Acompanhamento Terapêutico Sob a Perspectiva do Olhar Sobre o Corpo de Quem Sofre


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Therapeutic Accompaniment

Acompanhamento Terapêutico Sob a Perspectiva do Olhar Sobre o Corpo de Quem Sofre

 

APRESENTAÇÃO

Este trabalho é um relato de experiência, em Acompanhamento Terapêutico, sobre um caso clínico diagnosticado como primeiro surto psicótico de depressão. Trata-se de um homem de 46 anos, eletricista, encaminhado pelo setor de medicina do trabalho da empresa que trabalha, manifestando sintomas como: medo das máquinas, sentimento de incapacidade para o trabalho e idéia prevalente de ruína relacionada à forte impressão que iria ser despedido de seu emprego, o que possibilitaria uma derrocada econômica em sua vida pessoal, em que toda sua família ficaria na ‘miséria’. Encaminhado para Acompanhamento Terapêutico para ser auxiliado, terapeuticamente, em seu próprio local de trabalho, apresentava manifestações sintomáticas que se relacionavam às preocupações e ocupações com sua atividade funcional. No acompanhamento deste caso, chamou minha atenção: a) a solicitação do Acompanhamento por iniciativa de uma empresa; b) a possibilidade do acompanhante terapêutico se apresentar como um agente entre psiquiatra/empresa/cliente/família; c) a utilização de técnicas em terapia corporal em situações emergenciais apresentadas pelo cliente, em que respiração e movimentos de corpo auxiliaram na continência de estados de ansiedade e insegurança, favorecendo também o processo do vínculo entre terapeuta/cliente.
Atualmente o cliente readaptou-se ao trabalho e mantém o estado de recuperação pelo suporte da terapia corporal individual e acompanhamento medicamentoso, com redução gradativa nas dosagens.

Almejei nesta apresentação, discutir opiniões, sugestões e críticas sobre uma maneira em se fazer o Acompanhamento Terapêutico.

INTRODUÇÃO

Através deste relato de experiência vamos apresentar um caso de Acompanhamento Terapêutico que foi realizado de novembro de 1999 a agosto de 2000, na cidade de Ribeirão Preto – SP.

Esse caso foi encaminhado por médico do trabalho que, frente a uma situação de surto psiquiátrico diagnosticado como psicose depressiva de um dos funcionários da empresa em que trabalha, necessitou estabelecer alguma medida que pudesse auxiliar aquela pessoa na dificuldade que se apresentava, para que fosse evitada a dispensa do quadro de trabalhadores.

A busca do trabalho em AT pode ter também como justificativa, a procura de um tratamento que pudesse evitar alguma medida empresarial mais rígida sobre um funcionário antigo e eficiente em seu serviço, podendo reabilitá-lo para retorno de suas atividades.

Foram recebidas algumas informações do setor de medicina do trabalho da empresa a respeito do que estava sendo observado sobre o comportamento daquele funcionário e, a partir do contato pessoal com o cliente puderam ser traçadas diretrizes básicas dos atendimentos.

Compreensível foi que, trabalhando como acompanhante terapêutico estava lidando com a desordem emocional e com a possibilidade de stress no trabalho naquele caso, o que possibilitava a perspectiva de que poderia acompanhá-lo na própria empresa – local de seu trabalho. Estaria então, auxiliando em sua recuperação individual, evitação de outras situações de crise e retorno das habilidades para o trabalho.

Os acompanhamentos passaram a ser realizados ao lado do atendimento do médico psiquiatra, que já estava realizando a prescrição medicamentosa sobre o cliente.

SOBRE O CASO

Trata-se de um homem, ao qual darei o nome fictício de Heitor – 46 anos, eletricista do setor de manutenção da fábrica, empregado há 16 anos nessa empresa. Casado, pai de 2 filhos: um menino de 15 anos e uma menina de 5 anos. No trabalho, considerado o melhor eletricista, com conhecimento inclusive histórico no processo de evolução do funcionamento empresarial, dada seu tempo de serviço e envolvimento afetivo com o local.
Segundo seus relatos, cumpria uma escala de 12 horas de serviços diários e era freqüentemente solicitado em horas-extras, para resoluções de problemas na manutenção das máquinas. Em casa era quem centralizava todas as decisões sobre as despesas domésticas e aquisição dos bens da casa. Sendo ainda ele próprio e sua esposa os construtores braçais dessa casa.

