Identificação Projetiva e Acompanhamento Terapêutico

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Resumo
Este trabalho aborda o tema identificação projetiva, com base em Melanie Klein, fazendo assim um alinhavo entre a prática do curso de Acompanhamento Terapêutico (AT) e o assunto proposto.
Primeiramente temos a definição e um aprofundamento do assunto e logo em seguida são feitas conexões entre a teoria apresentada e questões que surgiram na prática. Questões essas que em determinado momento assumem um caráter pessoal, deixando assim, o processo mais intenso. É uma tentativa de tentar compreender o processo que ocorreu entre mim e o paciente e com base na teoria apresentada e aprofundar-me e desenvolver hipóteses.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico, identificação projetiva – aprofundamento – caráter pessoal.

Abstract
This work deals with projective identification on the basis of Melanie Klein, thus making a connection between the current practice of Therapeutic Accompaniment and the matter proposed.
First we have the definition and a deepening of the matter and then once connections are made between theory and presented issues that have arisen in practice. Issues such that at any given time have a personal, thus leaving the process more intense. It is an attempt to try to understand the process that occurred between me and the patient and based on the theory presented me and deepening and develop hypotheses.

Keywords: Therapeutic Accompaniment, projective identification, deepening, personal character.

Identificação Projetiva e Acompanhamento Terapêutico

Introdução
Nas vivências entre terapeuta e paciente o inesperado é esperado, das mais diversas situações estão a espreita, a demanda interior é intensa, o terapeuta, no Acompanhamento Terapêutico, está em um cenário peculiar, a rua, sendo que a rua é entendida como o bar, o shopping, o restaurante, a casa do paciente, um hospital, etc. À medida que o envolvimento com o paciente vem crescendo, mais delicado torna-se tratá-lo, afinal somos seres humanos com questões pessoais para serem resolvidas também.

Em determinado ponto do processo de um Acompanhamento Terapêutico o terapeuta pode vir a ser acometido de confusão e indecisão, de não estar ciente do que acontece em consigo mesmo, do que está acontecendo com o paciente e como deve proceder no próximo passo. O paciente acaba que “jogando” para o terapeuta algo seu e espera um retorno ou não, mas em determinadas ocasiões este processo pode se tornar intenso e acontecer uma identificação com esse “algo” projetado no terapeuta, então como devolver? O que devolver? Em um curto período de tempo temos que identificar o que ele está nos passando, identificar o que é nosso e devolver algo para este paciente, mesmo que seja o silêncio, precisamos estar perto da certeza do que estamos sentindo.
É justamente sobre este processo que venho a abordar no presente trabalho e também me aprofundar no tema proposto fazendo uma conexão com o caso baseado na definição de identificação projetiva proposta por Melanie Klein. O processo identificação projetiva fora abordado e estudado por Klein, a parir de outros conceitos e estudos feitos pela mesma, esta, partindo do pressuposto identificação e introjeção de Freud identificou e aprimorou o processo de identificação projetiva. Em nossos encontros com o paciente da prática do curso de Acompanhamento Terapêutico pude notar que me identifiquei com uma de suas projeções e devido a questões pessoais minhas terem semelhanças com as dele, me envolvi, me identifiquei com o processo e fique confuso por um breve momento, este suficiente para trazer grandes dúvidas e finalmente benefícios para ambos.

Partindo destes princípios abordarei neste artigo o tema identificação projetiva segundo Melanie Klein e farei uma conexão e abordagem pessoal do assunto em cima dos acontecimentos das práticas do curso e por isso alterarei o nome do paciente e outros dados necessários para manter a privacidade deste intacta.

