Acompanhamento Terapêutico e esquizofrenia


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Resumo: a necessidade do presente artigo se fez a partir do desejo de refletir sobre a minha prática como acompanhante terapêutico (at). Refletindo sobre isso, optei por apresentar meus encontros com o jovem Ariel (nome fictício), de 20 anos, que sofre com esquizofrenia desde os 17 anos e que acompanhei por aproximadamente quatro meses em um dos estágios de conclusão do Curso de Graduação em Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo em 2005.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico, esquizofrenia, Reforma Psiquiátrica.

Possibilidades em uma experiência de Acompanhamento Terapêutico e esquizofrenia

A necessidade do presente artigo se fez a partir do desejo de refletir minha prática como acompanhante terapêutico (at). Refletindo sobre isso, optei por apresentar meus encontros com o jovem Ariel (nome fictício), de 20 anos, que sofre com Esquizofrenia desde os 17 anos e que acompanhei por aproximadamente quatro meses em um dos estágios de conclusão do Curso de Graduação em Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo em 2005.

Penso que descrever uma experiência de Acompanhamento Terapêutico (AT) é tentar apropriar-se de um mundo de possibilidades infinitas, pois assim entendo o encontro de duas pessoas na busca da transformação de suas realidades. Como estagiário de Terapia Ocupacional e AT, aprendendo uma nova prática, e Ariel, como um jovem em um momento de sofrimento psíquico, buscando a reorganização de seu cotidiano.

Assim, conforme Paulo Freire (1987, p. 38):

“… a práxis (…) é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo. Sem ela, é impossível a superação da contradição opressor-oprimidos. Desta forma, esta superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela”.

Vinheta Clínica:

Ariel, 20 anos, é filho único, natural de São Paulo onde reside com a mãe de 55 anos e cresceu sem conhecer o pai. Estudou até 2ª. Série do Ensino Médio e no momento dos atendimentos estava desempregado. Foi diagnosticado com esquizofrenia paranóide aos 17 anos de idade. Frequentava periodicamente as consultas com o psiquiatra e também outros serviços de apoio às pessoas com sofrimento mental. Durante a infância, brincou bastante com as crianças da rua e tinha bom relacionamento com os colegas, tanto no bairro quanto na escola. Apresentava-se aos encontros vestido como se acabasse de sair da cama. Estava sempre cooperativo, mas aparentava tristeza e desconfiança. Consciente, orientado no tempo, no espaço. Memória preservada, mas com pensamento de curso desorganizado. Presença de delírios de conteúdo relacionado à mãe e a objetos da casa. Presença de alucinações auditivas. Humor deprimido.

De acordo com o CID-10 (“Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde”):

“os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção, e por afetos inapropriados ou embotados. Usualmente mantém-se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo. Os fenômenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco, imposição ou o roubo do pensamento, a divulgação do pensamento, a percepção delirante, ideias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos. A evolução dos transtornos esquizofrênicos pode ser contínua, episódica com ocorrência de um déficit progressivo ou estável, ou comportar um ou vários episódios seguidos de uma remissão completa ou incompleta”.

Já a DSM-5 (“Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders”) nos coloca que a esquizofrenia é caracterizada por delírios, alucinações, discurso desorganizado e comportamento, e outros sintomas que causam disfunção social ou ocupacional. Para o diagnóstico, os sintomas devem estar (ou ter estado) presentes durante seis meses, e incluir pelo menos um mês de sintomas ativos. A DSM-5 aumenta o limiar de sintomas, requerendo uma exposição individual à pelo menos dois dos sintomas especificados (nas edições anteriores isso foi um limiar). Além disso, os critérios diagnósticos já não identificam subtipos.

Houve três encontros iniciais com Ariel para conhecimento e avaliação do caso onde conversei com ele e em alguns momentos também com a mãe. Após a avaliação, feita pela equipe em reunião clínica, o planejamento feito juntamente dele. Sua mãe consentiu, assim, com encontros com o objetivo de encaminhamento para uma atenção mais intensiva em um CAPS (Centros de Atenção Psicossocia). Foram feitos seis atendimentos com o jovem desde 06 de maio de 2005.

Os encontros tinham duração de uma hora à uma hora e meia e aconteciam em sua casa, em locais públicos e no próprio serviço a cada semana. O objetivo principal dos atendimentos foi viabilizar seu encaminhamento para o CAPS Butantã em São Paulo.

Pude conversar com seu psiquiatra acerca do tratamento e também sobre o projeto construído para Ariel e seus desdobramentos. Ele se colocou disponível para discutir projetos para o jovem em qualquer momento. Enfatizou a necessidade de Ariel vincular-se a diversos espaços e também a necessidade de psicoterapia para a mãe.

Ariel iniciou seu tratamento no CAPS Butantã no dia 24 de junho de 2005 e irá participar de três “espaços”: oficina de leitura, futebol e pintura.

Como encaminhamento de Ariel, temos a construção de sua vinculação no CAPS Butantã e a continuidade do tratamento com seu psiquiatra.

