Do Urbano, Suas Representações, o Inconsciente e o Outro da Cidade na Clínica do Acompanhamento Terapêutico com Sujeitos Psicóticos

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Do Urbano, Suas Representações, o Inconsciente e o Outro da Cidade na Clínica do Acompanhamento Terapêutico com Sujeitos Psicóticos

 

“Se a transferência retira sua virtude do ser reconduzida à realidade da qual o analista é o representante, e se trata de fazer o Objeto amadurecer na estufa de uma situação confinada, já não resta ao analisando senão um objeto, se nos permitem a expressão, em que fincar os dentes, e este é o analista”.1

 

Acompanhamento Terapêutico: a cidade como espaço clínico

Não é por ocasionalidade que a cidade me parece ser alvo de análise, quando fazemos dela um espaço clínico. É por me propor a uma clínica do Acompanhamento Terapêutico, tendo como referencial a Psicanálise e, por excelência seu conceito de Inconsciente2 , que me parece fundamental arriscar um ensaio no campo do que chamo de Outro3 da Cidade.

Como, então, poderia se dar esta clínica em movimento que toma diretamente o sujeito acometido pelo sofrimento psíquico no momento da tomada do inconsciente em produção?

Os carros que passam, o sinal, shopping, vitrines, casas e outras imagens estão ali, produzindo o registro do imaginário articulado com o real.

Não é mesmo na falha do elo destes dois registros com o simbólico4 e mais, numa insuficiente amarração destes três registros pelo sintoma, fazendo-o servo da demanda do Outro, o ponto onde o sujeito do inconsciente sofre, quando falamos de psicose?

 

 

Acompanhamento Terapêutico: a cidade e a loucura

Antes de propor algumas hipóteses a respeito destas questões, considero fundamental retomar alguns pontos históricos sob o ponto de vista da forma como o Outro da Cidade tem se articulado enquanto instância terceira à “loucura”.

Nesta trajetória, é importante considerar os tantos mecanismos organizativos – fundamentalmente as organizações manicomiais e a psiquiatria biológica – resultantes do crescente processo de urbanização da sociedade, da modernidade e do capitalismo, para lidar com a loucura e o sofrimento psíquico.

Em suma, o que temos é uma história de tratamentos morais, proteção, controle, exclusão, violência, abandono, decorrentes de modelos hoje considerados fracassados. É com Foucault5 que aprendemos isto, no que nos fala Katz6 quando opta por uma cidade fundada no mal-estar advindo da pulsão de morte. É uma guerra e ‘estamos combinados’.

 

 

Acompanhamento Terapêutico: o campo da saúde mental e a loucura

Nos tempos atuais, o que vivemos especificamente no chamado campo da Saúde Mental, visa a desconstrução desses modelos e aplica ao campo da “loucura” uma ética fundada na cidadania.

Sujeitos portadores de sofrimento psíquico grave são considerados como sujeitos de direitos e, a eles são oferecidos mecanismos legais em espaços públicos para reivindicarem, ou por eles se reivindica, tratamentos que oportunizem sua inclusão social e, sua livre circulação pela cidade7.

Aqui é importante constatar que seria demasiadamente ineficaz qualquer tentativa romântica para pensar estas questões.

Ao meu ver, tratar-se-ia de negar o mal-estar inerente à existência humana e, por consequência, levaria a resultados desastrosos. Também, faz-se necessário relembrar que tratamos de sujeitos que em sofrimento ficam tomados pela demanda do Outro, o que facilmente pode nos encaminhar para a violência de demandarmos destes outros modos adaptativos de existir enquanto cidadãos, excluindo suas particularidades subjetivas.

 

 

Acompanhamento Terapêutico: a ética do desejo na Psicanálise de Lacan

Vejamos, então, algumas proposições possíveis considerando as constatações acima no contexto da clínica do Acompanhamento Terapêutico. Com Lacan, aprendemos que a psicanálise aponta para uma ética8 do desejo.

