Acompanhamento Terapêutico e retardo mental

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Autora: Carolina Villanova Quiroga – Graduanda em Psicologia pela PUCRS. Formação no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. E-mail: [email protected]

 

Resumo:

Este artigo tem como propósito principal explicar a prática do Acompanhante Terapêutico, assim como as características do Retardo Mental. Será descrito o trabalho de um estudante de psicologia com um paciente com Retardo Mental dentro de um hospital psiquiátrico, assim como os benefícios para o paciente e as dificuldades enfrentadas.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico; Retardo Mental; Benefícios

Abstract:

This article aims to explain the main practice of Therapeutic Attendance as well as the characteristics of mental retardation. Will be described the work of a psychology student with a patient with Mental Retardation within a psychiatric hospital, as well as the benefits to the patient and the difficulties faced.

Keywords: Monitoring Therapeutic; Mental Retardation; Benefits

 


1. Introdução

 

Este artigo científico tem como objetivo explicar a prática do acompanhante terapêutico e a sua atuação através de um caso com um paciente com retardo mental dentro de um hospital psiquiátrico. O paciente tem trinta e três anos de idade e foram realizados diversos encontros para desenvolver a motricidade, a comunicação e a interação social. O trabalho com este paciente ainda é realizado pelo estudante. Por motivos éticos o mesmo só será identificado pelas iniciais do seu nome.

“Diríamos que, a grosso modo, no acompanhamento terapêutico estamos mais preocupados em preservar a “ecologia mental” do paciente, aproveitando seus recursos e sua capacidade criativa, do que pensar em transformar sua estrutura psíquica, tão facilmente atacada pela tecnologia psi.” (A CASA, 1991).

O Retardo Mental é um transtorno que compromete seriamente as capacidades mentais e intelectuais do indivíduo, porém seus efeitos variam de pessoa para pessoa.

O paciente com retardo mental, dependendo de seu grau de severidade, precisa muitas vezes ser reintegrado na sociedade.

O acompanhante terapêutico não tem como principal objetivo tratar somente questões psíquicas do sujeito, mas sim circular com o mesmo e ajudar no que for necessário.

2. Retardo Mental

 

“Retardo mental diz respeito a limitações significativas no funcionamento intelectual.” (FILHO, 2001).

Segundo Pérez-Ramos (1982) citando Grossman (1973), a definição de Retardo Mental mais correta seria o “funcionamento intelectual significativamente abaixo da média, que dá lugar a deficiências no comportamento adaptativo e que tem origem no período do desenvolvimento.”

Segundo o DSM-IV-TR, o Retardo Mental caracteriza-se por um funcionamento intelectual muito abaixo da média, acompanhado de limitações importantes no funcionamento adaptativo em no mínimo duas das seguintes áreas de habilidades: autocuidados, comunicação, vida doméstica, habilidades sociais/ interpessoais, uso de recursos comunitários, auto-suficiência, habilidades acadêmicas, trabalho, lazer, saúde e segurança. O início dos sintomas deve ocorrer antes dos dezoito anos de idade. O Retardo Mental consiste em vários processos patológicos que acabam por atacar o sistema nervoso central.

De modo geral, uma pessoa pode ser diagnosticada com Retardo Mental baseado em três diferentes critérios:

– Quando o quociente intelectual (QI) for abaixo de 70-75.

– Quando há duas ou mais deficiências em diferentes áreas de habilidades.

– Quando o paciente for menor de 18 anos.

O Retardo Mental é dividido em quatro diferentes classificações: Leve, Moderado, Grave e Profundo. Para ser considerado Leve, o paciente deve ter QI entre 50-70; para Moderado deve ter QI entre 35-50; para Grave deve ter QI entre 20-35; e para ser considerado Profundo o QI deve ser 20 ou menor. Entre todos os indivíduos com a patologia, 85% deles têm Retardo Mental Leve, 10% é Moderado, 4% é Grave e 1 a 2% é Profundo.