Sabemos hoje que o prognóstico da esquizofrenia não é tão ruim como se acreditava nas décadas passadas, como afirma Gattaz (20XX). E analisando a conjuntura das práticas clínicas contemporâneas podemos dizer que uma das ferramentas que ajudou a mudar essa realidade é o AT, pois vai ao encontro da ideia de “empoderamento” das pessoas assistidas. O “empoderamento” corrobora com a autonomia e propicia um direcionamento na realização de anseios pessoais. Esse termo surgiu nos anos de 1970 a partir dos movimentos de direitos civis nos Estados Unidos, primeiramente com a bandeira da igualdade racial e posteriormente pelas mulheres. (PITIÁ, 2012).

Conceituando

De acordo com Barros (1994), os movimentos de Reforma Psiquiátrica começaram na década de 1960, orientadas por Franco Basaglia, em Trieste na Itália, que propunha a transferência do atendimento aos portadores de transtorno mental para a comunidade e o esvaziamento dos hospitais psiquiátricos, com a abolição dos métodos tradicionais de isolamento dos portadores de transtornos psíquicos.

A atual atenção em Saúde Mental no Brasil, compreendida no percurso da negação da instituição manicomial à invenção de novas instituições (ROTELLI, 1990), inscreve-se numa posição contrária à exclusão, à violência, ao estigma e às formas de tutela a que foram submetidas historicamente as pessoas em sofrimento psíquico. Essa concepção de atenção propõe o resgate da singularidade, da produção de subjetividade e da construção/reconstrução da cidadania, não como “… simples restituição de seus direitos formais, mas a construção de seus direitos substanciais, e é de dentro de tal construção (afetiva, relacional, material, habitacional, produtiva) que se encontra a única reabilitação possível” (SARACENO, 1999, p. 18).

Tem-se, neste contexto, a reabilitação como um processo que irá possibilitar o ganho de autonomia (como a capacidade do sujeito gerar normas para sua vida) pelo aumento do poder contratual social e psicológico do indivíduo. Dessa forma seria possível ampliar o conjunto de recursos e potencialidades (materiais, psíquicos, culturais, físicos) de que um sujeito dispõe para participar das trocas de bens, de mensagens, de ideias e de afetos nas relações sociais. Este processo deve envolver os diversos profissionais, os pacientes, suas famílias e também a comunidade, a fim de romper relações cristalizadas de dependência institucional, da lógica assistencialista e das relações de invalidação, deslocando o paciente do lugar de ausência de valor social para o lugar de produção de valores subjetivos e de troca e produção de sentidos.

Nesta perspectiva, para Saraceno (1997), a reabilitação é um processo de reconstrução, de exercício pleno da cidadania possível e de plena contratualidade do indivíduo nos três grandes cenários nos quais atuamos e que o autor entende que sejam o “habitat”, o “mercado” e o cenário de “trabalho”.

Também na década de 1970, o trabalho do acompanhante terapêutico (at) surgiu inicialmente na Argentina e foi chamado de “amigo qualificado”, termo que gerou confusão e que foi modificado posteriormente, pois o AT não é um amigo, mas sim um agente terapêutico qualificado e remunerado. No Brasil, no final da década de 1960, surgem as primeiras comunidades terapêuticas no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

O AT começa a ser exercido por universitários, denominados de “auxiliares psiquiátricos” que permaneciam dentro instituição e participavam do cotidiano dos pacientes realizando tarefas que consistiam em atividades de lazer como jogos, realização de festas, atividades diárias, entre outros. Na década de 1970, ocorre um aumento das instituições asilares e o declínio das comunidades terapêuticas, levando os auxiliares psiquiátricos a perderem suas funções e sua área de trabalho. O AT construiu sua área de atuação majoritariamente com pacientes psicóticos, na luta por reintegrá-los na sociedade e na família. (VON SALTIÉ, 2009)

O Acompanhamento Terapêutico é definido como um conjunto de intervenções clínicas em espaços ampliados que visa a autonomia e a (re) inserção social de pessoas que, por diferentes motivos, perderam ou nunca tiveram a possibilidade de transitar nos diversos espaços sociais. Segundo Ghertman (2004), convencionou-se chamar AT essas intervenções que se organizam no dentro/fora dos enquadres e dispositivos tradicionais, sejam eles de tratamento ou não: o consultório, os equipamentos de saúde (Clínicas, CAPS, etc.), mas também a família, a escola, etc.

Porém, novas instituições e novos profissionais não significam necessariamente a transformação da lógica manicomial. É imprescindível que eles se constituam como produtores de novos saberes baseados em um novo paradigma, sendo também centro de atenção, de encontro, de convivência e de produção de vida e de saúde.

Desta forma, se iremos falar em inclusão social como um problema de produção de valores referentes aos pacientes, ao tempo que no universo social as trocas são realizadas a partir de um valor previamente atribuído ao indivíduo, devemos sublinhar que esses indivíduos encontram-se em uma situação resultante de uma dinâmica de exclusão social. Essa dinâmica é denomina por Robert Castel (1997) de “processo de desfiliação” e considera alguns principais fatores, como o desligamento dos processos de integração relacional.

