Acompanhamento Terapêutico e o envelhecimento


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Autora:

  • Kátia Vendrame – Acadêmica de Psicologia (PUCRS), bolsista CNPq. Grupo de Pesquisa Avaliação e Intervenção no Ciclo Vital, Faculdade de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS. Formação no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. E-mail: [email protected]
  • Orientadora: Dr Irani de Lima Argimon – Doutora em Psicologia (PUCRS). Pesquisadora Produtividade do CNPq

 

RESUMO

O velho, como pessoa subjetiva da psicologia, é também o ser social e relacional, mesmo que a velhice esteja relacionada com o declínio das funções vitais. Porém, ao contrário do que se pensa, as pessoas têm chegado à terceira idade cada vez mais fortes e saudáveis, em decorrência do auxilio da medicina, da prevenção, da boa alimentação e de atividades físicas. A existência de acompanhante terapêutico (A.T.) para idosos tem o propósito de auxiliar na vida dos idosos, priorizando a singularidade do indivíduo no universo coletivo, como na escuta destes clientes, dar sentido a vida, passear, cuidar das medicações realizando o controle das ingestões das medicações prescritas, podendo então caracterizar este tipo de Acompanhamento como AT de cuidado. O idoso que mantém sua autonomia e independência necessita de espaços de relacionamento interpessoal como forma de preservar a saúde física e mental e àqueles já incapacitados o relacionamento interpessoal configura-se no cuidado adequado e o abrandamento das condições adversas.

 

Palavras-chave: Idoso; Acompanhamento Terapêutico; Cuidado.

  

INTRODUÇÃO

Este trabalho visa estabelecer um elo entre a prática do acompanhamento terapêutico (A.T.) e as pessoas com mais de 60 anos. O acompanhamento terapêutico consiste em uma prática na área da saúde, onde o profissional circula com o paciente em vários espaços. Caracterizando-se por não se manter em apenas um único lugar, (hospital, clinica psiquiátrica, colégio) e utilizar diferentes âmbitos como a rua, praças, cinemas, casa do paciente, teatro, não havendo um espaço restrito, conforme ressalta Bezerra:

“O acompanhamento terapêutico é uma forma de criar possibilidades reais de vida para os portadores de transtornos mentais, apostando no seu potencial criativo de se colocar no mundo. Busca reinserir o usuário na sociedade resguardando sua presença no meio social e familiar, configurando-se como uma prática cujo espaço clínico está nas ruas, tanto nas adjacências dos serviços de saúde quanto nos diferentes espaços sociais por onde o sujeito circular, ou seja, não apenas restrito à instituição”. (BEZERRA, 2009, p.18)

A existência de A.T. para idosos vem com o propósito de auxiliar na vida dos idosos, priorizando a singularidade do indivíduo no universo coletivo, como na escuta destes clientes, dar sentido a vida, passear, cuidar das medicações realizando o controle das ingestões das medicações prescritas, podendo então caracterizar este tipo de Acompanhamento como AT de cuidado. Podendo assim realizar tarefas distintas, dependendo das possibilidades financeiras, dos limites de cada paciente, da sua saúde mental, do contrato, contudo o A.T. necessitar ter características como criatividade, paciência, perseverança.

Pensamos nesta etapa do acompanhamento terapêutico como uma prática que tem por funções promover a desinstitucionalização e defender a circulação do acompanhante pelos diversos espaços sociais, inclusive no que diz respeito a sua assistência. Como afirma Barreto (1998), o AT tem uma função terapêutica e um potencial analítico, que se dão por meio de intervenções no cotidiano do acompanhado, colocando em movimento processos de simbolização, que podem provocar uma transformação na subjetividade do sujeito, mudando seu humor e diminuindo suas angústias.

Focados nesta etapa do ciclo vital, do envelhecimento, e na prática do A.T. neste artigo salientamos a importância desta prática que nos põem a pensar mais a respeito deste trabalho com o idoso, visto que, realizar acompanhamento terapêutico requer um manejo de situações, atitudes de rupturas. Esta atividade envolve uma equipe multidisciplinar, em que o caso possa vir a ser discutido determinadas vivências do paciente, supervisionado por um profissional da psicologia ou da psiquiatria para que  possamos obter um melhor tratamento, assim  “é tarefa do AT desenvolver as atividades terapêuticas e procedimentos planejados, seja em situação natural, no consultório ou na instituição, sempre sob supervisão constante” (ZAMIGNANI & WIELENSKA, 1999, p. 159), ainda que este venha a apresentar resistência.