Pelos dados colhidos no setor de medicina do trabalho, começou apresentar-se com medo das máquinas, chegando a parar e chorar frente a alguma delas. Dizia-se incapaz para realização do trabalho. Além disso, e durante o processo terapêutico, suas idéias de ruína eram prevalentes e estavam relacionadas à forte impressão que iria ser despedido do emprego, o que possibilitava, em sua ideação deliróide, uma situação de escassez econômica a ponto da sua família ficar na ‘miséria’.

Castel (1991) comenta sobre a ruptura do vínculo social do trabalhador que fora da possibilidade e oportunidade de trabalho, insere-se em um processo de desfiliação, em que passa por precariedade econômica, pela privação, fragilização relacional e isolamento. Pude perceber uma relação com a manifestação deliróide apresentada pelo cliente, relativo ao seu trabalhador, temendo fixamente ser despedido, desfiliando-se portanto, de sua possibilidade relacional no social.

Nessa empresa também haviam acontecido mudanças tecnológicas no funcionamento de máquinas, que influenciavam a maneira de se atender na manutenção das mesmas. Tratava-se agora de um sistema computadorizado ainda pouco familiar ao cliente. Além disso, pela sua competência, ocupava o lugar de eletricista número 1 do setor, significando um aspecto de líder em relação à equipe. Segundo informações, essa posição foi tomada por ele como algo de muito peso que não soube lidar, nem suportar a carga da responsabilidade assumida.
Iniciei então os acompanhamentos em 23 de novembro de 1999. Ele se encontrava internado em hospital geral, prática empregada pelo médico psiquiatra que o acompanhava na época.
Foram percebidos dois grandes eixos em suas ideações deliróides: iria ser demitido, por não conseguir mais trabalhar como fazia e assim ficaria na ‘miséria’ em que toda sua família não teria mais como viver. Destacando-se ai a idéia de insuficiência e ruína.
MAUER; RESNIZKY (1987), refere que os trabalhadores de saúde mental devem contribuir para um tratamento que alivie ou mesmo remova a dor psíquica a partir de: ouvir a loucura (o delírio); compreender a fragilidade e acompanhar a sua desolação. Esse são objetivos terapêuticos possíveis de serem alcançados pelo acompanhamento terapêutico de enfermos mentais, trabalhando com uma outra concepção de enfermidade mental e evitação da cisão louco e sãos.

No primeiro contato com o sujeito deste estudo, encontrei-o extremamente ansioso e angustiado, apresentando sinais de rigidez muscular que fortemente lhe impedia a deambulação, bem como deitar livremente sua cabeça no travesseiro. Ele agarrou-se nas minhas mãos e em uma ação de desespero pediu-me para que lhe ajudasse, isso logo após eu ter me identificado e colocado o que estaria fazendo ali ‘visitando-lhe’.
Dessa maneira, iniciado o processo terapêutico de acompanhamento, comecei os atendimentos, à medida em que ia registrando a evolução do cliente e comunicando-me com os profissionais envolvidos no tratamento recebido por ele.
De início então, foi logo percebida a sua forte ligação com o trabalho e assim, a empresa foi utilizada para alguns acompanhamentos, em vista de que, por esse contato lhe fosse possibilitada uma contribuição na diminuição de sua ansiedade na ideação que iria ser demitido. Essa observação ofereceu subsídios para uma ação terapêutica voltada para a necessidade expressa por esse indivíduo em dificuldade.

Sobre a clínica do Acompanhamento Terapêutico, a EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA (1991), comenta que o cliente é alguém com nostalgia do fluxo de vida, desejoso de reinserção prazerosa no cotidiano, em vista de que os órgãos dos sentidos perderam a capacidade de captar o mundo e de captar-se como ser humano que almeja recobrar esses sentidos, em vez de ser atormentado por eles. Essa é uma parcela da identidade desse cliente, na complexidade individual e grupal do processo da loucura.
O compromisso do acompanhante terapêutico, como agente de saúde, é com o potencial saudável, a valência positiva, com o eixo vetorial voltado para a realidade. O compromisso assim é com a apropriação e re-apropriação dos sentidos, das percepções, tecendo a delicada arte de reinserir o cliente na trama das relações sociais, revigorando o fluxo da vida.