A Identificação Projetiva – Por Melanie Klein
A expressão identificação projetiva surgiu em 1946 através de Melanie Klein, detalhadas em seu artigo “Notas sobre alguns mecanismos Esquizóides”.
Segundo Melanie Klein (1955), em “Luto e melancolia”, Freud (1917) mostrou a conexão intrínseca entre identificação e introjeção. Sua descoberta posterior do superego que ele atribuiu à introjeção do pai e identificação com ele, levou ao reconhecimento de que a identificação, como seqüela da introjeção, faz parte do desenvolvimento normal. A partir dessa descoberta, introjeção e identificação desempenham um papel central no pensamento e na pesquisa psicanalítica.
O desenvolvimento do superego pode ser reportado à introjeção nos estágios mais iniciais da infância; os objetos primários internalizados formam a base de complexos processos de identificação; a ansiedade persecutória, surgida da experiência do nascimento, é a primeira forma de ansiedade, logo seguida por ansiedade depressiva; a introjeção e a projeção operam desde o inicio da vida pós-natal e interagem constantemente. Essa interação constrói o mundo interno bem como modela a imagem da realidade externa. O mundo interno consiste de objetos – sendo o primeiro de todos a mãe – internalizados em vários aspectos e situações emocionais. As relações entre essas figuras internalizadas, e entre elas o ego, tendem a ser vivenciadas, quando a ansiedade persecutória é dominante, como essencialmente hostis e perigosas; são sentidas como sendo amorosas e boas quando o bebê é gratificado e prevalecem sentimentos positivos. Esse mundo interno, que pode ser descrito em termos de relações e acontecimentos internos, é o produto dos próprios impulsos, emoções e fantasias do bebê.
Sem dúvida, esse mundo é profundamente influenciado pelas boas e más experiências do bebê, provindas de fontes externas. Mas, ao mesmo tempo, o mundo interno influencia sua percepção do mundo externo de uma maneira não menos decisiva para seu desenvolvimento.
A mãe – e antes de tudo seu seio – é o objeto primário tanto para processos introjetivos como para os processos projetivos do bebê. Desde o começo, o amor e o ódio são projetados sobre ela e, simultaneamente, ela é internalizada com essas duas emoções primordiais contrastantes, o que fundamenta o sentimento do bebê de que existe uma mãe (seio) boa e outra má. Quanto mais a mãe e seu seio são investidos – e a extensão do investimento depende de uma combinação de fatores internos e externos, entre os quais a capacidade inerente de amar é da maior importância -, mais seguramente o seio bom internalizado, protótipo dos objetos internos bons, será estabelecido na mente do bebê. Isso, por sua vez, influencia tanto a força como a natureza das projeções; em particular, determina o que irão predominar nelas, se sentimentos de amor ou impulsos destrutivos.
Já descrevi, em vários contextos, as fantasias sádicas do bebê dirigidas contra a mãe. Descobri que fantasias e impulsos agressivos, surgidos na relação mais arcaica com o seio da mãe, tais como mamar o seio até secá-lo e escavá-lo, logo levam outras fantasias de entrar na mãe e despojá-la dos conteúdos de seu corpo. Simultaneamente, o bebê vivencia impulsos e fantasias de atacar a mãe, colocando excrementos dentro dela. Em tais fantasias, produtos do corpo e partes do self são sentidos como tendo sido excindidos, projetados para dentro da mãe, e continuando sua existência dentro dela. Essas fantasias logo se estendem para o pai e para outras pessoas.
Não são apenas as partes do self sentidas como destrutivas ou “más” que são excindidas e projetadas para dentro de outra pessoa, mas também partes que são sentidas como boas e valiosas. Eu já havia chamado a atenção para o fato de que, desde o começo da vida, o primeiro objeto do bebê, o seio da mãe (e a mãe), é investido libidinalmente e de que isso influencia vitalmente a maneira pela qual a mãe é internalizada. Isso, por sua vez, é da maior importância para a relação com ela como um objeto externo e interno. O processo pelo qual a mãe é investida libidinalmente está ligado ao mecanismo de projetar, para dentro dela, sentimentos bons e partes boas do self.