DESENVOLVIMENTO

Na atividade terapêutica, circula-se com o paciente em lugares rotineiros, fazendo coisas do dia-a-dia, lugares comuns, contudo este manejo com o paciente idoso não é diferente. A escolha da ultima fase do desenvolvimento humano para com o elo do A.T se deve ao aumento da longevidade da população, passando a existir maior demanda para serviços de atendimento na área do idoso, principalmente na área da saúde. É reconhecido que os idosos são usuários dos serviços de saúde em taxa mais alta do que os demais grupos etários, o que nos leva a pensar que viver mais associado a menores taxas de natalidade está fazendo com que a população idosa cresça em termos do número de indivíduos e em termos de anos a mais de velhice, tornando assim, o velho; antes embaçado na névoa da vida,  visível a uma sociedade que já não pode mais ignorar a velhice como um fenômeno social: não visto como algo novo, pois está presente no mundo desde sempre, mas com novas demandas e com o olhar deste novo tempo.

É preciso situar este novo contexto da velhice no tempo histórico que se vive e estabelecer socialmente entre os agentes sociais. Para compreender o significado da velhice é, portanto, indispensável examinar qual o lugar nela atribuído e nas relações que se dão aos velhos, qual a imagem que deles se tem em diferentes épocas e em diferentes lugares (Beauvoir, 1976).

A partir de Beauvoir e suas escritas, nos leva a pensar na necessidade em nossa época em realizar acompanhamento terapêutico, sendo resultados de diversos aspectos em nosso século que nos leva a esta prática.

O ciclo da vida humana foi durante muito tempo representado na pirâmide demográfica de forma quase que inalterada: a base, que representa o número de nascimentos é larga e o topo, que representa o número de pessoas idosas, é estreito, principalmente em países como o Brasil onde a pobreza e a baixa qualidade no atendimento a saúde demandava uma expectativa de vida baixa para os idosos, assim como uma alta mortalidade infantil compensada por uma alta taxa de natalidade.

Com os avanços médicos e científicos e o novo ordenamento social advindo da globalização a mortalidade na terceira idade altera-se. No Brasil, segundo dados do Jornal do Brasil (09/06/96) e do Jornal Zero Hora (18/07/97) citados por Eizirik (2001), o aumento da população de idosos será de 8,35% em 1996 para 15% em 2020, ou seja, de uma população de doze milhões e setecentos mil pessoas passaremos para trinta e três milhões, o que nos levará a ser o quinto país com a maior população de idosos do mundo, fazendo nos aproximar da pirâmide demográfica dos países desenvolvidos.

Esse novo ordenamento social nos leva a refletir e a estudar mais sobre a velhice e suas possibilidades, pois essa população representa como sempre representou, mas agora acrescida de sua longevidade e sua quantidade, uma parcela significativa a quem os serviços de saúde deverão atender com políticas públicas que venham contemplar o bem estar físico, social e psicológico.

Existe na nossa cultura o estereotípico de que as pessoas idosas são pessoas solitárias. As pessoas jovens e idosas concordam em que são as pessoas idosas as que mais se sentem sós (Rubenstein; Shaver, 1982). O acompanhante terapêutico, portanto trabalha também neste aspecto de intervenção “anti-solidão”, que funciona também como prevenção, pois a solidão tem aparecido ligada a doenças como a depressão, o suicídio, a hostilidade, o alcoolismo, a um fraco autoconceito e a doenças psicossomáticas (Mc Whirter, 1990).

Em um estudo realizado por Barros e Neto (1993), solidão em diferentes faixas etárias, a fim de verificar a diferença do nível de solidão entre adolescentes, adultos e idosos, através da aplicação da escala revista de solidão, a escala de neuroticismo, a escala de optimismo, e a escala de satisfação com a vida, constatou-se que adolescentes e idosos sentiam mais solidão que os adultos. Portanto, a vivencia com o A.T. proporcionaria uma diminuição deste sentimento multifatorial.

Na pesquisa realizada por Rosa (2007) com o objetivo investigar “quais os serviços substitutivos em saúde mental de Santa Catarina que trabalham com Acompanhamento Terapêutico e como o utilizam enquanto estratégia de intervenção clínica”, referindo-se às dificuldades dos pacientes que necessitam de intervenção de AT, foi possível verificar a partir das respostas obtidas, que em primeiro lugar aparecem dificuldades relacionadas ao deslocamento físico (21,42%), seguidos de isolamento (14,28%), de atividades de vida diária (14,28%), fobias (12,85%). Estiveram presentes também, dependência familiar (10%), simbioses afetiva (4,28%), ideação suicida (1,42%) e conflito familiar (1,2%). É interessante observar a diversidade de possibilidades de intervenções que o A.T tem o alcance para além do tratamento da “doença”.

A importância da existência do A.T também em atendimentos de situações pós-cirúrgicas, em circunstâncias nas quais as pessoas estão impossibilitadas de se locomover, portadores de Parkinson e deficiência mental, Depressão, Esclerose, Diabetes, Doença do coração, osteoporose entre outros problemas, que se faz necessário o A.T., pois em decorrência dessas características, o acompanhamento é também um campo muito propício para o atendimento de idosos. O acompanhante pode ser considerado um “interlocutor”, exercendo a tarefa de, num contato íntimo, ir descobrindo, sentindo com o paciente suas questões, para tentarem juntos transformar sua vivência (Barreto, 1998).