O objetivo do acompanhante terapêutico é passar a integrar a vida cotidiana do cliente, por um número estabelecido de horas, de tal maneira que se possa formar um vínculo com ele. O trabalho consiste em estar com ele em diferentes situações e contextos, servindo de ego auxiliar (estabelecer uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo e vice-versa), ajudando-o a receber, identificar e responder os vários estímulos que se lhe apresentem, oferecendo um clima de segurança e incentivo, abrindo-o para novas vivências. O at é um intérprete ativo, operacional, que atua no mundo real e concreto, cotidiano do cliente, investigando socialmente, também, o locus desse indivíduo, olhando esses locus como um contexto terapêutico ampliado.
Assim, também estava sendo possibilitado que, através do contato do indivíduo com a empresa, pudesse sentir o apoio que estava sendo oferecido, além do que poderia auxiliá-lo no desenvolvimento de atividades, mesmo que voltadas a outras tarefas, que não as suas de eletricista, procurando contribuir no sentido de que ele olhasse para sua capacidade, mesmo que sentindo como mínima naquele momento de crise. Ele sempre falava: “Como é que pode eu ficar assim, não vou poder trabalhar de novo, não consigo fazer nada.”
Observei no meu contato com o cliente aspectos corporais predominantes que se relacionavam com os sentimentos de insegurança, instabilidade afetiva e falta de contato com a realidade: a dificuldade física de equilíbrio corporal, tanto em ficar em pé, como em andar; o desejo extremado de voltar ao trabalho ao lado de um sentimento de insuficiência para tal; bem como a expressão de seu medo de ser mandado embora do serviço, em que associava a preocupação com os filhos e manutenção da casa, apresentando um sentimento de fracasso e incapacidade.
Ele referia que “…nunca mais vou poder trabalhar de novo… veja, eu nem consigo andar…parece que estou sem pernas…como foi acontecer isso comigo?…” Além disso, não dormia direito há aproximadamente uma semana (relacionando esse tempo com o início dos acompanhamentos), fazendo uma média de 1 hora de sono por dia. Saliento que nessa época ele estava saindo de uma escala de trabalho noturno.
Questões me afloravam sobre sua expressão de falta de pernas: isso poderia sugerir sua falta de contato com a realidade, ou mesmo a sensação de estar paralisado frente a sua própria vida? Sua ideação deliróide põe termo em sua instabilidade em ficar de pé? Em outro sentido, que respostas poderíamos obter sobre o que seja a realidade?
LOWEN (1982), refere que existem algumas verdades que ele pensa serem fundadas na realidade como: a importância de uma boa respiração, o valor de se estar liberto de tensões musculares crônicas, a necessidade de estar-se identificado com o seu próprio corpo e o potencial criativo do prazer. Nossas pernas são estruturas que nos comunicam com a nossa base no chão que são os pés. Nesse sentido, pés firmados no chão, nos possibilita segurança física corporal associada a pernas que assegurem essa sensação transmitida para o restante do corpo, sem que estejamos de joelhos travados, pois que assim bloqueiam energeticamente o fluxo circulatório corporal.

OS ACOMPANHAMENTOS

No contato inicial pude avaliar a necessidade diária de atendimentos a esse cliente. Assim, estabeleci acompanhamentos diários com a duração aproximada de 1 hora e 30min. todos os dias. Dessa maneira, pude estabelecer contatos cada vez mais aproximados e poder ir percebendo por onde intervir, por meio do vínculo que ia se formando. Ele permaneceu internado uma semana em hospital geral. Nesse período, não consegui estabelecer contato com o médico psiquiatra que o acompanhava, pois desencontrávamos nos horários de atendimentos.

