Acompanhamento Terapêutico: um olhar sobre a família


Você pode compartilhar agora?

Autora: 

  • Áurea Chagas Cerqueira –  faz parte da Equipe de AT do Centro de Atenção à Saúde Mental – Anankê.
  • Trabalho apresentado na Primeira Jornada Brasiliense de Acompanhamento Terapêutico, em 23 de novembro de 2002.

O acompanhamento terapêutico de um paciente inicia-se, normalmente, dentro de um contexto de intenso sofrimento, dele e de sua família. A entrada de um acompanhante terapêutico (AT) no contexto familiar sempre gera expectativas e tensão. Sua presença faz surgir um movimento importante, embora ambígüo por parte da família do paciente: alívio da angústia vivida e dificuldades de aceitação de um “terceiro” na dinâmica familiar.

Embora nos deparemos com um sofrimento real da família em busca de ajuda, o AT, inicialmente, é recebido por ela, em nível inconsciente, como um “estranho intruso”, capaz de denunciar as tramas, os jogos, o papel que o paciente ocupa na doença familiar e os “benefícios” que esse adoecimento traz para o todo.

Dessa forma, o trabalho junto à família e com a família torna-se essencial para o sucesso do acompanhamento terapêutico do paciente. Naturalmente, esse trabalho deve ser norteado pela compreensão de que o paciente não é uma estrutura individual isolada do todo, e sim um membro dentro de uma estrutura familiar comprometida e que também precisa ser tratada. Nesse sentido, o AT assume uma posição delicada, exercendo uma influência significativa a nível familiar, possibilitando que o seu contato periódico adquira um caráter terapêutico, embora não exerça a função de terapeuta da família.

A integração do AT no contexto sócio-familiar do paciente possibilita o envolvimento do mesmo com outros membros desse contexto, e, embora desejável, nem sempre é possível um distanciamento mínimo necessário para que o AT possa exercer adequadamente o seu papel. Aqui, vale destacar que a família, normalmente, projeta no AT expectativas de desempenho nos papéis onde ela experimenta dificuldades junto ao paciente, buscando no mesmo um ponto de apoio para suas angústias, e, com grande freqüência, empreende tentativas de apropriar-se do trabalho e da atenção do AT. Diante dessa realidade, é importante que o AT fique atento aos seus sentimentos contratransferenciais para não atuá-los na relação com o paciente e com a família, e sim percebê-los como elementos fundamentais para a sua percepção da dinâmica dessas relações.

Na medida em que o acompanhamento terapêutico vai acontecendo, vai sendo estabelecida a vinculação do paciente com o AT. O AT passa, então, a exercer o papel de elo de ligação entre o paciente e sua família, oferecendo a possibilidade de auxiliar o paciente a compreender seus sentimentos e percepções sobre suas relações familiares. Nesse momento, um possível movimento de interferência negativa da família é o de manifestações veladas de ciúmes, inveja, raiva, boicotes e outras. Um possível movimento de natureza positiva é o da percepção gradativa, pela família, da necessidade de solução das dificuldades a nível familiar, e não apenas no âmbito do paciente, o que pode favorecer a busca por tratamento familiar ou individual para os seus membros.

Seja qual for a reação da família à inserção do AT em seu contexto, é importante a compreensão e a aceitação dos seus limites e recursos para lidar com o adoecimento do paciente. Essa compreensão é o caminho para a elaboração do manejo terapêutico e para uma maior abertura e proximidade, que poderão possibilitar relações menos defensivas, mais flexíveis entre AT e família e entre paciente e família.

 

Fonte:

http://www.acompanhamentoterapeutico.hpg.ig.com.br/olhar_familia.htm

 

Artigo publicado no “Site AT” em 16/09/2003.

Supervisão em AT.

Acompanhamento Terapêutico: um olhar sobre a família
Você Pode Avaliar Agora?

Você pode compartilhar agora?

Ficamos felizes quando você escreve aqui!