Conhecendo o Acompanhamento Terapêutico


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Resumo:  este artigo tem por finalidade trazer algum esclarecimento referente à prática do AT, Acompanhante Terapêutico, que nos últimos anos vem ganhando destaque através de sua clínica diferenciada em que faz da rua seu setting de trabalho junto à pacientes de diversas patologias. São verificados alguns dados da história de sua criação bem como seu importante papel na atuação de tratamento, suas principais funções e características. Sempre inserido no meio de uma equipe multidisciplinar, o AT recebe supervisão para o bom desempenho de seu objetivo. Concluindo esta nova modalidade surge para ampliar o trabalho realizado nos consultórios da clínica tradicional, enriquecer e nortear um novo caminho, principalmente na área da saúde mental.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico; rua como setting de trabalho; clínica tradicional.

Abstract: this article aims to bring some clarification regarding the practice of AT, Therapeutic Accompaniment, which in recent years has come to prominence through its different clinical forms of the street where his work with the setting of patients with various pathologies. Some data are checked in the history of its creation and its important role in the performance of treatment, its main functions and features. Always inserted in the middle of a multidisciplinary team, the AT receives supervision for the proper performance of his goal. Completing this new method appears to extend the work in the offices of traditional clinical, enrich and guide a new path, especially in the area of mental health.

Keywords:  Therapeutic Accompaniment; street as work setting, traditional clinical.

Conhecendo o Acompanhamento Terapêutico

O Surgimento do Acompanhante Terapêutico

Os movimentos antimanicomias, a antipsiquiatria e o surgimento das “comunidades terapêuticas” na Europa e nos EUA, nas décadas de 1950 e 1960, com o propósito de reformular a relação com a loucura trazem a necessidade do AT, inicialmente chamado de amigo qualificado conforme observam BERGER, MORETTIN e NETTO, 1991 (citados em LONDERO & PACHECO, 2006).

O amigo qualificado é reconhecido como agente terapêutico, pois apesar do vínculo intenso criado com o paciente realiza tarefas sendo remunerado o que desconstitui a denominação inicial (MAUER e RESNIZKY, 1987).

Mauer e Resnizky (1987) comentam que o acompanhante terapêutico tem por missão uma prática oposta a psiquiatria clássica, não o afastando do meio familiar ou da comunidade.

Na pesquisa realizada por Londero & Pacheco (2006) os referenciais teóricos percebidos foram o Cognitivo-Comportamental e a Psicanálise. Sendo o Cognitivo Comportamental usado como técnica até para os profissionais de orientação psicanalítica através de uma visão psicodinâmica no intuito de combinar as abordagens.

Belloc (1998) menciona que o AT ao fazer da rua o setting do paciente diferencia sua clínica das demais modalidades.

Safra (2006) comenta o modelo clínico de Winnicott denominado placement e acredita que o acompanhante terapêutico busca levar o paciente ao encontro deste placement ao trabalhar com ele de maneira exteriorizada.

Ibrahim (1991) citado em Londero & Pacheco (2006) diz que o AT, conhecido anteriormente como auxiliar psiquiátrico e tendo como função administrar medicamentos, o papel de ego auxiliar e muitas vezes o de superego, organizar atividades lúdicas e rotinas diárias, começa a ser requisitado para trabalhos residenciais, aproximando-se assim do âmbito familiar e da comunidade a que o paciente pertence.

No Centro TEACCH Novo Horizonte, citado por Leon (1998) entende-se o atendimento terapêutico domiciliar como extensão da clínica institucional que segue um cronograma comportamental nas áreas de lazer, de comunicação, social, aprendizado formal, vocacional e AVDs (atividades de vida diária).

Indicação para  Acompanhamento Terapêutico

No intuito de ampliar as limitações do setting da clínica tradicional, o uso do AT complementa o tratamento clássico visando objetivos específicos analisados pelo profissional que sugere ao paciente o acompanhamento terapêutico (FIGUEIREDO, 1998).

O mesmo autor indica, tomando como base as patologias, pacientes com severas inibições nas relações interpessoais, pacientes com grave transtorno afetivo do tipo depressivo, maníaco, psicótico, pacientes autistas ou portadores de incapacidade física e/ou mental, transtorno de personalidade borderline, bem como outras patologias que exijam atendimento extra consultório em atividades cotidianas.

Os profissionais encaminham para o AT pacientes com características de incapacidade, desvantagem social e quadros psicopatológicos graves (LONDERO & PACHECO, 2006).

O Papel do Acompanhante Terapêutico

O trabalho do acompanhante terapêutico era inicialmente recomendado para pacientes cujas demais terapêuticas fracassavam. Hoje com novas delimitações o AT pode acompanhar o paciente por todo o processo terapêutico, desde que esteja assistido por uma equipe psicoterapêutica que se comunique com regularidade esclarecendo dúvidas e auxiliando-o neste papel (MAUER e RESNIZKY, 1987).