Após alta ele ainda permanecia com extrema dificuldade de andar, perda de peso, rejeição à alimentação de descuido de higiene corporal, o que era feito pela esposa. Acompanhei-o até a consulta médica subsequente à internação e aproveitei a oportunidade para apresentar-me ao psiquiatra e assim poder ser estabelecido um contato profissional de troca. O psiquiatra parecia desconhecer o trabalho em AT, contudo, nada referiu sobre, apenas ouviu o que lhe disse sem nenhum comentário.
Os diálogos a respeito da evolução do caso eram travados quando nas consultas com esse médico. Eu acompanhava o cliente, juntamente com a esposa, e assim eram colocadas visões da família e da at.

Nos acompanhamentos aconteciam em sua residência, na praça em frente a sua casa, por vezes ele aceitava ir tomar um sorvete, ou ir até o shopping, ou ir até o banco verificar sua conta-corrente, para que pudesse visualizar seu saldo bancário. Essa ação pretendia aliviá-lo em sua idéia de que nada teria de dinheiro no banco.

Nos encontros podia escutá-lo acolhendo suas constantes idéias de ruína e auto-depreciação. Na praça, sentávamos na grama e eu continuava a ouvi-lo. Estimulava-o a tirar os sapatos e poder colocar os pés bem plantados no gramado, ou pedia que ele, sentado pudesse pegar com as mãos a terra na qual estava sentado. Ao fazer isso percebia que ele ampliava sua respiração naquele momento, parecendo aliviava um pouco sua ansiedade, no que possibilitava uma melhora na maneira com andava, ou seja mais firme, sem necessitar de auxílio nessa ação; era muito comum ele andar auxiliado por mim.