Barreto (2000) nos coloca que dentro da perspectiva desenvolvida neste trabalho, a criatividade é o lugar de existência por excelência, fonte da vitalidade do sujeito, que pode vir a inscrevê-lo na relação com outro ser humano.

A inclusão de sujeitos na sociedade deve então, contemplar as trocas que se realizam na mesma, o que implica em considerar um conjunto de articulações, de ativação de recursos, de possibilidades dos sujeitos, de espaços de negociação, e requer a elaboração e/ou potencialização de redes sociais solidárias, de múltiplas possibilidades e projetos de vida.

No contexto atual das propostas de atenção em Saúde Mental, espera-se que o AT atue para a transformação das relações sociais do sujeito, estimulando-o a se apropriar da definição de seu projeto de vida, em espaços reais e em atividades que lhe sejam significativas e que respondam às necessidades presentes em seu cotidiano.

Entendo que pude juntamente com o sujeito criar e estabelecer objetivos e estratégias, atuando em nos diferentes espaços de circulação social. Assim, a questão da inclusão inscreveu-se em um campo multidimensional de articulação de interesses, de necessidades e de desejos e requereu ser pensada de forma complexa e contextualizada.

É nesse campo de reflexões que situo a experiência desenvolvida e relatada acima. Experiência que lembra parceria, como a ilustrada no poema “Mãos Dadas” de Drummond.

 

“Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

Não darei os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

Não fugirei para as ilhas nem serei adaptado por serafins,

O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”

(Carlos Drummond de Andrade)

BIBLIOGRAFIA

  1. AYUB, P. Do Amigo Qualificado ao Acompanhante Terapêutico. Disponível em: http://www.psiquiatriainfantil.com.br/revista/edicoes/Ed_04_2/in_10_08.pdf Acessado em: 01/06/2013.
  2. ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo, 1940. Disponível em: http://letras.mus.br/carlos-drummond-de-andrade/460648/ Acessado em: 01/06/2013.
  3. BARROS, D. D. Jardins de Abel: Desconstrução do manicômio de Trieste. São Paulo: Edusp/Lemos, 1994. 158p.
  4. BASAGLIA, Franco. Entrevista. Psiquiatria e antipsiquiatria, 1979.
  5. BARRETO, K. D. Ética e Técnica no acompanhamento Terapêutico: Andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Ed. Unimarco, 2000. 210p.
  6. CASTEL, R. A dinâmica dos processos de marginalização: da vulnerabilidade a “desfiliação”. Em: Cadernos CRH, Salvador, n. 26/27, p. 19-40, 1997.
  7. CID-10 – Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde; OMS; décima revisão-versão 2010.
  8. DSM-5 disponível em: http://www.dsm5.org/Pages/Default.aspx / Esquizofrenia em: http://www.dsm5.org/Documents/Schizophrenia%20Fact%20Sheet.pdf Acessado em: 01/06/2013.
  9. GATTAZ, W. F.; O que é Esquizofrenia.
  10. GHERTMAN, I. A. O Campo do Acompanhamento Terapêutico (AT): perspectivas poítico-clínicas. Disponível em: http://www.psicoway.com.br/iso/artigo%20o%20campo%20do%20at.htm Acessado em: 01/06/2013.
  11. Freire, P. Pedagogia do Oprimido, 17ª ed. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1987. p.58.
  12. MÂNGIA, E. F., NICÁCIO, M. F. Terapia ocupacional em saúde mental: tendências principais e desafios contemporâneos. Em: CARLO, M. M. R. P. de, BARTALOTTI, C. C. (orgs.), Terapia Ocupacional no Brasil: Fundamentos e perspectivas. São Paulo: Plexus Editora, 2001. p. 63-80.
  13. PITIÁ, A. C. A. Empoderamento e Acompanhamento Terapêutico. (2012) Disponível em: https://siteat.net/ana-5/ Acessado em: 01/06/2013.
  14. ROTELLI, F A instituição negada, in: Nicácio, org.: Desinstitucionalização, São Paulo: Ed. Rocca, 1990.
  15. SARACENO, B. Libertando Identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. Tradução de Lúcia Helena Zanetta, Maria do Carmo Zanetta e Willians Valentini. Te Corá Editora/Instituto Franco Baságlia, Belo Horizonte/Rio de Janeiro, 1999. 176p.
  16. VON SALTIÉ, C.; A prática do Acompanhante Terapêutico com pacientes psicóticos: uma abordagem clínica. (2009) Disponível em: https://siteat.net/claudine Acessado em: 01/06/2013.

Autor: Igor Aleixo Baldani – Terapeuta Ocupacional (Crefito 5 – 8168 / TO) formado pela Universidade de São Paulo. Terapeuta Ocupacional na “Clínica São José” em Porto Alegre. Formado no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” (CTDW). (5551) 9408-1803. [email protected]

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