Apresentação do livro “Ética e técnica no AT” de Kleber Barreto


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Autor:

  • Eduardo Cavalheiro Pelliccioli – Psicólogo, acompanhante terapêutico e possui pós-graduação em Teoria Psicanalítica. Foi membro de grupos de AT em Porto Alegre durante a década de 90 e fundou, junto com outros profissionais, o Grupo de AT Circulação em 1997. Desde então vem atuando como organizador de atividades de ensino, grupos de estudo e ciclos de debates sobre a prática do acompanhamento terapêutico. Em 1998 organizou, pelo Grupo Circulação, a primeira publicação especificamente sobre AT no sul do país, denominada Cadernos de AT: uma clínica itinerante. Também pelo Circulação, foi convidado, em 1999, pela Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, a montar e trabalhar como supervisor clínico no I Curso de Qualificação em AT para servidores da Rede Pública de Saúde do Estado. Atualmente, além das atividades clínicas e institucionais que exerce pelo Grupo de AT Circulação, desenvolve projetos de extensão e ensino do acompanhamento terapêutico em parceria com a PUC – RS e a UFRGS. E-mail: [email protected]

Nunca sabemos ao certo por onde começar uma apresentação, especialmente quando se trata do trabalho de outrem. Algumas vezes, para alcançarmos uma certa originalidade, começamos pelo fim, transformando-o assim, no começo (de nossa apresentação). Pois farei do começo do trabalho de Kleber o fim que almejo para mais esta jornada de atividades circulatórias: circulatórias de conhecimentos e por que não, de Saber?

No início do livro, bem no início, há uma capa. É ali que ele começa produzir sentidos em mim. A figura exótica – porém imponente – de Dom Quixote sobre o flete Rocinante, acompanhado de Sancho Pança que, por sua vez, conduz uma cavalgadura bem menos nobre, mostra o fidalgo a mirar para um determinado ponto que desconhecemos, enquanto o escudeiro lança seu olhar para o mestre Quixote. Andam eles por uma estrada bastante arriscada. Deram-se conta vocês? Perceberam o abismo que tangencia a trilha na qual encontra-se a dupla? AT é uma dupla de letras que abrevia uma dupla de palavras que diz de uma dupla de pessoas. Logo, não são um. A duplicação do nome próprio do personagem, de Alonso Quijano para Dom Quixote (de La Mancha) é o que permite à ele o desenrolar de suas (des)aventuras já que ocorre uma colagem do homem aos textos ou, ao que os textos compõem como significado de vida, o seu ethos. É a dobra do nome que se constituiu que possibilita a existência de um segundo personagem corporificado aonde já havia corpo, porque Quijano torna-se Quixote. Se o primeiro era leitor obcecado por romances de cavalaria e diz-se que foi por isto que enlouqueceu, o segundo acaba sendo personagem vivo daqueles textos, ou melhor, da leitura que Quijano fazia e que fez revirar a realidade para dar vida ao cavaleiro nobre, idealista, audaz, capaz de peripécias bravias e atos lancinantes. Uma espécie de avesso do homem Quijano, pobre, pacato, simplório e morador de uma casa sem luxos. É como se fosse preciso enlouquecer para viver a vida ou, ter-se por outro para concebê-la.

Ele toma os livros como destino incondicional; é neles que baseia sua vida, é deles que extrai o seu passado numa complicada operação aprés-coup. Consulta-os de maneira compulsiva, e não era para menos, porque neles está tudo o que foi, o que é e o que será. Quixote sai das páginas para encarnar-se numa miscigenação profunda entre os signos que encontra nas narrativas e o Ser, estando pois, como que prescrito nas inúmeras páginas que havia lido. Toda a luta deste herói trágico é provar que está colado àqueles signos, mas muito mais do que isto, que ele os é!!! Ao identificar-se com a emblematização de “O Cavaleiro Andante” faz tornar possível mais uma forma de subjetivação (pois esta é constante, não pára), só que agora absolutamente aderido ao discurso formado pelos enunciados que o compõe. Se o discurso é uma prática que forma e constitui sistematicamente os objetos dos quais ele fala, será no interior desta prática discursiva que Quijano irá pautar sua vida. Ouçamos Foucault:3

Assemelhando-se aos textos de que é o testemunho, o representante, o real análogo, Dom Quixote deve fornecer a demonstração e trazer a marca indubitável de que eles dizem a verdade, de que são realmente a linguagem do mundo. Compete-lhe preencher a promessa dos livros. (…) sua aventura será uma decifração do mundo: um percurso minucioso para recolher em toda a superfície da terra as figuras que mostram que os livros dizem a verdade. (…) Dom Quixote lê o mundo para demonstrar os livros. E não concede a si outras provas senão o espelhamento das semelhanças.

Voltemos ao início, ou algo depois deste, e se assim é, já não o é mais. Quero dizer que depois de começar não é mais possível voltar ao início, não genuinamente, a não ser pelas palavras, com as quais podemos não mais do que volteá-lo, recontá-lo, mas, novamente, ele já não é o idêntico que buscávamos. Algo freudianamente irredutível. E por falar na “orelha” mais famosa deste século que passou, a do livro de Kleber é escrita por Luís Cláudio Figueiredo (poderíamos desejar orelha muito melhor do que esta?) que sem mais delongas toca no crítico, no cerne daquilo que constitui um trabalho clínico: a técnica e a ética, já que a primeira é tutelada pela segunda, como afirma ele.

A relação que une os dois protagonistas do romance picaresco não poderia ser outra que não aquela une outros dois, acompanhante e acompanhado: o amor.