A empresa concedeu férias para ele na expectativa de que pudesse melhorar nesse tempo e assim voltar às suas atividades. No decorrer do processo de atendimentos, o fator trabalho ficou muito forte para o cliente que pedia para que retornasse às suas atividades laborais.
Após vencidas suas férias e como não houvessem tido melhoras consideráveis que lhe permitissem atuar em sua função de eletricista, em acordo com o médico psiquiatra e com a permissão da empresa, eu o levava até a empresa para que exercendo qualquer outra função, estivesse no seu local de trabalho e assim pudesse ser passada alguma segurança sobre o seu sentimento de incapacidade e medo de ser demitido.
Assim, no Ambulatório de Saúde do Trabalhador da fábrica ele ajudava no preenchimento de fichas, orientado pela auxiliar de enfermagem do local. Ali ele passava algumas horas, levado por mim para depois ser levado para casa pelo técnico de segurança da empresa, ou mesmo por mim novamente. Ele ficava extremamente ansioso por não estar conseguindo fazer o preenchimento correto das fichas.
Acompanhava-o em sua casa e estabelecia contatos com sua família, mais especificamente sua esposa, que me relatava todas as dificuldades sentidas e surgidas. Pude tecer esclarecimentos sobre o diagnóstico, já denominado pelo médico psiquiatra de Depressão Psicótica. Apresentava então todos os limites possíveis, devido ao que ele estava passando naquele momento.
Percebia pequenos sinais de reação positiva ao tratamento, que eram logo derrubadas por alguma outra mais negativa. Por exemplo, em uma noite que conseguia dormir 4 horas de sono, amanhecia parecendo disposto e nada falava sobre suas idéias prevalecentes de ruína. No período da tarde, já se manifestava extremamente ansioso, andando em casa de um lado a outro, falando sobre toda a precariedade em que iria ser deixada a família, por conta de sua incapacidade. Quando eu chegava, resistia muito a sair. Contudo, já o encontrava pronto e me afirmando que nada resolveria o seu caso. Por vezes até me recebia de maneira hostil, para depois consentir em realizar alguma atividade.
A demonstração de sua hostilidade, se voltava primeiro a si pois, se considerava um fracassado. Quanto ao tratamento, além de dizer que nada resolveria o seu problema, falava que o seu local de trabalho acabaria lhe mandando embora. Todos os sinais eram levados em conta às características da sintomatologia da depressão.
A tentativa de ser levado ao local de trabalho, como de uso terapêutico, não surtiu o resultado esperado. Percebi que estava sendo até um fator de stress, dado que, como ele não conseguia reagir, por motivo dos próprios limites, o fato de ir até a empresa e não poder trabalhar como antes estava lhe causando mais ansiedade. Dessa maneira, em diálogo com médico do trabalho e psiquiatra, bem como com setor de recursos humanos da empresa, que acompanha também de perto os retornos dos atendimentos, o funcionário foi afastado via INSS.
O psiquiatra que lhe acompanhava solicitou que ele iniciasse uma terapia de apoio. A esposa, dada a minha proximidade, por conta da própria forma de atendimento em Acompanhamento Terapêutico, me solicitou que indicasse alguém. Foi então encaminhado a um outro médico, que além da facilidade de convênio para a família, era também alguém do meu contato profissional e também relacionado à mesma abordagem terapêutica – a terapia corporal.
A esposa do cliente encontrava-se extremamente afetada pela situação do marido, visto que assumia sozinha as providências do seu tratamento. A família (os pais e irmãos) permanecia omissa (sic), o que acarretava uma sobrecarga emocional à esposa. Assim, em diálogo com ela, realizei um outro encaminhamento, em que foi possibilitado o início de uma terapia individual de apoio para ela própria.
O quadro clínico de Heitor ia se agravando: não havia resposta satisfatória medicamentosa e o sono continuava insuficiente, assim como a idéia predominante de fracasso e desespero. As intervenções corporais realizadas surtiam efeitos, mesmo que momentâneos, quando em crise de ansiedade extrema, bem como eram realizados muitos estímulos à deambulação propiciando trabalhar terapêuticamente o seu corpo e sua reação à crise depressiva, possibilitando também uma descarga de tensão emocional.
A esta altura, a esposa do cliente, tomou a iniciativa de mudar de psiquiatra, justificando que as medicações que ele tomava não surtiam mais efeito, pois o sono não regularizava. Além de que alegou dificuldade de comunicação com o médico que o assistia. Continuei nos atendimentos oferecendo o meu apoio as tomadas de decisões realizadas pela família, especificamente sua esposa, que procurava conversar comigo sobre suas decisões.
Com o novo psiquiatra, medicações de primeira linha forma utilizadas, sem surtir o efeito desejado. Nesse instante do tratamento, Heitor havia perdido bastante peso corporal e continuava deambulando com dificuldade, demonstrando fraqueza muscular e desequilíbrio em seu eixo de corpo.
Procurava, nos atendimentos, estimular a deambulação, em uma tentativa de possibilitar maior firmeza de suas pernas e seus pés no chão, oferecendo o meu apoio como segurança, possibilitando-lhe contato com o seu próprio corpo, consequentemente consigo mesmo.