Com o prosseguimento do meu trabalho, vim a reconhecer a grande importância, para a identificação, de certos mecanismos projetivos que são complementares aos introjetivos. O processo que está subjacente ao sentimento de identificação com outras pessoas, pelo fato de que atribuirmos qualidades ou atitudes nossas a elas, já era amplamente aceito como certo antes mesmo que o contexto correspondente fosse incorporado à teoria psicanalítica. Por exemplo, o mecanismo projetivo subjacente à empatia é bastante conhecido na vida cotidiana. Fenômenos bem conhecidos em psiquiatria – como o sentimento de um paciente de que ele realmente é cristo, deus, um rei, uma pessoa famosa – estão ligados á projeção.
A identificação projetiva está ligada a processos de desenvolvimento surgidos durante os três ou quatro primeiros meses de vida (a posição esquizo-paranóide), quando a cisão em seu auge predomina a ansiedade persecutória. O ego ainda está muito pouco integrado e, portanto, passível de cindir a si próprio, suas emoções e seus objetos internos e externos; mas a cisão também é uma das defesas fundamentais contra a ansiedade persecutória. Outras defesas que surgem nesse estágio são idealização, negação e controle onipotente de objetos internos e externos.
Identificação por projeção implica uma combinação de excisão de partes do self e da projeção dessas em (ou melhor, para dentro de) outra pessoa. Esses processos têm muitas ramificações e influenciam fundamentalmente as relações de objeto.
Sugeri também que a internalização é de grande importância para os processos projetivos, especialmente pelo fato de o seio bom internalizado agir como um ponto focal no ego, a partir do qual sentimentos bons podem ser projetados em objetos externos. Esse seio bom internalizado vai fortalecer o ego, contrapor-se a cisão e à dispersão e aumentar a capacidade para integração e síntese. Portanto, o objeto bom internalizado é uma das precondições para um ego integrado e estável e para boas relações de objeto.
Um dos principais fatores subjacentes à necessidade de integração é o sentimento do indivíduo de que a integração implica estar vivo, amando e sendo amado pelo objeto bom interno e externo; o que quer dizer que há uma estreita relação entre integração e relações de objeto. Inversamente, suponho que o sentimento de caos, de desintegração, de falta de emoções, resultante da cisão, seja estreitamente relacionado com o medo da morte.
Afirmei (em “Mecanismos Esquizóides”) que o medo da aniquilação pelas forças destrutivas internas é o medo mais profundo de todos. A cisão, como uma defesa primária contra esse medo, é eficaz na medida em que efetua uma dispersão da ansiedade e uma desconexão das emoções.
Mas ela falha, num outro sentido, porque resulta num sentimento muito semelhante à morte – pois é a isso que equivalem à desintegração e o sentimento de caos que acompanham a cisão.
Eu sugeriria que um objeto bom firmemente estabelecido dá ao ego um sentimento de riqueza e abundância, que faculta um extravasamento de libido e a projeção de partes boas do self no mundo externo sem que surja uma sensação de esvaziamento. O ego, então, passa a sentir também que é capaz de reintrojetar o amor que distribuiu, assim como internalizar o “bom” de outras fontes e, dessa forma, ser enriquecido por todo o processo. Em outras palavras, em tais casos existe um equilíbrio entre dar e receber, entre projeção e introjeção.
Além disso, sempre que um seio não danificado é internalizado, em situação de gratificação e amor, há uma influência na maneira pela qual o ego cinde e projeta.
Inversamente, o seio internalizado com ódio, e, portanto sentido como sendo destrutivo, torna-se protótipo de todos os objetos internos maus, leva o ego a novas cisões e torna-se o representante interno da pulsão de morte.
Já mencionei que, concomitantemente com a internalização do seio bom, a mãe externa também é investida libidinalmente. Freud, em vários contextos, descreveu esse processo e algumas de suas implicações; por exemplo, referindo-se a uma idealização numa relação de amor, ele afirma que “o objeto amado está sendo tratado da mesma forma que nosso próprio ego, de maneira que, quando estamos apaixonados, uma quantidade considerável de libido narcisista transborda sobre o objeto. Nós o amamos devido às perfeições que nós nos empenhamos tanto em alcançar para nosso próprio ego”.
A meu ver, o processo descrito por Freud supõe que esse objeto amado seja sentido como contendo parte do self excindida, amada e valorizada que, dessa forma, continua sua existência dentro do objeto. Desse modo, ele se torna uma extensão do self.