CONCLUSÃO

Quando se pensa em idosos, pensa-se  em cadeira de balanço, pijamas e cobertor. Isto é apenas um estereótipo. O fato é que de uns anos para cá os padrões mudaram, a expectativa de vida aumentou, e hoje estar na terceira idade é considerado pelos próprios idosos a melhor idade, em decorrência a despadronização de que velho não pode fazer nada. Juntamente com a prática de Acompanhamento terapêutico, este ciclo presente no desenvolvimento humano esta vindo cada vez mais com mais força e quantidade, sendo este um campo vasto para a atuação do A.T. que cada vez mais tem trabalho para realizar juntamente com o paciente visto que suas funções são definidos de acordo com a tarefa (Barreto, 1998).

Aos processos próprios do envelhecer, devido ao avanço da idade, estes sofrem muitas alterações biopsicossociais, um processo, no qual fatores biológicos, sociais e psicológicos interagem entre si, que podem ser trabalhadas pelo A.T.  O acompanhamento terapêutico, por ser uma prática que resgata o direito de usufruir da vida pública, constitui forma de atenção ao sujeito que recupera a ação de circulação social, que pode ter sido interrompida a partir do adoecimento. Assim o A.T busca juntamente com o paciente idosos potencializar trocas e intercâmbios sociais, no sentido de articulação com as esferas de produção material e simbólica da vida e na busca de espaços na cultura, nos quais as formas particulares de existência psicótica encontrem expressão, valor e legitimação (Carvalho, 2004).

Envelhecimento não é mais sinônimo de uma velhice única, categórica, fixa, terminada, enfim um estado, mas sim sinônimo de múltiplas velhices, o que nos remete perceber a pulsão de vida ainda muito estereotipada e preconceituosa existente e atual em nosso tempo. Com tudo isso vemos que o AT se torna necessário, visto que o acompanhante pode, juntamente com o idoso, buscar e reconstruir projetos de vida, atuando também na prevenção e promoção de saúde, propiciando-lhe assim bem-estar e qualidade de vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • BARRETO, K. D. Ética e técnica no acompanhamento terapêutico: andanças com Dom Quixote e Sancho Pança. São Paulo: Unimarco Editora, 1998.
  • BARROS, J.; BARROS, A.;NETO,F. Psicologia do Controlo Pessoal. Braga: Instituto de Educação da Universidade do Minho, 1993.
  • BEAUVOIR, Simone. A velhice, a realidade incômoda. São  Paulo. Difel, 1976.
  • BEZERRA, Cìntia; DIMENSTEIN, Magda. Acompanhamento terapêutico na proposta de alta-assistida implementada em hospital psiquiátrico: relato de uma experiência. psic. clin., rio de janeiro, vol. 21, n.1, p.15-32, 2009.
  • CAMPOS, D. M. S. Introdução à Pesquisa em Psicologia: Aspectos Metodológicos. Petrópolis: Vozes, 1973.
  • CARVALHO, S.S. Acompanhamento terapêutico: que clínica é essa? São Paulo: Annablume, 2004.
  • EIZIRIK, Claudio Laks. O ciclo da vida humana: uma perspectiva psicodinâmica. Porto Alegre, Artimed, 2001.
  • MC  WHIRTER, B. T. Loneliness: a reviw of current literature with implications for counseling and  research. Journal of Counseling and Development, v.68, p.417-423, 1990.
  • ROSA, Gabriela Lyra. Acompanhamento Terapêutico: Uma estratégia de Intervenção Clínica nos Serviços Substitutivos em Saúde Mental de Santa Catarina. Relatório de Pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso de Bacharel em Psicologia – UNISUL. Santa Catarina, 2007.
  •  RUBENSTEIN,C.; SHAVER,P. The Experience of  Loneliness. In: PEPLAU, L.; PERLMAN,D (Eds.) Loneliness: a sourcebook of current theory, research and therapy. New York: John Wiley & Sons, 1982.
  •  VERA, A. Metodologia da Pesquisa Científica. Porto Alegre: Editora Globo, 1976.
  •  ZAMIGNANI, D. R. & WIELENSKA, R. C. (1999). Redefinindo o papel do acompanhante terapêutico. Em R. R. Kerbauy & R. C. Wielenska (Orgs.), Sobre comportamento e cognição: psicologia comportamental e cognitiva – da reflexão teórica à diversidade na aplicação. (Vol.4, pp. 156-163). Santo André: Esetec.


Artigo publicado no “Site AT” em 12/12/2010.

Supervisão em AT.

Acompanhamento Terapêutico e o envelhecimento
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