Neste sentido, pensar a circulação pela cidade e as possibilidades de cura ao sofrimento psicótico me parece mais plausível quando tomamos o caminho da poiésis9. A partir destas referências entendo que o desejo e sua articulação com outro10 é que pode permitir ao psicótico criar (poiésis) articulações (articula-ações) possíveis frente à demanda deste Outro.

É neste ponto que me interessa aquilo que na cidade é tomado por nós, analistas no papel de Acompanhantes Terapêuticos como “mapa” para o que Calligaris11 chama de errância psicótica.

 

 

Acompanhamento Terapêutico: uma aventura delirante com o paciente

Desta forma, penso que a presença do acompanhante-analista pode ser suporte para uma cartografia, uma “aventura delirante” com o paciente:

“Saio só aos domingos e como cachorro-quente no centro, pois meus familiares acham que não tenho modos à mesa. Aí eu lembro da universidade, quando estudava lá, eu comia prensado, era bom estar lá. Quando comemos pipoca aqui na praça, lembro da Sessão da Tarde”.

Sentado ao lado deste sujeito numa praça pública e disposto a escutá-lo enquanto sujeito do inconsciente, não pude negar que assistíamos aos passantes como se estivéssemos diante de uma tela de televisão.

Bem, alguns poderão pensar que este sujeito está fora da realidade, não se relaciona, ou de forma mais elaborada, que há uma fixação no estágio oral. Ainda podem surgir as velhas preocupações com sua saúde, pois poderia morrer de tanto comer, já que está muito obeso e com a tal de “pressão alta”.

E eu, já cansei de perder a conta em meus dedos de tantos pacientes que assisto ser “metralhados” pelas mais possíveis e variadas formas de dieta e tratamentos medicamentosos em nome da saúde – mais uma injunção que o psicótico não pode suportar, ou no mínimo não lhe faz sentido e acaba fracassando pelo viés da Castração, pois se trata da Forclusão12 como fundante de sua estrutura psíquica.

 

 

Acompanhamento Terapêutico: a cura

Por onde, então, pensar a cura neste pequeno fragmento de uma sessão de Acompanhamento Terapêutico? O quê do urbano estaria aí em questão?

Sabemos, ou ao menos um pouco e, principalmente quem passou por uma análise, que nossos desejos – mesmo que não concordemos com eles – são as molas de nossa existência.

Assim é: se você não deseja morre, ou ainda, é preciso estar vivo até mesmo para desejar a morte. Mas, vai ter que existir neste processo – entre desejo e morte – algum laço possível com o social, senão você “morre” por não ter nem podido experimentar o que é da ordem do desejo.

E mais, às vezes você sabe qual o outro caminho possível e acha que está louco por não poder segui-lo. Aí vem uma sensação de que você vai fazer como pode e, quando lhe dizem que está maluco, você resiste, persiste e vai até o limite.

Há uma passagem nos “Contos Proibidos do Marquês de Sade”13 que me parece oportuna neste momento. Após ser descoberto por escrever contos considerados imorais para a época e enviá-los para a publicação através dos muros do manicômio no qual estava internado, o personagem é submetido a métodos “hidro-terapêuticos”.

Durante repetidos mergulhos induzidos por uma engenhoca mecânica acionada por uma espécie de agente-terapêutico, que se mais se aproxima da figura de um torturador, o Marquês olha para este sujeito e fala: “Seu idiota! Não vê que quanto mais você insiste com isto, mais eu persisto com minhas idéias!?”.

Bem, o que interessa para este trabalho é que até este ponto da ficção, o marquês conseguia transformar seus pensamentos perversos em grandes escritos que, como sabemos, marcaram a história da moral e da ética.

Ou seja, até então, havia a possibilidade de transformar pensamentos em grandes obras literárias que eram expressão dos mais “proibidos” desejos humanos.

Daí por diante no filme, com o único canal expressivo para um desejo ficando impossibilitado, o que há é a mais pura violência e destruição.

