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Autor:

  • CAT – Círculo de Acompanhamento Terapêutico. Central de Atendimento: (11) 5606-6272. Equipe: Cristiane Ostheimer Parreira – CRP 06 / 55519-4; Daniela Borges de Lima – CRP 06 / 56555-9; Eliane Lorenzetti Bez Chleba – CRP 06 / 55758-3; Fabiano Murgia – CRP 06 / 56923-7 e Miriam de Oliveira – CRP 06 / 57109-7.

BREVE HISTÓRICO

Influenciado pelo movimento anti-psiquiátrico, o Acompanhamento Terapêutico (AT), também denominado amigo qualificado, surgiu no início da década de 70 em Buenos Aires na Argentina.

Inicialmente foi utilizado como recurso complementar no atendimento institucional a pacientes psiquiátricos e, à medida em que foi sendo mais solicitado, expandiu-se para outros locais como a rua e a casa do paciente.

No Brasil, o AT começou em Porto Alegre na Clínica Pinel, depois chegou ao Rio de Janeiro na Clínica Vila Pinheiros e finalmente em São Paulo. Posteriormente, este recurso passou a ser utilizado também por pacientes não psiquiátricos que apresentavam diferentes quadros clínicos.

ATUAÇÃO

A característica principal desse trabalho é assistir ao paciente fora do consultório ou das instituições, ou seja, no espaço social – na rua, na residência do paciente e em outros ambientes de convívio.

O AT pode ser realizado por um ou mais acompanhantes, integrando ou não uma equipe multidisciplinar.

Junto ao paciente, o acompanhante terapêutico (at) vai exercer diversas funções fundamentais para a transformação do indivíduo, ajudando-o a recuperar a capacidade de simbolizar, assim como, favorecendo a constituição e/ou desenvolvimento de sua subjetividade e de sua criatividade.

Esse trabalho exige que a duração de cada encontro seja maior que a de uma sessão psicoterapêutica tradicional, variando freqüentemente de duas a três horas por encontro, sendo que a quantidade de encontros semanais é determinada segundo as necessidades de cada paciente e definidas no contrato inicial.

O acompanhante terapêutico deve ser capaz de relacionar-se abertamente com o paciente, sem deixar de manter um certo distanciamento crítico, que possibilite observar e avaliar a evolução do paciente. Daí surge um grande diferencial no trabalho, pois é necessário que o at esteja junto com o paciente, acompanhando-o e, além do mais, elaborando e atuando. A possibilidade de conviver em diferentes situações e contextos, estando assim, mais próximo da realidade do paciente, favorece ao at proporcionar experiências que auxiliem no desenvolvimento do sujeito.

Mesmo tendo sido incluído na formação universitária e crescido nos últimos anos como recurso terapêutico, o AT segue pouco conhecido entre muitos colegas e instituições.

UM CASO DE ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

Para apresentar e expor um pouco mais sobre a prática do AT, será utilizado como ilustração o relato de um caso clínico.

Na ocasião, Roberto estava com 53 anos, filho único, os pais falecidos, tetraplégico, com a queixa de depressão, tendo ele passado por vários tratamentos psicológicos e psiquiátricos ao longo de sua vida. Roberto vivia há um ano isolado em uma pensão, com dificuldade para enxergar, deitado a maior parte do tempo em uma cama, sem mesmo levantar-se para fazer higiene pessoal, muitas vezes sem ter até o que comer.

Ele é formado em direito, mas quase não exerceu a profissão. No passado, editou dois livros, trabalhou como entrevistador, crítico de cinema e teatro para revistas e jornais, além de ter talento para pintura. Quando iniciou-se o AT ele passava por dificuldades financeiras, o contato com a família havia sido rompido e apenas uma prima ajudava-o à distância enviando-lhe o dinheiro exato para a hospedagem da pensão.

A família foi distanciando-se de Roberto na medida em que ele tinha atitudes que gerava revolta em todos, ou seja, quando não estava deprimido, era comum encontrá-lo alcoolizado, sob o uso de drogas, exercendo sua sexualidade com indigentes ou garotos de programa que levava para onde estivesse morando, fazendo dívidas que não tinha condições de assumir, além de seu comportamento agressivo com a família. Roberto já havia tentado suicídio anteriormente, e durante quase todo o trabalho de AT existiu esse risco.

Após as duas primeiras semanas de AT, Roberto passou a ser acompanhado por duas ats.

Conforme várias mudanças foram ocorrendo com esse paciente, além da própria solicitação dele de ter mais contatos, intensificou-se o AT, e ele passou a contar com uma equipe de cinco ats.

É comum o At ser realizado por equipes especializadas ou multidisciplinares, neste caso, interagiram a equipe de ats e psiquiatra.

Este trabalho foi baseado segundo a perspectiva Winnicottiana, onde o at exerce diversas funções ambientais, muitas das quais foram conceituadas por W.D.Winnicott.

Essas funções são exercidas através do manejo, que é a técnica fundamental no trabalho de AT, através dessa prática o at intervém no cotidiano do paciente, visando seu desenvolvimento psíquico.