Segundo Candini (2010), podemos caracterizar, identificar e orientar o tratamento conforme uma tabela proposta pelo mesmo:

 

Grau de retardo Idade Pré-Escolar0 a 5 anos – maturaçãoE desenvolvimento Idade Escolar6 a 20 anosTreinamento eEducação Adulto (21Anos e acimaAdequação Social e Vocacional
Leve Pode desenvolver habilidades sociais e de comunicação. Déficit mínimo em áreas sensoriomotoras. Geralmente indistinguíveis de outros até idades mais tardias Podem conseguir habilidades escolares compatíveis com a 6ª serie – podem ser levados através de regras sociais Podem adquirir habilidades sociais e vocacionais adequadas para o mínimo de auto-suporte mas podem precisar de ajuda e assistência para estressores sociais e econômicos incomuns
Moderado Pode conversar ou aprender a se comunicar. Pobre convívio social, pobre desenvolvimento motor. Beneficios em treinamento de auto-cuidado. Podem ser instruídos com moderada supervisão Podem obter benefícios do treinamento em habilidades sociais e ocupacionais. Pouco comumente chegam ao segundo grau acadêmico – podem aprender a viajar sozinhos em locais familiares Podem adquirir auto-manutenção em alguns tipos de trabalhos supervisionados.
Grave Desenvolvimento motor pobre, mínima fala, geralmente incapazes de obter beneficio do treinamento em auto-cuidado. Pouca ou nenhuma habilidade verbal Podem conversar ou aprender a se comunicar. Podem ser treinado em hábitos de saúde elementares. Beneficiam-se de treinamento sistemático de hábitos. Incapazes de obter benefícios de treino vocacional Podem contribuir parcialmente para auto-manutenção ate completar supervisão. Podem desenvolver habilidades mínimas de auto-proteção
Profundo Retardo Grosseiro. Mínima capacidade de funcionar em áreas sensoriomotoras. Precisam de cuidados de enfermagem. Precisam de ajuda para auto-cuidado e supervisão Algum desenvolvimento motor presente. Podem responder a mínima ou limitado treinamento em auto-cuidado Algum desenvolvimento motor e na fala. Podem atingir algum grau de auto-cuidado. Precisam de cuidados de enfermagem.

Tabela 1: Retardo Mental

Segundo Candini (2010), 1 a 3% da população tem Retardo Mental. É difícil calcular a real incidência, pois a ocorrência de Retardo Mental leve a moderado muitas vezes é desconhecida até a média infância. Ou seja, o Retardo Mental nas crianças pode não ser evidente até que estas entrem na escola, assim sendo não é diagnosticado.

O Retardo Mental pode ser causado por evento ou condição que prejudique o feto antes do nascimento, durante o parto ou ao longo da infância. Várias causas vêm sendo descobertas, mas em muitos casos a mesma não é definida.

Segundo o DSM-IV-TR os fatores etiológicos podem ser tanto biológicos como psicossociais, ou até mesmo uma combinação entre os dois. De 30% a 40% dos casos a causa etiológica não é encontrada. Etiologias são mais fáceis de serem determinadas em sujeitos com Retardo Mental Grave ou Profundo. Os principais fatores incluem:

-Hereditariedade: fatores biológicos herdados, como por exemplo, aberrações cromossômicas (Síndrome de Down e Síndrome do X frágil, sendo estas aberrações cromossômicas, são também apontadas como três das principais causas identificadas).

-Alterações Precoces do Desenvolvimento Embrionário: alterações cromossômicas ou danos pré-natais causados por toxinas (consumo de álcool materno ou infecções).

-Problemas da gravidez e perinatais: desnutrição fetal, prematuridade, hipoxia, infecções e traumatismos.

-Transtornos Mentais: Transtornos Globais do Desenvolvimento.

-Condições Médicas Gerais contraídas no início da infância: por exemplo, infecções, traumas ou envenenamento.

-Influências ambientais e outros transtornos mentais: inclui a privação de afeto e cuidados, estimulação social, linguística e outras, assim como transtornos mentais graves.

O Retardo Mental não tem cura. Apenas se pode ajudar a pessoa a levar uma vida mais fácil, auxiliando as áreas de habilidades que são comprometidas. Porém, existem diversos métodos de prevenção de casos. O mais comum é o “teste do pezinho”, obrigatório para todos os recém nascidos.


3. Acompanhamento Terapêutico: uma prática ativa

 

O profissional que atua nesta prática deve estar disposto a circular, pois o acompanhante terapêutico pode tratar o paciente tanto na rua como na sua casa. Este profissional literalmente utiliza a rua como seu espaço clínico.