 

 

Acompanhamento Terapêutico: a cura

Retornemos ao nosso paciente. Como então, considerar a cura – é importante pensar que aqui partimos do ponto de vista estrutural da psicose tendo como cura uma possível construção delirante que sustente o sujeito desejante em algum laço social possível a ele – num caso onde não nos resta mais do que todo o ideal para um sujeito produtivo, enquanto ideal da modernidade?

Se pensarmos por este viés – do ideal moderno – nada! Mas, e se aplicássemos uma ética assim como aquela que aplicamos ao caso do Marquês de Sade, quando é reconhecida a pertinência de sua obra?

Talvez encontraríamos por este caminho alguma possibilidade. Porque não considerar, então, este sujeito – agora o paciente de que falo – a caminho da cura quando ele pode estar numa praça, compondo um universo urbano, ainda que comendo “exageradamente” dois imensos pacotes de pipocas durante uma “Sessão da Tarde”?

Quem sabe, ou precisa saber da injunção que o impediu de concluir um curso superior e acabou resultando numa traumática internação manicomial? Quem, por mais que nos – a mim e a ele – considerem alguns, estanhos14 sabe do delírio que sustenta a transferência psicótica e mais, seu estar no mundo-praça-cidade naquele instante?

Quem diria que isto possibilita ao paciente transitar pela cidade, cumprimentar conhecidos e mais, viver, desejar, para além de um projeto narcísico materno de “superletrado”, no qual ele não poderia ter falhado?

Quem ousaria suportar que é transitando pelo centro da cidade, que ele encontra ainda que no campo da Forclusão, o Nome-do-pai15 (aqui neste trabalho trata-se de seu pai, que é aquele que circula pela cidade e, nela faz história) podendo aliviar-se deste desejo materno, aí sim desejo do Outro materno terrivelmente com a boca aberta para engoli-lo?

São questões que, para além de respostas, necessitam ser problematizadas.Pois, não é num sentido totalizante que pretendo apresentar esta discussão.

 

 

Acompanhamento Terapêutico: cada caso é um caso

Foi Freud quem ensinou que é a experiência clínica que pode sustentar a articulação de conceitos, verificar sua validade, aplicabilidade e, até mesmo, produzir um sistema teórico.

Como se fala no senso comum: “Cada Caso é um Caso!”. Em todo o caso – vale aqui o trocadilho – me parece fundamental fomentar o debate, tendo como parâmetro para a discussão que, para além deste outro16 que se apresenta na relação analítico-terapêutica, há um Outro17, aquele da Cidade que nos situa e atravessa a relação acompanhante-acompanhado durante uma sessão de Acompanhamento Terapêutico.

Neste ponto, retornamos ao texto de Katz18 e com ele nos perguntamos novamente: “O que há de tão específico na loucura que deixa os homens urbanos tão ameaçados por ela? Por que se nega, até hoje, autonomia a esse tipo humano tão específico que é o louco?”

E, para trazer a discussão ao que estamos vivendo nestes últimos dias: Está somente no campo da política estatal e da legalização, a saída, ou se trata de pensar a clínica tomando a loucura ,a ética do desejo e o sujeito do inconsciente como ponto de partida? A loucura é para nós tão estranha, implicando absolutamente em sofrimento psíquico a ser tratado?

Por fim, me parece importante articular estas questões, tomando como ponto de sustentação o que começo a desenvolver neste trabalho: a relação do sujeito do inconsciente, com o Outro da Cidade.

 

Referências Bibliograficas:

 

Notas:

1 – Trecho do trabalho “A direção do tratamento e os princípios de seu Poder”, in Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.613.