Amor, palavra chave em nosso trabalho e sentimento duplamente importante para nós, porque é dele que provém o combustível para tocar o maquinário clínico-analítico e é de suas vertentes que este mesmo trabalho poderá ser inundado e liquidado, se me permitem o trocadilho. Não há enganação entre Quixote e Sancho, pelo menos, não intencional. Não existe mal feitoria, tampouco leviandade; não cabem ali segundas intenções senão somente as primeiras: o amor recíproco de um pelo (discurso do) outro. E o que mais, senão o amor que mantém a relação paciente – acompanhante terapêutico? Ainda que esta relação entre os personagens seja irascível ( e não é assim conosco?) é ela que constrói, em boa parte, a grandeza deste livro de Cervantes e, se ouso aqui uma licença poética, o livro da vida de todos nós. Sobre isto é Harold Bloom quem comenta:4

Ligados um ao outro pela ordem do jogo, eles também são unidos pela interminável maior humanização que provocam um no outro. Suas crises são inumeráveis; como poderiam não ser no reino de Quixote? Sancho às vezes hesita à beira de abandonar o relacionamento, mas não pode; em parte está fascinado, mas no fim é mantido por amor, e também o é o Dom. O amor talvez não possa distinguir-se da ordem do jogo, mas é assim que deve ser.

E se é fato que no começo da psicanálise está a transferência5, o começo deste livro para mim o é somente através dela. Em verdade ela ocorre com o texto do autor, transferência inédita e única, pois só deste jeito ela e possível e passível – de acontecer. Mesmo com todos os problemas que sabemos que ela pode nos acarretar, não temos como prescindi-la. Se por um lado a transferência coloca na relação dual entre terapeuta e paciente o engodo que lhe é característico, qual seja, a de que somos colocados (como terapeutas) em posições fictícias, imaginárias, por aqueles que nos demandam; por outro lado, não podemos fazer absolutamente nada de analiticamente profícuo sem ela. Este é um dos nós que devemos desatar em uma relação analítica.

Isto tudo permitiu-me um generosíssimo ato falho onde, ao sugerir que deveríamos ler mais do que os dois primeiros capítulos, queria alertar que eles eram introdutórios e com “pouco conteúdo”. Sugeri então, para sairmos do duplo, o terceiro. Vocês conseguem entender e perceber exatamente isso: que para sairmos do duplo precisamos de um terceiro?! De novo, Freud. Ato falho, porque eu já lera os capítulos iniciais que tratam, como vocês já sabem, do histórico pessoal do autor, de seus bisavós e suas relações com a loucura, da sua própria infância. Achei então que só as experiências pessoais dele, ou de um autor, não bastavam, apesar de que se assim fosse, eu estaria negando o próprio Dom Quixote. Pensava que era necessário assistir, logo de primeira, a teorização de Kleber sobre a sua prática, colocando nela, sentido e fundamento. Então, se os dois primeiros eram as histórias de um passado, insisti (sem re-conhecimento mas com Sabedoria, pois tratava-se de uma formação inconsciente) que deveríamos buscar um terceiro… terceiro o quê? Mas que era precisamente nele que começava a teorização das experiências de forma consistente. Uma espécie de super-visão interna que possibilitou, através daquilo que incorreu em falha, entender que com duplos não se vai longe.

Pulo sobre o prefácio, driblo Coríntios e suspendo-me diante da advertência sobre o risco eminente do amargo gosto do dogmatismo e do reducionismo que o livro pode nos despertar. É o autor que assume a responsabilidade e, de antemão, dita um mea culpa descrevendo-se como um andarilho perdido que relata apenas aquilo que vê. Assume sua cegueira parcial porque relembra-nos que a visão nunca é plena e nos entrega seu texto.. lá na página 29 cria uma linha evolucionista de sua prática clínica, ou melhor, primeiro descreve-a como “experiência como at”, depois assume-a ao compreendê-la “atividade como trabalho” para, alguns anos mais tarde poder percebê-la como um “trabalho terapêutico”. Sobre isto, de o AT ser terapêutico ou não, ser clínico ou não, já não quero discutir mais. No ponto em que cheguei junto com meus colegas sobre esta discussão, seria algo como chover no molhado, ou seja, é possível, mas inútil. E ao falar sobre AT e psicanálise aqui (mais uma vez!) é porque desejo casá-los, apesar de suas diferenças contrastantes e que ainda assim, algumas vezes recusamo-nos a escutá-las.

Nestes três primeiros capítulos, Kleber Barreto cita rapidamente temas de nosso interesse: autismo, psicose, psicanálise e outras coisas. Não vou resenhá-los para vocês, todavia, partirei daqui para tratar de um assunto em comum entre a minha experiência como clínico e a dele, como escritor-at-autor. Aqui estão pois, os EUnunciados de uma clínica em construção, porque se EU é que os enuncio hoje para vocês, seremos nós os seus operários daqui por diante.

Notas

1 – BARRETO, Kleber. Ética e Técnica no Acompanhamento Terapêutico – andanças de Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Unimarco Editora, 1998. Esta foi a minha apresentação do livro de Kléber para meus colegas do Grupo de AT Circulação.

2 – Contato: E-mail: [email protected]

3 – FOUCAULT, M. As Palavras e as Coisas – uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes Editora, p.64 – 65, 1999.

4 – BLOMM, H. O Cânone Ocidental – os livros e a escola do tempo, Rio de Janeiro: Editora Objetiva, p. 141, 1994.

5 – Em LACAN, J. Tradução do texto Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola, mimeo.

Artigo publicado no “Site AT” em 22/06/2002.

Supervisão em AT.

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