Acompanhante Terapêutico: a intervenção na crise


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Resumo: apresento neste estudo uma breve relação da desinstitucionalização com a prática do Acompanhamento Terapêutico e o surgimento de uma modalidade de serviço prestado à saúde Mental. Abordo neste estudo a prática do Acompanhante Terapêutico como uma estratégia inovadora e diferenciada de intervenção, que tem por objetivo a reinserção de doentes mentais na sociedade, bem como a orientação dos familiares envolvidos nos manejos adequados em situações de crise. Trata-se de uma prática itinerante que tem como setting as ruas da cidade e os mais diversos contextos sociais.

Palavras Chave: Acompanhante Terapêutico, desinstitucionalização, crise.

Acompanhante Terapêutico: a intervenção na crise

Foi no contexto de uma política da saúde mental, que surgiram as primeiras idéias da prática do Acompanhante Terapêutico. No final dos anos 80, em decorrência a mobilização dos trabalhadores e usuários dos serviços de saúde mental é que se instituiu o movimento que então fora chamado de Reforma Psiquiátrica (VASCONCELOS, 1996). Neste sentido, uma rede de serviços que substituíssem o manicômio era necessária.  O surgimento de práticas alternativas e inovadoras de cuidados e assistência a saúde mental vão se configurando em uma tarefa, bastante árdua, um esforço sustentado por aqueles que não aceitavam as condições de isolamento a qual era concebida a terapêutica da loucura. Oferecer perspectivas de vida saudável aos ditos doentes mentais considerando o sujeito psíquico ali implicado, transpondo o âmbito restrito dos serviços de saúde e lançando-se num espaço urbano sem produzir com isso a psiquiatriazação social é um desafio. Escreve Maud Mannoni (1983, p.201).

Quando o adulto se encontra em face de semelhante que não é a imagem do que ele crê pode esperar, oscila entre uma atitude de rejeição e de caridade. O problema não se coloca ao nível das boas intenções, mas ao muito mais obscuro que as sustém. Todo o ser humano que, por seu estado torna impossíveis certas projeções, provoca no outro um mal estar, um mal estar negado, cujos efeitos vão produzir-se no plano imaginário; esses efeitos, podemos ao longo da história medir-lhes o caráter absurdo.

Portanto, os efeitos do percurso da história da loucura desde a Idade Antiga até a Contemporaneidade não se extinguem, antes sim, eles se sobrepõem e vão camuflando práticas que envolvem da exclusão ao confinamento a de uma visão romântica ou mística da loucura, e neste contexto é que a prática do (AT) se insere como um dispositivo, alguém com uma função especial, a de criar possibilidades reais de vida para os portadores de transtornos mentais. Para Foucault (p. 244), “o dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos”. O acompanhamento terapêutico, então, é essa rede que articula os elementos desse conjunto, que os põe a funcionar.

A base e sustentação teórica da prática do (AT) se sustentam no pensamento de Lacan, Winnicot, Deleuze e Guattari (CAUCHICK, 2001), ou seja, uma concepção de subjetividade que se constitui na relação a uma alteridade; a ideia de que se trata de uma subjetividade não transparente a si mesma, que não se deixa aprender integralmente por um saber, guardando uma dimensão inconsciente de resistência que não se deixa capturar (PALOMBINI, 2006).  É nestes termos que o Acompanhamento Terapêutico (AT) é uma prática diferenciada de atendimento, sendo indicada a pessoas com história de sofrimento psíquico, com dificuldade de estabelecimento de vínculos e/ou em momentos de crise.

Não consideremos assim o Acompanhante Terapêutico (AT) como mais um modismo, especialismo ou uma panacéia (DERRIDA, 2003). Trata-se de uma clínica que se faz a céu aberto. O atendimento será realizado nos lugares em que as dificuldades acontecem, podendo, portanto, acontecer na casa, na rua (explorando o espaço urbano) ou, havendo necessidade, em instituições, ou seja, onde o imprevisto tem lugar seja tomando forma de uma rua, uma praça, uma cama ou um quarto, quando se considera que cada um desses territórios pode revelar se poroso à matéria do mundo para além de suas fronteiras mais ou menos estreitas, e que se os habita na perspectiva em aberto,  de um itinerário por vir (PALOMBINI, BELLOC e CABRAL, 2004). As possibilidades desse serviço se diversificam, pois cada relação estabelecida entre acompanhante terapêutico (AT) e paciente terá necessidades e sentidos singulares, sendo um diferencial dessa modalidade à flexibilidade já que ele ocorre nos espaços de vida do paciente. Corroborando, Lerner, (2006) reafirma esta idéia quando diz que o dispositivo do AT insere-se para além do espaço restrito dos estabelecimentos de saúde, realizando uma “clínica sem muros”, na qual o setting terapêutico se configura a cada incursão no espaço urbano.