2 – O conceito de inconsciente do qual me utilizo neste trabalho está na obra de Sigmund Freud, mais especificamente em seu trabalho sobre O Inconsciente de 1919.
3 – Conceito tomado de Lacan que em sua obra refere-se a ele como: tesouro dos significantes, lugar, o inconsciente é o discurso do Outro.
4 – Ver nota número 12.
5 – Ver em Foucault, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1995.
6 – Trata-se da discussão que o psicanalista Chain Samuel Katz faz a respeito dos mecanismos utilizados pelo Estado, oriundo de guerras e, por conseqüência com a função de regular as relações nas cidades, a fim de conter grandes epidemias, como modelo para as intervenções médico-psiquiátricas à loucura nas diferentes classes sociais. Ver em Magalhães, Maria C. R. Na sombra da cidade. São Paulo: Escuta, fev. de 1995.
7 – Conforme dados das últimas Conferências Nacionais de Saúde e Saúde Mental.
8 – Veja Lacan, Jacques. O Seminário – Livro sete: A Ética da Psicanálise. Rio De Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
9 – Paul Valery, em sua Primeira Aula do Curso de Poiética no Cólege de France em 10 de dezembro de 1937, apresenta um viés do ato criativo fundado na consideração do ato que faz sobre a coisa feita. Aqui, tento aproximar as idéias do autor ao percurso realizado durante uma sessão de Acompanhamento Terapêutico. Esta prática clínica considera a importância do ato criativo delirante que possibilita ao paciente estar no mundo, existir, com menor sofrimento psíquico.
10 – Termo tomado de Lacan que em sua obra situa-o como o semelhante, nosso eu imaginário
11 – Ver em Calligaris, Contardo. Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
12 – Termos que Lacan utiliza em sua obra como essenciais ao tratar-se de psicose. Ver em De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (in Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998). Neste texto as seguintes passagens me parecem esclarecedoras: “É um acidente desse registro e do que nele se realiza, a saber, na foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro, e no fracasso da metáfora paterna, que apontamos a falha que confere à psicose sua condição essencial… (p.582). “Para que a psicose se desencadeie, é preciso que o Nome-do-Pai, verworfen, foracluído, isto é, jamais advindo no lugar do Outro, seja ali invocado em oposição simbólica ao sujeito” (p. 584). “…processo pelo qual o significante “desatrelou-se” no real, depois de declarada a falência do Nome-do-Pai isto é, do significante que, no Outro como lugar do significante, é o significante do Outro como lugar da lei” (p.590).
13 – Filme dirigido por Philip Kaufman, no qual expressa sua versão do escritor que interrogou a autoridade na Igreja e no Estado na França do séc. XVIII. Para melhor interpretar a aproximação que faço a seguir entre ética em psicanálise e Acompanhamento Terapêutico com este exemplo, seria importante, além de centrar a observação no campo de uma ética, mantendo em suspenso as diferenças de estruturação psíquica entre o personagem do filme e meu paciente -que não me parecem objeto relevante para tal propósito – consultar em: Lacan, Jacques. O Seminário – Livro sete: A Ética da Psicanálise. Rio De Janeiro: Jorge Zahar, 1988. Nesta obra acima, refiro-me fundamentalmente ao cap. ” O gozo da transgressão”, no qual é apresentada uma discussão pertinente articulando ética, sublimação e moral e suas implicações na psicanálise desde Freud, tomando o Marquês de Sade, sua fantasia e sua doutrina como ponto central da discussão.
14 – Aqui é importante lembrar o trabalho de Freud, “Lo Siniestro” ( in Freud, Sigmund. Obras Completas, Tomo III. Madrid: Biblioteca Nueva.) onde o autor discute o que há de mais estranho ao sujeito como sendo o mais familiar a ele mesmo.
15 – Ver nota número 12.
16 – Ver nota número 10.
17 – Ver nota número 3.
18 – Ver nota número 6.

Autor: Luciano Vignochi – Psicólogo, graduado pela UNISINOS em 1996/2, CRP 07/08175; acompanhante terapêutico, membro do Grupo de Acompanhamento Terapêutico Circulação; em formação psicanalítica na Associação Psicanalítica de Porto Alegre, a ser concluída em nov. 2001. Texto produzido em julho/agosto de 2001, em virtude de discussões clínicas no Grupo de Acompanhamento Terapêutico Circulação.

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