As principais funções do at são: holding (dar sustentação); continência; ajudar o paciente a perceber as necessidades corporais (handling); fazer a apresentação de objeto; espelho (função especular), que se dá através do reconhecimento de si ou de algo através do outro; oferecer-se como modelo de identificação; aliviar as ansiedades persecutórias; fazer interdições; interlocução dos desejos e angústias; atuar como agente ressocializador; perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente; informar sobre o mundo objetico do paciente; representar o terapeuta, ou seja, ajudar o paciente a elaborar os conteúdos da psicoterapia.

Desenvolvimento do caso e resultados:

Diante da situação inicial em que o paciente encontrava-se, uma das principais atitudes foi de estar intervindo no cotidiano dele, e assim, o paciente junto com a at foram em busca dos serviços prestados pela CAASP, já que ele é advogado, e Roberto passou a receber um auxílio-mensal, consultas médicas, atendimento psiquiátrico e até mesmo cesta básica. Aos poucos foi sendo possível sair com Roberto para o social, acompanhá-lo ao banco, cartório, supermercado, etc, ajudando-o a lidar e cumprir com as atividades que a vida cotidiana exige, principalmente quando depois de algum tempo
de acompanhamento ele passou a morar sozinho, no apartamento que os pais deixaram-lhe.

No início era comum levarmos para Roberto algum alimento ou objeto, principalmente materiais para pintura, que fizeram com que ele voltasse a pintar e fazer plano de uma exposição de seus trabalhos. Tanto a presença das ats, quanto dos objetos, foram humanizando o ambiente e Roberto foi saindo da depressão, comprou um cachorro que lhe faz companhia e que passou a ter grande importância na vida dele.

A freqüência com que procurava indigentes e garotos de programa colocando-o em situações de risco (roubos, ameaças, violência…) diminuíram consideravelmente

Em determinados momentos Roberto voltou a fazer dívidas em lojas e restaurantes, a acumular contas, beber e envolver-se em discussões e brigas com as pessoas a seu redor, mas nessa fase já havia se estabelecido um bom vínculo, uma relação de confiança, que permitiram serem colocados alguns limites ao paciente, fazer interdições, ajudá-lo a organizar-se dando-lhe parâmetros de realidade e intervir fazendo a adequada apresentação de objetos.

Com o decorrer do trabalho Roberto foi retomando o contato com alguns amigos, até que criou condições para viajar ao interior de São Paulo e restabelecer o contato com seus tios, aproveitou para buscar vários objetos que lhe pertenciam e estavam com a família há muitos anos, entre eles, vários exemplares de seus livros e desenhos que trouxe com o objetivo de tentar vendê-los, recuperando assim, seus planos e expectativas.

Era comum Roberto romper, ou melhor, “destruir” as relações que tinha com as pessoas, esse comportamento foi transformando-se na medida em que os encontros e situações vivenciadas no At foram assegurando-lhe a experiência de continuidade, de constância, oferecidas através das funções de holding e continência

Neste caso, foi possível observar que nas fases de depressão que imobilizam o paciente, a intervenção por meio de medicamentos foi necessário, mas como recurso
único não é suficiente, o contato humano, o fato de uma pessoa “estar junto” são importantes e os efeitos terapêuticos potencializados.

Um dos privilégios do AT é que o profissional, ao inserir-se no cotidiano do paciente, passa a ter acesso a uma série de informações que lhe possibilitam ter uma visão ampla do funcionamento mental do paciente e do meio que está inserido. Caso faça parte de uma equipe multidisciplinar , o trabalho de AT estará contribuindo de forma significativa dentro da equipe.

* Acompanhamento Terapêutico realizado por Cristiane Ostheimer Parreira

OBJETIVO DO CAT – CÍRCULO DE ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

Nosso objetivo é acompanhar o paciente em seu cotidiano, proporcionando mudanças que favoreçam a melhora de sua qualidade de vida; para tanto, dependendo da situação podemos auxiliar de diferentes maneiras: nas atividades de lazer, no desenvolvimento das funções psíquicas para lidar com vivências emocionais, na (re)organização pessoal, na (re)inserção social…

No contato com o paciente, o at busca ampará-lo, ajudando-o a criar, manter e fortalecer certos vínculos e a transformar outros. O AT objetiva preservar a vida por mais frágil e tênue que se apresente, propiciando condições para que o paciente aprimore seu repertório e tenha condições para lidar com as vicissitudes da vida.

A QUEM SE DESTINA

Atualmente o AT beneficia pré e pós-cirúrgicos, depressivos (inclusive pós-parto, situações de luto e separações), sindrômicos, deficientes físicos e mentais, dependentes químicos, pacientes terminais, pacientes psiquiátricos, terceira idade e casos de recusa ou contra indicação em consultório. O AT é um recurso indicado para todas as faixas etárias.

Esta atividade também pode proporcionar um alívio aos familiares e auxiliar os profissionais responsáveis pelo sujeito, dividindo os cuidados e atenção necessários e
contribuindo com uma orientação compartilhada entre profissionais e família.

Fonte:

http://www.psiconews.com.br/texto27.htm

Artigo publicado no “Site AT” em 22/08/2000.

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