Propiciava que, exercícios corporais do tipo alongamento e flexibilidade fossem feitos no jardim em frente de sua casa. No momento em que realizava ele parecia se acalmar e assim, podíamos conversar longamente sentados no banco da praça. Eu o escutava ele falava de como era estranho estar nesse estado de pertubação mental, dizendo que sofria muito com sua incapacidade para trabalhar e apresentava choros, como que de criança, ao falar sobre sua preocupação de ver sua família abalada por ele estar doente. Ele dizia: “Parece que estou assistindo a um filme… É um pesadelo tudo isso.” Observava nesses momentos que era como que ele estivesse mesmo falando de uma outra parte sua, era um eu dividido que se apresentava nos momentos em que descrevia a sensação de estar assistindo um filme de si próprio.
Percebia que a minha figura de at, através do vínculo com o cliente, estava se tornando como um agente entre ele, sua família, empresa e profissionais. Eu intermediava providências a serem tomadas, bem estabelecia um canal de troca de informações prestadas aos profissionais, família e nos retornos que dava à empresa sobre o processo do tratamento. Este último eu o fazia por meio de relatórios de atividades mensalmente entregues à empresa, os quais eram acrescentados ao prontuário do funcionário, informando sobre o estado de evolução terapêutica do cliente.
Em tudo o que já se falou na bibliografia sobre acompanhamento terapêutico pude mesmo sentir e afirmo pelo meu contato com essa prática, que o compromisso do acompanhante terapêutico, como agente de saúde, é com o potencial saudável, a valência positiva, com o eixo vetorial voltado para a realidade. O compromisso assim é com a apropriação e re-apropriação dos sentidos, das percepções, tecendo a delicada arte de reinserir o cliente na trama das relações sociais, revigorando o fluxo da vida
No entanto, pelo meu contato com o este cliente percebia sua resistência vista em uma reação negativa a todo tratamento oferecido, em que o uso das medicações não surtia efeitos satisfatórios nem quanto ao sono, nem quanto à ideação deliróide. Ele foi se agravando ao ponto de haver tentado suicídio por enforcamento em uma madrugada de insônia. Na época, já se vislumbrava a possibilidade de ser internado em regime de semi-internato em hospital-dia, ao lado da continuidade do trabalho da at, fora do hospital.
Contudo, essa sua investida, indicou aos profissionais, que estavam realizando a triagem para internação no hospital-dia, o tratamento em internação 24horas. Lá eles não conheciam o trabalho de Acompanhamento Terapêutico e tive pouca possibilidade de alguma troca profissional. Como at, ofereci suporte ao cliente e à família, no sentido de serem tomadas as providências necessárias ao internamento.
Dessa maneira, tanto sua esposa como a empresa tomaram o posicionamento de não o internarem em hospital do tipo manicomial. Através de informações do médico que estava como terapeuta de apoio, foi mantido contato com um hospital que funciona nos moldes de uma comunidade terapêutica. A Empresa autorizou o internamento pelo convênio do funcionário.
Assim, continuei os atendimentos até serem resolvidos os papéis de internação e acompanhei-o até o hospital, levando comigo um relatório do médico que fazia a terapia de apoio, que ficou como responsável, pois que tinha o convênio necessário ao internamento. Fiz também um outro relatório, em que relatava toda a trajetória do processo evolutivo do caso e a minha participação como acompanhante terapêutico. A Empresa cedeu um de seus carros e juntos fomos eu, o cliente e a esposa e um funcionário que dirigia o carro. Durante todo o caminho ele foi abraçado à esposa e, vez por outra, segurava em minha mão dizendo: “Ana, não deixa que me levem para lá não?” “Eu não quero ser internado!” Sentia muita compaixão de seu sofrimento e segurava fortemente a sua mão, olhando-o nos olhos, acolhendo sua dificuldade e dor, afirmando-lhe que no fim tudo ia acabar bem.
Sua internação durou cerca de aproximadamente 2 meses e meio. Lá ele permaneceu por um tempo em área restrita, devido ao risco de fuga e suicídio, que já estava apresentando em casa e que indicava, mais especificamente, sua internação 24 horas.
Internado ele também passou por 9 sessões de eletrochoques, conforme critérios desse tipo de intervenção, justificada pela configuração da resistência depressiva neste caso: ausência de respostas às medicações psiquiátricas utilizadas e idéia predominantemente suicidas e de fuga, que não reagiam ao que já estava sendo prestado como atendimento.
Esse procedimento foi marcado por reação de choque de sua esposa, que autorizou por escrito as administrações das sessões, mediante esclarecimentos do médico psiquiatra do hospital. Contudo, apesar de devidamente esclarecida ela continuava bastante abalada. Eu somente fui saber que iriam ocorrer essas sessões, quando no carro de volta à Ribeirão, visto que não participei da entrevista do médico com a esposa.
Gostaria de relatar aqui o sentimento de extrema solidão e impotência que passei, enquanto at responsável pelo caso. Trabalhando de maneira autônoma e sem fazer parte de uma equipe nem de profissionais voltados para atendimentos em saúde mental, nem de ats, surpreendi-me na dúvida de resultados mais satisfatórios na atuação do trabalho de Acompanhamento Terapêutico, talvez por não contar com outros profissionais com os quais pudesse revezar esse papel e assim poder acompanhar 24 horas o cliente, evitando, possivelmente, uma intervenção mais ‘drástica’ como considero o uso do eletrochoque.