Através desta prática, o paciente pode se readaptar ao seu mundo seja este mundo apenas seu próprio quarto ou englobe sua casa, família, escola e trabalho, ou ainda, o mundo das construções delirantes e suas tentativas de remontagem representacional (PELLICCIOLI, 1998).

A assistência do acompanhante é vista como uma importante forma complementar na melhora do paciente, tanto em sua qualidade de vida como no convívio familiar e social (LONDERO & PACHECO, 2006)

Pittia (2004) citado por Azevedo (2008) entende que o AT é como um dispositivo da reforma psiquiátrica servindo como um facilitador na sociabilização do paciente e o mundo mediando as situações de seu cotidiano.

O setting do At é formado pela rua, mas também comporta o cotidiano e a casa do paciente, fazendo com que o acompanhante se insira nas relações tanto familiares como sociais (AZEVEDO, 2008).

Conforme Palombini (2006) o AT traz para a clínica tradicional uma vivência diferenciada exigindo de a equipe um repensar em busca de novas intervenções para uma aplicabilidade efetiva nesse novo espaço de tratamento. Por outro lado, analisa a rede social frente à desinstitucionalização da loucura.

As Funções do Acompanhante Terapêutico

Uma das principais funções do AT é a contenção. Estando como suporte nos momentos de angústia, ansiedade ou, ainda, de equilíbrio do paciente.  Ao mostrar diferentes formas de ver e agir em determinadas situações do cotidiano tem como função o modelo de identificação, possibilitando ao paciente, outros modelos além dos já estereotipados, mais além, auxilia-o a aprender, esperar e postergar possibilitando assim uma adaptabilidade em seus mecanismos de defesa (MAUER e RESNIZKY, 1987).

Outra função citada por Mauer e Resnizky (1987) é a de servir ao paciente como “Ego”, seja no auxílio de atividades diárias ou em decisões as quais ainda não se encontra apto para fazê-lo.

O AT também tem como funções desenvolver a capacidade criativa do paciente e informar sobre o mundo objetivo do mesmo. Através do desenvolvimento da  capacidade criativa estimula as áreas mais organizadas da personalidade do paciente tendendo a uma reestruturação e ajudando-o a reencontrar-se com a realidade. Referente ao mundo objetivo do paciente, o acompanhante vivenciará seu comportamento na rua, seus relacionamentos sejam familiares ou na comunidade, além de sua conduta relacionada à alimentação, sono, higiene (MAUER e RESNIZKY, 1987).

Representar o terapeuta e atuar como agente ressocializador são funções tão importantes quanto as demais citadas. Mauer e Resnizky (1987) comentam que o AT ao acompanhar o paciente em suas atividades cotidianas, amplia a ação do terapeuta. Como agente ressocializador, o acompanhante tende a encurtar a distância entre o paciente e o mundo.

E por último, mas não menos importante, Mauer & Resnizky (1987) citam o servir como catalisador das relações familiares, em que o AT serve como facilitador das relações entre paciente e família.

Características para o Trabalho de Acompanhante Terapêutico

A assistência oferecida pelo AT não exige formação acadêmica, podendo ser exercida por pessoas de nível médio, técnico ou graduandos (AZEVEDO, 2008).

Mauer e Resnizky (1987) citam algumas características como, por exemplo, vocação assistencial, alto grau de comprometimento, o saber trabalhar em equipe, autonomia, empatia e flexibilidade.  O conjunto dessas qualidades permite ao acompanhante conhecer e manejar o paciente em diversas situações que ocorram ao longo do tratamento.

Londero & Pacheco (2006) falam em subcategorias distintas como, características e habilidades pessoais, características de habilidade e gênero, possuir experiência de AT, características físicas, conhecimentos teóricos, características definidas pelo perfil do paciente.

Vínculo na Prática do Acompanhamento Terapêutico

Segundo Mauer & Resnizky (1987) o vínculo entre AT e paciente se dá em quatro etapas evolutivas: o início da relação; período de maior aceitação; consolidação do vínculo e finalização do acompanhamento.

No início da relação pode existir certa desconfiança e suspeita por parte do paciente em relação ao acompanhante ou uma atitude de transferência prematura. No período de maior aceitação do vínculo, passado o tempo de adaptação mútua, há a empatia por parte do acompanhante e inicia-se o planejamento das atividades a serem trabalhadas. A consolidação do vínculo é traduzida pelo alto comprometimento de ambas as partes na relação terapêutica, em que o paciente e acompanhante vão além do contratado.

Por último a etapa da finalização que frequentemente acontece de maneira abrupta e indesejada pelo acompanhante. Porém, também pode ocorrer uma separação de maneira planejada e elaborada pelas partes.