“O AT é um procedimento clinico que busca potencializar essa dimensão simbólica do cotidiano de um sujeito, auxiliando-o a recuperar ou estabelecer aspectos, objetos, ações que o constituam e que o ajudem a se inscrever de uma forma simbólica na realidade compartilhada” (BARRETTO, 1997)

“Acompanhamento terapêutico: prática de saídas pela cidade, com a intenção de montar um ‘guia’ que possa articular o paciente na circulação social, através de ações, sustentado por uma relação de vizinhança do acompanhante com o louco e a loucura, dentro de um contexto histórico.” (A CASA, 1991)

O AT tem diversas funções. Pode ter que conter o paciente, seja fisicamente ou não, desenvolver a capacidade criativa do paciente, diminuir um provável sentimento de solidão, auxiliar a se organizar, seja em tarefas ou psiquicamente, auxilio em tomada de decisões, desenvolver atividades, assim como tantas outras. Penso que a principal função do assistente terapêutico em relação ao paciente é a de se oferecer como “Ego auxiliar”. Muitas vezes o paciente surge para o assistente terapêutico totalmente desorganizado, e necessita que lhe seja emprestado funções do Ego, como por exemplo, a capacidade de julgamento moral.

O acompanhante terapêutico tem também funções importantes dentro do contexto familiar do paciente. Surge como sendo um catalisador das funções familiares, ajudando a baixar a ansiedade. Auxilia também em novos modos de comportamento no grupo familiar e avalia o paciente dentro deste grupo.

Por fim, o assistente terapêutico tem responsabilidades e função específica dentro da equipe onde trabalha. Muitas vezes o at trabalha em conjunto com outros profissionais da saúde, sejam estes psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, entre outros. O assistente terapêutico, por ser um profissional que pode atuar diretamente dentro do ambiente do paciente, presencia atitudes e condutas que outros profissionais não podem acompanhar. Portanto, o at deve auxiliar no tratamento, informando dados novos que não podem ser detectados na terapia, assim como informando os efeitos da mesma.

O profissional que atua nesta prática tem diversas modalidades que pode escolher. O assistente terapêutico atua não só com pacientes psicóticos, mas sim com idosos (AT Terceira Idade), crianças (AT Escolar), em grupos (Ambiento terapia, onde pode observar o grupo como um todo ou um paciente específico), assim como, AT Transporte (cuidados com documentos e autorizações em casos de pacientes menores de idade), AT de viagens, AT Internação Domiciliar (pacientes que ficam em observação dentro de sua própria casa; muitas vezes exigem mais de um profissional que fique 24 horas por dia acompanhando; o paciente pode ter diversas patologias), AT Dependência Química (envolve a internação domiciliar, reintegração na sociedade, novas alternativas de diversão), AT Jovens Abrigados (a rua como espaço clínico, voltado mais para a necessidade do paciente por afeto) e AT Passeio (apresenta novas opções de lazer).

O principal objetivo do Acompanhamento Terapêutico é proporcionar maior qualidade de vida para o paciente.

O acompanhante terapêutico age muitas vezes como “sombra” do paciente, sendo para ele tanto uma referência física quando psicológica. O profissional deve transparecer tranquilidade e saber agir conforme o tempo do paciente. Quando o paciente estiver agitado, exaltado e representando perigo para si ou para outros, o assistente terapêutico deve se impor, procurando restabelecer o estado pacífico e normal. Em outras vezes, o assistente deve exercer seu papel de “sombra”, deixando o paciente seguir seu caminho e agir conforme seu próprio pensamento, e assim exercitar sua potencialidade e permitir que ele se coloque no mundo de seu próprio modo.

O Acompanhamento Terapêutico surge como uma prática alternativa para pacientes com psicopatologias graves. O indivíduo deixa de ser institucionalizado em um hospital ou comunidade terapêutica para poder ser (re) entregado na sociedade.


4. Prática Clínica em AT

 

EBR é um paciente masculino, com trinta e três anos de idade. Foi internado em 1993 em um hospital psiquiátrico de Porto Alegre, onde reside até hoje em uma unidade masculina do local. Há histórico de doença mental na família. EBR tem cinco irmãos, sendo que dois tem doença mental. Um dos irmãos também estava internado no mesmo hospital, porém em uma unidade diferente. Este já faleceu, mas quando vivo os dois eram muito próximos. Funcionários antigos do local relatam que os dois brincavam juntos quase todos os dias. O pai já faleceu e a mãe cuida sozinha do segundo irmão com psicopatologia. A família não tem condições financeiras de cuidar também de EBR.

No prontuário médico de EBR consta que é um paciente “calmo, atento, comunica-se através de gestos”. Este faz tratamento também com fonoaudióloga, foniatra, psicomotricista e terapeuta ocupacional.

É um paciente muito afetuoso. Tem a sexualidade bastante aflorada, o que é comum em pacientes com Retardo Mental Profundo.

Como consequência de luxações não tratadas no passado, EBR tem a mão esquerda entravada.