Questiono então: será que teria como se evitar, nesse caso, esse tipo de terapêutica, ou mesmo a internação 24 horas, se houvessem outros profissionais at para revezamento no caso? Até que ponto o uso desse procedimento [eletrochoque] é mesmo aplicável? As manifestações mais severas e persistentes do cliente teriam sido sanadas, mesmo que em um prazo mais prolongado, se estivesse sendo acompanhado por uma equipe de ats e uma outra básica de profissionais da saúde mental que trabalham em equipe?
Essas são perguntas que me faço e que ainda não tenho respostas objetivas, pode ser pela pouca experiência na prática como acompanhante terapêutico, ou mesmo por ficarem mesmo no plano do questionamento e do meu próprio sentimento de insuficiência naquele momento.
Durante a internação, obtinha notícias pela sua esposa que me ligava constantemente para falar de como se sentia e dar notícias sobre ele. Eu mesma conversei com ele ao telefone, já próximo de sua alta, o percebi um tanto confuso, lembrando-se de mim ao escutar a minha voz, que segundo ele, era ‘inconfundível’.
Na época da alta hospitalar; fomos a esposa, eu e um funcionário [o mesmo que foi para o internamento] que dirigiu o carro cedido pela empresa para buscá-lo. Ao chegar no hospital o clima de ansiedade era grande por parte de todos, dada a expectativa de como ele estaria. O encontramos já de malas arrumadas e percebi a sua popularidade no lugar, sugestivo de uma mudança em seu humor. Ele me reconheceu e, após conversar reservadamente com sua esposa, chamou-me para mostrar onde estava alojado. Cumprimentou a todos, contou sobre tudo que havia feito lá. Saímos do hospital após contato com a psicóloga e o médico e sob fortes recomendações dos cuidados com o período de convalescença.
Após retorno da internação, o cliente optou por ficar apenas com o médico terapeuta de apoio como seu psiquiatra, responsável também pela parte medicamentosa. O trabalho de AT continuou, assim como também foram avaliadas as possibilidades de seu retorno às atividades de trabalho. Ele se apresentava diferente: havia engordado, estava dormindo a noite toda, comia melhor, permanecia sorridente a maior parte do tempo, dizia querer voltar a trabalhar. Ao lado de estar sob efeito ainda de uma dosagem elevada de medicamentos.
No trabalho em AT era objetivada a sua recuperação de forma a que se estabelecesse a noção de que tudo iria voltando ao seu cotidiano aos poucos possibilitando o reconhecimento de seus limites. Continuavam os trabalhos corporais na praça em frente de sua casa.
Acompanhava-o em suas compras de supermercado, no caixa do banco, em caminhadas próxima à sua casa, ou mesmo ficávamos dentro de sua própria casa. Demonstrava uma ar de disposição para tudo, o sorriso era constante e muitas vezes imotivado.
Após um mês de retorno do internamento, o médico psiquiatra me procurou, sugerindo uma tentativa de retorno ao trabalho de maneira processual. Assim, mantive contato com a empresa que propiciou seu retorno ao setor de origem, contudo em outra função, como trabalhador do almoxarifado, lidando com peças de seu conhecimento. Ele aceitou; passou por um período de experiência trabalhando meio turno, ainda extra-oficial e, depois que recebeu alta da perícia médica do INSS, continuou nesse setor e função em período integral.
Os acompanhamentos continuaram sendo feitos alguns dias no local de trabalho, em que eu acompanhava sua readaptação. Para qualquer iniciativa de mobilização com o funcionário, o setor de recursos humanos da empresa entrava em contato comigo, pedindo orientações.
Atualmente o cliente encontra-se em terapia individual, do tipo corporal, comigo, enquanto terapeuta corporal. Essa mudança de função foi construída em conjunto com o médico psiquiatra, que interviu positivamente nessa proposta de manutenção do quadro de recuperação após ter sido observado o cumprimento da função em Acompanhamento Terapêutico.
O médico psiquiatra está procedendo a uma diminuição gradativa do medicamento. Assim como todo o retorno sobre o processo de evolução saúde/doença, continua sendo dado pela terapeuta ao setor de recursos humanos da empresa e ambulatório de saúde do trabalhador. Os contatos com o psiquiatra que o acompanha permanecem mais esporadicamente, em que são colocadas trocas de experiências no papel de cada um. Tudo isso em favor da manutenção do quadro de convalescença do cliente e uma possível evitação de uma nova crise.
O trabalho de AT foi encerrado, pois que atingiu o objetivo de reinserir o cliente de novo em seu cotidiano, desempenhando suas atividades.
O trabalho corporal individual em consultório foi iniciado para dar continuidade ao processo de recuperação, permitindo seu auto-conhecimento corporal, bem como uma relação com sua dinâmica de personalidade, através de sua história pessoal possibilitando, pelo vínculo estabelecido terapeuta/cliente, apoio e auxílio no reconhecimento dos seus limites humanos, em que possa identificar qualquer alteração em seu corpo, refletindo-se em suas atividades e em seu funcionamento pessoal.
O trabalho corporal trabalha terapêuticamente na direção de uma frase difundida por Wilhelm Reich: “O corpo é o inconsciente visível.” Ao lado de outra dita por Stanley Keleman: “O corpo é um rio de acontecimentos.”
Portanto, nesse inconsciente visível que é o corpo, pode-se trabalhar terapeuticamente o desbloqueio de tensões corporais, a fim de que se possa fazer circular a energia vital existente em todos nós seres humanos.