Identificação Projetiva e o Caso
Pude analisar e chegar à conclusão de que o processo de identificação e internalização são interdependentes, começando com a identificação de um modelo adequado e saudável, dentro do possível, o individuo está construindo seu self a partir desses modelos, que esperamos que sejam “bons”, mas em alguns casos isto não acontece e o indivíduo se identifica com modelos que geram um grande conflito e caos ao ego, porém são os modelos presentes, são os únicos ou os mais significantes que este sujeito dispõe e quase que como sem opção uma internalização de figuras objetais inadequada está acontecendo.
Antonio de 19 anos perdera sua mãe aos sete anos de idade, esta morrera de uma doença bastante grave, o pai alcoolista não teve condições de exercer seu papel e Antonio vai morar com sua irmã mais velha que o agredia, chega a queimá-lo em uma parte do corpo; logo se muda para um sítio onde dois senhores moram e passa a viver por lá. Senhores estes que eram padrinhos de sua mãe.

Porém eles deliberadamente cortam sua medicação e o colocam a correr quando estava “nervoso”, para melhorar, acalmar-se. Após, vai morar em um abrigo, anterior ao que ele está agora, onde fora abusado por dois outros garotos. Passa para seu atual abrigo, sofre um processo jurídico por agressão a uma funcionária e a antipatia de todos os monitores e seus colegas de abrigo é grande, então fora internado em uma clínica terapêutica, que foi quando nós intervimos com o uso do Acompanhamento Terapêutico.

Durante o processo de nossos encontros, que foram dezesseis no total, Antonio se mostrou desconfiado e não sendo capaz de confiar em uma figura masculina, porém estava “apaixonado” por minha colega de prática.

É compreensível, afinal de contas, os modelos masculinos dele são péssimos, não são confiáveis, compreendendo que essa mãe que morrera “heroicamente” quando ele ainda tinha sete anos de idade, esta se torna idealizada, lembremos o fato de não sabermos como era a relação com sua mãe, não consta em seu histórico, é devido ao seu discurso onde diz ter saudades e que sua mãe era muito boa em seu papel.

Porém devido ao seu Acompanhamento Terapêutico posso teorizar um pouco, mas são hipóteses baseadas na ideia acima proposta. Essa mãe que o nutre até seus sete anos de idade, aguentando um pai alcoolista, fraco (falho) e ainda por cima esta mãe carrega a iminência da morte, é uma verdadeira heroína que se foi com tudo de bom de Antonio, este não teve tempo de recuperar suas partes boas.
Na maioria de nossos encontros Antonio voltava-se totalmente para minha dupla, virando o corpo em sua direção e cortando minha participação, nutrindo tudo de “bom” para ela, sua heróica mãe. Antônio não nutria raiva contra minha pessoa, ele inclusive demonstrava gostar de mim, em comentários com sua psicóloga e outras pessoas. Porém acabava projetando em mim, a figura masculina falha, todo o desconforto do abandono e da impossibilidade de confiança.

Em um de seus comentários Antonio começa dizendo que a tia (minha dupla) é tão elétrica, divertida e que eu sou mais sério, quieto.

Com a evolução de nossos encontros em Acompanhamento Terapêutico, quando já se encontra mais a vontade retoma o comentário e diz que a tia era legal e o tio chato, sendo que eu também brincava com Antonio, em brincadeiras com a minha dupla e sozinho, e este ria bastante. Pude perceber que despertamos nele os sentimentos de uma ansiedade persecutória. Eu como modelo masculino falho e ausente e minha dupla como sendo a “legal”, nesta ansiedade a cisão como forma de salvar seu ego emerge e ele coloca em mim todas as partes ruins que lhe incomodam e nela todas as suas partes que tenta resgatar e estas continuam vivendo em sua nova mãe, ele continua vivendo nela, só que agora ele tem a certeza de que seu self “bom” irá perpetuar-se, ela é sua extensão bela e amorosa e eu sou o como ele pôde se livrar de tudo de ruim e “purificar-se”. Mas ao mesmo tempo eu não poderia ficar com essas partes ruins “para mim”, pois elas fazem parte de seu ego (estas partes também são ele) e a ausência destas gera um sentimento de vazio e perda, uma perda de identidade. Trabalhar estas “partes ruins” e devolvê-las era o objetivo.
Porém minha presença como pai gerava-lhe culpa por fantasias de entrar nesta nova “mãe” e por lá ficar, afinal eu sou o pai “mau” necessários que impede (necessário para não borrar a relação, para ele não perder o vínculo, pois a concretização da fantasia é a perda do vínculo) que essas fantasias tornem-se reais; na teoria de Melanie Klein que aborda a questão do seio bom e os processos introjetivos, o bebê possui fantasias sádicas de entrar na mãe e despojá-la de seus conteúdos, entrar na mesma e continuar sua vida dentro dela, segundo Melanie essa fantasias continuariam se deslocando e também para o pai, mas pensando em um pai que é alcoolista e incapaz de cuidar do filho, um pai que se apresenta falho, que o abandonara aos homens maus de todo o mundo, como a criança irá querer se lançar para dentro de um homem que é falho, como querer ser a extensão de uma fraqueza, de um agressor, ele não pode se identificar com um modelo “perverso”, mas acaba internalizando algo e identificando-se. Então o que é exatamente esse objeto internalizado?