A produção da subjetivação é um compromisso do AT, encontrar vias que proporcione tal desenvoltura faz parte da prática deste profissional, portanto a ética deve embasar este processo. A ética deve, então, embasar o acompanhamento terapêutico, e qualquer tendência ao enquadramento a um modelo teórico ou outro deve ser evitada, o que dará condições para que cada sujeito se constitua de uma maneira própria e singular.

SITUAÇÕES DE CRISE

O fator essencial que influi na ocorrência de crise é um desequilíbrio entre a dificuldade e a importância do problema, por um lado, e os recursos imediatamente disponíveis para resolvê-los. Os mecanismos de defesa usuais não funcionam e o problema é de tal ordem que outros métodos passíveis de serem empregados para contorná-los tampouco podem ser usados. (CAPLAN, 1980).

A intervenção em crise é um método de ajuda indicado para auxiliar uma pessoa, uma família ou um grupo, no enfrentamento de um evento traumático, amenizando os efeitos negativos, tais como danos físicos e psíquicos, incrementando a possibilidade do crescimento de novas habilidades de enfretamento reforçando a busca de opções e perspectivas de vida.

É indiscutível que, em situações de emergência, são esperadas reações emocionais muito intensas e a grande maioria dessas manifestações podem ser consideradas como compatíveis com o momento traumático vivenciado. Contudo, a abordagem precoce de qualquer problema de saúde mental é a maneira mais efetiva de prevenção de transtornos mais sérios que costumam aparecer, a médio e em longo prazo, após o evento traumático.

De acordo com Moreno et al. (2003), os profissionais que atuam com este tipo de intervenções devem ser ativos e diretos, orientados a obter objetivos rápidos diferentemente dos profissionais que intervém em situações que não são de emergência. O profissional deve ser ágil e flexível para colocar em prática ações para a resolução de problemas e para a superação das múltiplas dificuldades que possam surgir no processo de atenção, procurando satisfazer as necessidades imediatas do afetado colocando em funcionamento ações com os recursos disponíveis, tudo num período de tempo reduzido.

CONCLUSÃO

O Acompanhante Terapêutico é uma prática relativamente nova, que se encontra em processo de construção e aprimoramento. É um dispositivo de grande valia e uma estratégia fundamental no processo da Reforma Psiquiátrica e, na inserção dos doentes mentais na sociedade. Pode-se falar de uma clínica itinerante que se utiliza da cidade, de diferentes espaços sociais, configurando-se, portanto, em estratégias de enlace social.

Quanto ao contexto familiar, é função do Acompanhante Terapêutico, viabilizar estratégias de conciliação e ajustamento no sentido do entendimento da patologia, bem como dos manejos mais adequados para com o paciente.

Esta é uma prática que não está restrita a um grupo específico de técnicos, podendo ser exercida por diferentes pessoas que, após treinamento adequado, podem ser agentes promotores de melhoras na qualidade de vida de pacientes e das pessoas envolvidas com este.

Referências bibliográficas

  1. CAPLAN, G.1980. Princípios de Psiquiatria Preventiva. Rio de Janeiro: Zahar Ed.
  2. CAUCHICK, MARIA PAULA. Sorrisos Inocentes, Gargalhadas Horripilantes: Intervenções no Acompanhamento Terapêutico. São Paulo. Annablumes, 2001.
  3. PALOMBINI, ANALICE; BELLOC, MÁRCIA; CABRAL, KAROL. Acompanhamento Terapêutico: vertigens da clínica no concreto da cidade. Estilos da Clínica . Revista sobre a Infância com Problemas. São Paulo, 2005.
  4. PALOMBINI ANALICE (et al.) Acompanhamento Terapêutico na Rede Pública. A Clínica em Movimento. POA. URGS. 2004.
  5. PALOMBINI ANALICE, Acompanhamento Terapêutico: Dispositivo Clínico-Político. Universidade de São Marcos, S ao Paulo, 2006.

Autora: Mara Luciana da Silva Nunes – Graduada em Psicologia (ULBRA/RS). Formada no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. Facebook. E-mail: Email: [email protected]

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