COMENTÁRIOS FINAIS

Apresentando esse relato de experiência, pude ouvir e discutir opiniões, sugestões e críticas sobre uma possibilidade de se trabalhar em AT, quando na apresentação no I Encontro Nacional de Acompanhantes Terapêuticos. Além disso percebi que pude contribuir, na discussão que fala ser o acompanhante terapêutico um profissional que ocupa um lugar singular não só ao acolher o material psíquico, fruto das experiências individuais do cliente, como por toda a peculiaridade do trabalho, em que o terapeuta vai até a dificuldade pessoal onde ela se apresenta.
Como acompanhante terapêutico sinto-me extremamente estimulada profissionalmente na prática desse trabalho. No estabelecimento de um vínculo, coloco-me lado-a-lado do sujeito em dificuldade, explorando as várias maneiras de convivência e ultrapassagem de obstáculos que se apresentem. O movimento rompe essas barreiras e possibilita uma saída viável a cada caso.
Percebo também nessa prática um aspecto fundamental e rico que é o campo de interdisciplinaridade que se apresenta ao se trabalhar como acompanhante terapêutico. Como enfermeira de saúde mental, trabalhadora e profissional na área da saúde, vislumbro mesmo essa ‘clínica do espaço’ como vem sendo considerado o Acompanhamento Terapêutico.
Vejo como uma prática clínica, no sentido da relação terapeuta/cliente, que perscruta possibilidades no agir em favor do usuário não só na área de saúde mental, como em outras, em que confinamento, clausura e exclusão estejam presentes naquilo que o sujeito manifeste e seja traduzido em sua necessidade de atendimento dos serviços em saúde.
Isso traz motivação àqueles que buscam saídas e caminhos possíveis na realização de um efetivo trabalho voltado para o sujeito em dificuldade, que está na vida em relação com outros sujeitos em uma via de mão dupla.

 

BIBLIOGRAFIA

  1. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA (org.) -A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. – Escuta, 1991, São Paulo – SP.
  2. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA (org.) – Crise e Cidade: acompanhamento terapêutico – Educ, São Paulo, 1997.
  3. LOWEN, Alexander – A corpo em depressão: as bases biológicas da fé e da realidade. – Summus Editorial, São Paulo, 1983.
  4. LOWEN, Alexander – Bioenergética – Summus Editorial, São Paulo, 1982.
  5. MAUER, Susana Kuras de; RESNIZKY, Silvia – Acompanhamento Terapêutico e Pacientes Psicóticos: Manual introdutório a uma estratégia clínica. – Papirus, Campinas – SP, 1987. (tradução: Waldemar Paulo Rosa).

 

Autora: Ana Celeste de Araújo Pitiá – Doutora e Mestra em Enfermagem – área Saúde Mental, pela EERP – USP. Terapeuta Corporal Neo-Reichiana formada pelo Instituto Lumen de Ribeirão Preto; Treinee em Análise Bioenergética pela Sociedade de Análise Bioenergética Lumen de Ribeirão Preto – SP; Formação de Acompanhamento Terapêutico. Clínica Ãnimus – Espaço Terapêutico. Rua Itacolomi, 466 – Alto da Boa Vista – Ribeirão Preto-SP. Fones: (16) 3911-1986 / 630-5598 (res.) / 9992-2676 (cel.). E-mail: [email protected]

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