Acredito que o paciente não enxerga a “mãe má”, que conscientemente só existe a boa, logo ele rapidamente lança-se para dentro dessa mulher maravilhosa e não quer mais sair, como ele sairá e lançar-se-á para dentro de um homem “fraco”, relapso, que o abandonara.

Fazer a cisão torna-se impossível, a ansiedade de se separar de tudo o que ele possui de bom e se jogar no mundo (pai), arriscando ser rechaçado, ignorado, abandonado é demasiada intensa. Logicamente a ansiedade persecutória toma conta, a cisão está acontecendo, por que apesar de essa mãe ser totalmente boa, ela é má por ter morrido e o “abandonado”, mas culpar a mãe por abandono não pode ser aceito, afinal ela estava doente e morrendo, foi uma heroína. A angustia é demasiada, o superego que deveria ser estruturado pelo pai não se mantém, sua capacidade para conter seus sentimentos é falha, mas como deixar com ele tamanha angustia e desespero, do mesmo jeito que não possui um superego capaz de produzir limites, é incapaz de aguentar essa angustia, ele precisa colocar em outro lugar, projetar em outro lugar, em uma figura materna não é permitido, é proibido, pois lembremos que a culpa seria demais, afinal culpar a mulher que deu sua vida para nutri-lo é matar tudo o que lhe resta de bom.

Logo quando a cisão acontece, seu ego sem limites e dominado por uma pulsão de morte, projeta toda essa angustia, essa identificação paterna, em mim, uma figura paterna, o triangulo esta fechado, pai, mãe e Antonio, mas há o conflito, pois eu sou uma figura paterna adequada, diferente de todas que já vira.
O processo de Acompanhamento Terapêutico estava sendo intenso, pois acabei me identificando com sua projeção, devido a que aos três anos de idade meus pais se separaram e acabara que um sentimento de abandono paterno perpetuara-se e fora ativado. A princípio eu estava conseguindo identificar o que era meu e o que era de Antonio. Quando a identificação intensificou-se, eu já não sabia o que devolver para ele, pois tinha receio de estar atuando em sua projeção. No momento em que ele projetava em mim suas partes ruins, elas continuavam a viver fora dele, só que agora em mim e projetava as partes boas em minha dupla, fazendo assim uma extensão “bem sucedida” de seu self. Eu como modelo, não poderia deixar de devolver algo para ele, algo contrário ao que existe em seu interior, um modelo de homem adequado, em quem ele poderia confiar, respeitando os seus momentos e sua expressão de sentimentos com minha dupla, sua nova “mãe”.

A fantasia de que ele pode colocar para dentro de mim suas negações e assim se livrar delas está acontecendo e minha devolução é essencial, mas sem invadi-lo, porque sem minha devolução ele pode acabar esvaziando-se e não tendo mais “material” para reconstruir-se e ser tomado por uma pulsão de morte muito grande. Conter o ruim e devolver melhor, com outra face, um pai com outro rosto, mas deixando claro que não sou seu pai. Devolvendo para ele um modelo mais adequado pude perceber os progressos em nossos encontros, mais confiança, afeição e o principal, ele pode começar a internalizar nossos novos modelos para enfrentar as suas situações de vida e nós começamos a nos tornar saudavelmente desnecessários. Eu e minha dupla acolhemos essas projeções de forma muito adequada e com o auxílio de sua psicóloga e nossa supervisora pudemos trabalhá-las e trazer bons frutos para o Antonio e para nosso crescimento.

Antonio que no começo de nossos encontros encontrava-se extremamente carente de vínculos e modelos adequados, não tinha um foco para sua vida, encontrava-se sem um chão, uma base para se apoiar e reconstruir seu self e conseqüentemente sua vida.