Diagnosticado com Retardo Mental e Epilepsia, porém só teve históricos de crise convulsiva até 1993. Foi tratado com Gardenal, mas foi suspenso após o fim das crises convulsivas.

O tratamento teve início na própria unidade onde EBR reside. Foi pedido em reunião de equipe o acompanhamento deste paciente para desenvolver a criatividade e a interação social, além de reforçar o trabalho da fonoaudióloga e da terapeuta ocupacional.

EBR era levado a fazer atividades cinco dias por semana. O tratamento ainda esta em andamento pelo estagiário de psicologia.

4.1 Formação do Vínculo

 

Sendo EBR um paciente muito afetuoso e receptivo, não foi difícil criar um vínculo com o mesmo. Ele recebe todos muito bem, confia muito rapidamente. Porém, é evidente a frustração que sente quando é ignorado.

O paciente não fala, só se comunica essencialmente através de gestos. No início apenas tentava acompanhar ele, incentivando a ficar comigo e também chamando ele ao meu encontro. Com o tempo percebi que deste modo o nosso vínculo se formou muito mais facilmente, e percebi que ele criou um afeto muito grande em relação a mim. A partir disso iniciei o tratamento propriamente dito.

 

4.2 Tratamento

 

O hospital oferece todas as manhãs atividades de educação física para os pacientes. Sempre que EBR era convidado a ir ele manifestava boa vontade, porém ficava sempre excluído, sem tentar interagir com outras pessoas. Passei a acompanhá-lo nas atividades, sendo elas: caminhadas, atividades com bola ou programa de auditório, onde quem quer pode se apresentar.

Quando as atividades eram no pátio, com bolas, chimarrão e bolo, comecei a tentar fazer com que ele jogasse. Quando a bola era chutada para EBR, ele parava a bola, pegava e jogava, tudo isso com as mãos. Foi um processo difícil fazer com que EBR se sentisse à vontade jogando, pois, devido à mão travada, mesmo a bola sendo jogada, havia problema. Ele ficava frustrado por não conseguir jogar a bola na direção correta, então logo desistia.

Nas atividades no auditório ou na caminhada, eu ficava apenas do lado dele, acompanhando seu ritmo. Com o tempo EBR passou a me esperar passar por ele e chamá-lo. Quando percebi este novo comportamento, esperei que ele se sentisse à vontade de andar para onde quisesse.

Dentro da própria unidade, sentava-me com EBR para desenhar. Começamos com desenhos livres, onde lhe era oferecido folhas em branco, lápis de cor, giz de cera, canetinhas e tinta. Para ele, pintar era muito difícil também por causa da mão. Porém, quando incentivado, continuava a desenhar. Todos os seus desenhos eram rabiscos, nunca saindo dessa forma.

Quando percebi que ele já se sentia a vontade com os desenhos livres, peguei folhas com desenhos pré definidos, apenas para pintar. Oferecia novamente lápis de cor, giz de cera e tintas, então ele escolhia seu material. Na maioria das vezes ele escolhia lápis de cor ou canetinhas. Assim sendo, eu pegava uma cor aleatória, dizia o nome da cor para ajudar com a linguagem e tentar com que fizesse associações e entregava para ele. EBR não tinha idéia de limites, então eu pintava junto, mostrando como se coloria dentro dos limites do desenho que estava na folha. Por vezes pegava a mão dele e pintávamos em conjunto.

Também desenvolvi atividades com massa-de-modelar. Assim como no desenho, eu repetia o nome das cores da massinha e entregava para ele. Essa atividade era voltada para o desenvolvimento da mão travada. Algumas vezes eu mesma colocava a massinha dentro do espaço da mão e ele apertava. Com a mão boa ele tentava fazer bolinhas.

4.3 Benefícios

 

Aqui irei retratar os maiores benefícios que o tratamento do Acompanhamento Terapêutico teve com EBR.

Quando incentivado a ir às atividades propostas pela educação física do hospital, EBR começou a desenvolver sua autonomia. Com o tempo, quando percebia que as atividades do dia iriam começar, ele já esperava na porta para ser acompanhado até o local juntamente dos outros pacientes.

EBR começou a participar das atividades, tomar a iniciativa e chamar outras pessoas para fazer algo com ele. Passou a dividir o chimarrão que era oferecido, e que antes ele aceitava e já devolvia. Jogar bola ainda é um desafio para ele, mas a frustração com a mão esta sendo superada.

Quanto aos desenhos, EBR ainda tem dificuldades com os limites. Porém, agora se orgulha de seus desenhos. Diversas vezes, após terminar de pintar, dava seus desenhos para mim. Isto ajudou a desenvolver a sua confiança no que ele produz. Começou também a usar mais cores.

