se, assim, a indicativa de uma escuta móvel, a qual convoca-nos a uma gênese terapêutica centrada na cena e num pensar frente à moral instituída na relação entre o pensar, o discurso e o trânsito psicóticos pela rua.

Notas

1 – Contato: E-mail: [email protected]

2 – Holanda, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. R. J.: Nova Fronteira, ed. 1. Para esclarecer a respeito da “heterogeneidade” que encerra a publicação anterior ( ver nota número 3)e permeia este escrito, como também definir melhor a questão da gênese psicoterápica que encerra este escrito.

3 – Essas discussões dizem respeito ao I Ciclo de Debates sobre a Clínica do Acompanhamento Terapêutico, organizado pelo Grupo de Acompanhantes Terapêuticos Circulação, durante o primeiro semestre do ano de 1999.

4 -Ver em Calligaris, Contardo. Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. p. 12 -13. Neste livro, o autor ao estabelecer um diagnóstico de estrutura psicótica define seu paciente como “um sujeito eminentemente errante, errante no sentido de errância, não do erro”., ou ainda como “um sujeito que pode errar no sentido de atravessar o mundo e seus caminhos”.

5 – Em artigo anterior (publicado nos Cadernos de AT: uma clínica itinerante. Grupo de Acompanhamento Terapêutico Circulação (org.) Porto Alegre: Feplan, 1998) falo da colaboração deste conceito para abarcar a especificidade do AT.

6 – idem 4.

7 – Ver em Neto, Alfredo Naffah. A psicoterapia em busca de Dioniso: Nietzsche visita Freud. São Paulo: Escuta/Educ, 1994.

8 – Freud, Sigmund. Lo inconsciente. In: Obras completas de Sigmund Freud. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981. Tomo II, p. 2078-2079. Aqui Freud salienta a importância da “linguagem dos órgãos” dos esquizofrênicos como indicador do uso das palavras como coisas por estes pacientes e sua importância para a escuta do inconsciente.

9 – Lacan, Jacques. O Seminário livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1985.

10 – Calligaris, Contardo. Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

11 – Grifo meu.

12 – Grifo meu.

13 – idem 9, p. 20-21.

14 – Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital-Dia A Casa, org. A rua com espaço clínico. São Paulo: Escuta, 1991, p. 85-90.

15 – idem 11.

Artigo publicado no “Site AT” em 10/06/2001.

Supervisão em AT.

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