Após o término pudemos perceber que nós fazíamos parte de seu ego agora, ele poderia reconstruir a partir disso seu self, porém muito trabalho ainda é necessário.

Ele voltou para algumas atividades que possuía antes e começou novas, com novas perspectivas, conseguindo lidar com a agressividade e manter em seu interior algo que antes era demasiado ansiogênico e insuportável de se fazer. A dúvida que me ronda é se quando nós nos tornarmos ausentes ele irá suportar as conseqüências disto, pois acredito que a “presença ausente” ainda não está internalizada.

Conforme Jung e Cloninger, a frase a seguir pode definir com maestria nosso processo, meu, de minha colega e de Antônio.

“Uma das mais comuns, e potencialmente saudáveis, instâncias de projeção do animus (qualidades masculinas reprimidas em uma mulher) e da anima (qualidades femininas reprimidas em um homem) é a experiência de apaixonar-se (Jung, 1931/1954). Apaixonar-se é uma promessa de restauração da peça faltante da psique que foi deixada para trás no inconsciente quando a personalidade consciente se desenvolveu. Essa experiência, evidentemente, está fora do planejamento realista e consciente do ego, e nesse sentido, é irracional”. (Cloninger, 1999).

Conclusão
A identificação projetiva foi e está sendo meu crescimento pessoal desta prática em Acompanhamento Terapêutico, linkar com o artigo também foi bastante esclarecedor e didático, gostei de como a estrutura deste se apresentou.

É um tema de grande complexidade e requer um olhar atento e cuidadoso, pude perceber como se pode desenvolver um trabalho complexo escrito com apenas um tema da psicologia, apenas um conceito e com apenas um conceito pode-se produzir muito material, sem conclusões definitivas é claro, essa é uma das belezas da psicologia.

Arriscaria dizer que com apenas uma palavra como, por exemplo, self, pode-se desenvolver muito e muito, com grande complexidade e riqueza.

A teoria associada à prática é algo fantástico, pelo menos para mim que está iniciando uma caminhada dentro da psicologia, ver a teoria e a prática acontecendo juntas, como algo uno, é emocionante. Teoria esta que eu não possuía conhecimento, somente havia ouvido por aí entre pedaços.

A prática do curso de Acompanhamento Terapêutico também foi algo muito novo, pois eu não esperava ser tão diferente do que imaginei, supus que minha experiência de ambientoterapia seria semelhante à prática de AT. Mas a diferença que eu pude sentir é positiva, preencheu novas expectativas de uma forma que me fez querer aprofundar-me mais e mais. Com certeza é intenso e requer uma predisposição e dedicação intensas também.

Escrever este artigo foi também uma caminhada intensa, troquei de assunto muitas vezes, não sabia o que fazer, pois queria fazer um pouco de tudo e algo “perfeito”, porém eu acredito que me saí melhor de que eu imaginava, pois fiquei extremamente satisfeito, produzi o que estava dentro de minha capacidade, sabendo que me esforcei muito, sabendo que ao entregar o trabalho final o que restará de tudo isso é uma satisfação e certeza de que eu fiz um bom trabalho, não estou sendo “narcisista”, o que quero dizer é que estou de veras satisfação comigo mesmo, pois superei a mim mesmo, minhas limitações e dificuldades, com isso cresci, amadureci, aprendi. Termino dizendo que não existem arrependimentos e sim satisfação e orgulho.

Este artigo de Acompanhamento Terapêutico encerra uma bela caminhada, por isso ele tornou-se tão importante, também me sinto na “obrigação” de agradecer algumas pessoas que trabalharam em equipe comigo, pois eles fazem parte de minha satisfação, sem eles o resultado não seria o mesmo, mas eu os agradecerei pessoalmente.

Referencial Teórico

  • Klein, Melanie. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos 1946 – 1963. Traduzido por Belinda H. Mandelbaum. et al. Rio de Janeiro: Imago, 1991. p. 170.
  • Susan C. Cloninger. Teorias da Personalidade. Traduzido por Cláudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 86.

Autor: Vinícius de Abreu Capra – Graduando em Psicologia na Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), unidade Gravataí, matrícula 051010464 – 9. Fones: (51) 3490-5508 / 9328-5785. E-mail:[email protected]

 

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