Depois que comecei acompanhar o paciente, ele passou a ser mais prestativo. Quando percebe que algo esta fora do lugar, tenta arrumar. Quer carregar as coisas para mim, até mesmo se oferecendo para pegar as chaves. Claro, toda a comunicação ainda é feita por meio de gestos, porém já começamos a trabalhar a parte fonoaudióloga.

Por orientação da fonoaudióloga, a equipe começou a chamá-lo por um apelido referente ao seu nome. É um conjunto de sílabas simples, que incentiva ele a começar a falar coisas fáceis. Após este trabalho, começou a tentar falar. Já fala a palavra “tchau” e a palavra “caiu”, sendo a primeira mais utilizada que a segunda, até por facilidade de contexto. Além destas duas, tenta produzir outros sons, que ainda não formam palavras concretas.

EBR também começou a ajudar em tarefas rotineiras, como por exemplo, levar a bacia com canecas para o café.

O Acompanhamento Terapêutico se mostrou muito benéfico para EBR. Ele se tornou mais confiante em si, mais criativo e prestativo. Isto só foi possível pois, além de toda a equipe que trabalhava com ele em diversas áreas, uma pessoa ficou especialmente cuidando para que ele não se sentisse só. Assim sendo, ele se sentiu amparado para desenvolver potencialidades.

Outro ponto que contribuiu para o sucesso do tratamento foi o vínculo criado entre nós. Hoje em dia EBR vem correndo me receber quando percebe que estou chegando, inclusive tentando me abraçar. Ele ainda não consegue abraçar corretamente, pois tem dificuldades com a consciência corporal.

4.4 Dificuldades

 

A maior dificuldade que encontrei neste tratamento foi a falta de comunicação verbal. Quando nosso vínculo já estava formado, comecei a perceber melhor o que EBR queria dizer com os gestos, porém antes foi muito complicado. Sendo ele um paciente com retardo mental profundo e sem o auxílio da fala, o entendimento foi muito prejudicado no início.

Outro desafio que encontrei foi referente a uma característica comum em pacientes com retardo mental: a sexualidade aflorada. Muitas vezes eu presenciava EBR dando beijos na bochecha de outros pacientes. Alguns não se importavam, porém outros ficavam incomodados, então eu devia repreendê-lo. Ele ficava frustrado quando era repreendido de forma dura, e tive receio de que isto prejudicasse nosso vínculo.

EBR é um paciente muito receptivo e calmo. Nunca tivemos caso de violência com ele. Porém, no início do tratamento, quando era contrariado ou quando era chamada a sua atenção, ficava brabo, e era perceptível, pois contraia-se, forçava os braços para baixo em um gesto claro de chateação e fazia sons irritados. Apenas depois de algum tempo conversando e acompanhando-o todos os dias é que parece que compreendeu que era meu dever chamar a sua atenção.


5. Conclusão

 

Este artigo teve como objetivo explicar a prática do Acompanhamento Terapêutico e relacioná-la  com o tratamento de pacientes com retardo mental. Também foi abordado o conceito e características do retardo mental.

O Acompanhamento Terapêutico de pacientes com tal psicopatologia é difícil, porém obtém-se resultados fantásticos. O acompanhante terapêutico pode auxiliar no desenvolvimento de qualquer uma das áreas de habilidades que podem ser prejudicadas devido ao retardo. O paciente melhora significativamente. Requer muita paciência por parte do profissional, porém é recompensante.

As melhoras mais significativas em EBR foram nas questões sociais e em relação a confiança. O paciente passou a interagir mais, participar de forma ativa de atividades propostas e aprendeu a confiar em si mesmo.

Considero que o vínculo criado entre nós foi crucial para o sucesso pleno do trabalho. Acho importante existir a empatia recíproca.

Deve-se salientar que, tanto no tratamento de pacientes com retardo mental assim como com outra psicopatologia, sempre se encontram dificuldades. O profissional deve estar pronto para superar os obstáculos que são encontrados ao longo do tratamento, pensando possíveis soluções.

Acredito que o Acompanhamento Terapêutico é uma prática que visa exclusivamente o bem-estar e a qualidade-de-vida do paciente, seja no ambiente que for, na casa do mesmo, na rua ou dentro de uma instituição. Creio que todo o profissional que se propõem a praticar tal tarefa deve ter este objetivo em mente.

 

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Artigo publicado no “Site AT” em 22/01/2011.

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