O vínculo terapêutico do acompanhante com o paciente e sua família deve ser fundamental na relação. Conforme Estellita-Lins (2006) ao construir o vínculo com o paciente e familiar através de atitude empática e comprometida facilita, os acordos, principalmente junto ao paciente, pois o AT tem presença constante afetando de maneira dinâmica e positiva o cotidiano e modificando situações que precisem de soluções para um melhor convívio.

A Família e o Acompanhante Terapêutico

Inicialmente a família se sente aliviada com a presença do AT devido à falta de manejo com o paciente. Logo após, apresenta certa resistência à presença do AT e ao tratamento. Conforme Mauer e Resnizky (1987), cabe ao acompanhante servir de catalisador da ansiedade familiar levando para discussão na equipe multidisciplinar em que está inserido.

Mauer e Resnizky (1987) afirmam ainda, que o trabalho do AT a ser desenvolvido junto à família do paciente é desafiante. Ao mesmo tempo em que precisa mostrar-se empático com a família também necessita esclarecer e executar as regras de trabalho a serem cumpridas.

Em circunstâncias de crise intensificada pela família que não sabe como amenizar a situação junto ao paciente, o AT pode representar o modelo de identificação em relação ao manejo com o mesmo (LONDERO & PACHECO, 2006).

Azevedo (2008) afirma que o processo de desinstitucionalização reivindica uma maior participação da família, porém não fornece condições para que essa família não se sobrecarregue frente à nova perspectiva de cuidados com o paciente em ressocialização.

Considerações finais

Finalizando este estudo, conclui-se que a prática do acompanhamento terapêutico usando um setting que ultrapasse as paredes do consultório é rica em recursos terapêuticos e vivências cotidianas trazendo uma nova visão se comparada à clínica tradicional.

O AT amplia as possibilidades através de uma nova modalidade de terapia e obriga a equipe multidisciplinar envolvida no processo a reformular conceitos e planejar ações para solucionar as interrogações surgidas a cada situação inusitada, vivenciada pelo Acompanhante Terapêutico junto ao paciente e seu meio social.

Por ser uma área nova e pouco explorada, a literatura referente ao AT necessita de um maior número de publicações para um trabalho mais aprofundado e conclusivo.

Referências Bibliográficas 

  1. LONDERO, I.;  PACHECO, J. T. B.; Por que Encaminhar ao Acompanhante Terapêutico? Uma Discussão considerando a Perspectiva de Psicólogos e Psiquiatras. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p. 259-267, mai./ago. 2006. Disponível em < http://www.scielo.br/pdf/pe/v11n2/v11n2a03.pdf>, acessos em  03  ago.  2011.
  2. MAUER, S. K de; RESNISKY, S. Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicóticos: manual introdutório a uma estratégia clínica. (tradução Rosa, W.P.) – Campinas, SP : Papirus, 1987.
  3. BELLOC,M. M. Algumas reflexões sobre a clínica do acompanhamento terapêutico. In:  PELLICIOLI, E. et al. Cadernos de AT : uma clínica itinerante. Porto Alegre: 1998.
  4. SAFRA, G. Placement: modelo clínico para o acompanhamento terapêutico. Psyche (Sao Paulo),  São Paulo,  v. 10,  n. 18, set.  2006 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382006000200002&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  03  ago.  2011.
  5. LEON, V. C de. O atendimento terapêutico domiciliar segundo os princípios TEACCH. In: PELLICIOLI, E. et al. Cadernos de AT : uma clínica itinerante. Porto Alegre: 1998.
  6. PELLICIOLI, E. Considerações sobre a prática do acompanhamento terapêutico. In: PELLICIOLI, E. et al. Cadernos de AT : uma clínica itinerante. Porto Alegre: 1998.
  7. AZEVEDO, T; DIMENSTEIN, M. O acompanhamento terapêutico no cuidado em saúde mental. Estud. pesqui. psicol.,  Rio de Janeiro,  v. 8,  n. 3, dez.  2008 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812008000300008&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  05  ago.  2011.
  8. ESTELLITA-LINS, C; OLIVEIRA, V. M. de; COUTINHO, M. F. C;. Acompanhamento terapêutico: intervenção sobre a depressão e o suicídio. Psyche (Sao Paulo),  São Paulo,  v. 10,  n. 18, set.  2006 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-11682006000200012&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  05  ago.  2011.
  9. PALOMBINI, A. de L. Vertigens de uma psicanálise a céu aberto: a cidade. Contribuições do acompanhamento terapêutico à clínica na reforma psiquiátrica. Psicol. rev. (Belo Horizonte),  Belo Horizonte,  v. 12,  n. 20, dez.  2006 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-11682006000200012&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  03  ago.  2011.
  10. FIGUEIREDO, A. L.; SEGAL, J. Indicações e expectativas do trabalho do acompanhante terapêutico. In: PELLICIOLI, E. et al. Cadernos de AT : uma clínica itinerante. Porto Alegre: 1998.

Autora: Elizane Souza Costa – Graduada em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA/RS). Formada no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. Email: [email protected]

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