Acompanhamento Terapêutico: utilidade e eficácia

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Simbolo_AT34Autora: Iara Cristina Schmidt – Graduanda em Psicologia. Formação no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. [email protected]

 

Resumo: O Acompanhamento Terapêutico é uma modalidade de auxílio que vem apresentando resultados muito satisfatórios na ajuda a pessoas que apresentam algum tipo sofrimento psíquico. Assim, esta atividade merece ser estudada mais detalhadamente, tendo em vista o seu campo de aplicação e seu funcionamento, sendo este o objetivo do presente estudo.

Palavras chave: Acompanhamento terapêutico, doença psíquica, benefícios.


Introdução

A história da loucura é permeada por diferentes pontos de vista e opiniões, que fizeram com que os doentes mentais fossem tratados de maneiras diferentes ao longo dos tempos. Desta forma, a doença mental já foi vista como um saber divino, na Grécia Antiga, assim como já caracterizou uma doença capaz de excluir completamente seus portadores do convívio em sociedade, em meados do século XVII (BERGER; MORETIN; NETO, 1991).

Assim, foram sendo criados asilos para que os doentes mentais pudessem ser tratados, algumas vezes com condições e cuidados desumanos. Os loucos foram silenciados e mantidos sob os cuidados de médicos psiquiatras, que tinham a função de tratá-los e ao mesmo tempo manter a sociedade segura, livre de seus pacientes. (BERGER; MORETIN; NETO, 1991).

É neste contexto que surge, no início do século XX, na Europa, o movimento contra esta estrutura psiquiátrica. Foram questionadas as condições a que os doentes mentais eram submetidos, bem como a sua ineficácia terapêutica. No Brasil, estas idéias começaram a surgir com mais força no final da década de 1960, tendo início aqui o movimento antipsiquiátrico (BERGER; MORETIN; NETO, 1991).

Assim, foram tendo origem as primeiras comunidades terapêuticas, onde começou a ser utilizado o recurso do acompanhamento terapêutico, como uma alternativa à internação psiquiátrica. Eram jovens, freqüentemente universitários, que buscavam uma aproximação com pacientes desintegrados, e que foram ganhando um espaço cada vez maior em seu meio (BERGER; MORETIN; NETO, 1991).

Atualmente, a prática do acompanhante terapêutico vem sendo cada vez mais reconhecida em sua utilidade e eficácia, tendo um campo de abrangência cada vez maior, que vai desde o acompanhamento a pacientes psiquiátricos até o auxílio a pessoas em fase escolar. É um campo que vem sendo muito valorizado por profissionais de diversas áreas, o que faz com que mereça ser estudado mais detalhadamente em seu funcionamento e indicações.


Sobre o Acompanhamento Terapêutico

            Pode-se dizer que o acompanhamento terapêutico é uma clínica nova, com demanda crescente, que presta um atendimento psicológico diferenciado e específico para determinado paciente, com a peculiaridade de que seu setting não é fixo, podendo realizar atividades variadas em locais distintos (CODA; 2010)

De acordo com Flávio Veríssimo (2010), o papel do acompanhante terapêutico nas comunidades terapêuticas era o de um auxiliar psiquiátrico, já que mantinha um contato mais próximo com os pacientes, o que lhe permitia conhecê-lo melhor, administrar remédios, etc. É somente em uma fase posterior que o at passa a circular com o paciente nas ruas e até mesmo em sua própria casa, com o objetivo de reinseri-lo em um meio social do qual se afastou.

Desta forma, o acompanhante terapêutico deixou de ser um instrumento utilizado apenas com pacientes psicóticos, passando a constituir uma importante fonte de ajuda para pacientes que possuem uma fragilidade egóica. Nestes casos, o at irá atuar como um auxilio na reconstrução de um suporte egóico que permitirá ao sujeito estar no mudo, relacionando-se e convivendo em sociedade, ampliando sua gama de recursos e fazendo com que ele se reorganize (VERÍSSIMO, 2010)

De acordo com Sandra Silveira Carvalho (2004), o acompanhante terapêutico deverá atuar tendo sempre presentes três elementos básicos: estar com o paciente, escutar a ação e propor ∕ co-construir.

O estar com o paciente não trata somente da presença física, mas sim de uma disponibilidade por parte do profissional em partilhar as situações da vida do paciente por um longo período de tempo, sendo uma testemunha e um parceiro para o que for necessário (CARVALHO, 2004).

Escutar aqui toma um enfoque diferente do usual na clínica. Como o at convive diretamente no dia-a-dia do paciente, ele é capaz de “escutar a ação”, trazendo a possibilidade de uma troca muito maior do que aquela que se tem em um diálogo simples, havendo sim uma troca que valoriza todos os elementos da comunicação (CARVALHO, 2004).

Ainda nesta linha, o processo de propor ∕ co-construir relaciona-se a possibilidade que tem o at de fazer mudanças na vida do paciente, utilizando-se daquilo que o mesmo produz em outros tratamentos e instancias, cabendo ao profissional o auxílio para que se possa unir tudo isso, com o objetivo da melhora (CARVALHO, 2004)

Igor Londero e Janaína Barbosa (2006) realizaram um estudo com a finalidade de entender por que são feitos encaminhamentos a profissionais que trabalham com acompanhamento terapêutico. Constatou-se que o encaminhamento é feito tendo em vista aspectos familiares do paciente, seu histórico, diagnóstico e os limites que encontra a psicoterapia, que não dispõe de um contato tão próximo com o paciente como o profissional at.

Como o acompanhante terapêutico tem seu campo de intervenção principal fora do consultório, podendo agir inclusive dentro da família do paciente, seu trabalho é também o de perceber e auxiliar na melhora das dificuldades intrafamiliares que possa vir a encontrar durante o atendimento (LONDERO; BARBOSA, 2006).

É importante ressaltar ainda que o acompanhamento terapêutico encontra-se em um contexto interdisciplinar, exigindo conhecimentos da área da psicologia, antropologia, filosofia, psiquiatria, entre outros. O profissional que mais exerce esta função é o psicólogo, embora também atuem como acompanhantes terapêuticos profissionais como médicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, etc. (CARVALHO, 2004)

Não se exige que o acompanhante terapêutico seja graduado em psicologia, mas um cuidadoso processo de formação é absolutamente necessário para que possa exercer seu trabalho de forma profissional e ética. A aprendizagem e estudo devem ser constantes, já que a simples graduação, mesmo que na área da psicologia, não garantem uma boa formação humana e cultural (CARVALHO, 2004).


Indicações para o Acompanhamento Terapêutico

De acordo com Sandra Silveira Carvalho (2004), beneficiam-se do acompanhamento terapêutico não só os pacientes psicóticos, mas sim todos aqueles que em geral, portam um sofrimento psíquico grave, que nem sempre está relacionado a um problema de saúde em si. Nestes casos, o papel do at será o de resgatar e promover a qualidade de vida perdida do paciente.

Pessoas que possuem dificuldades em se relacionar, com transtornos depressivos graves ou de humor bipolar, psicóticos com funcionamento esquizóide, autistas, pacientes com alguma deficiência física ou mental, que apresentem transtorno de personalidade borderline, entre outras patologias que poderiam ser citadas, precisam muitas vezes de um trabalho que vá além dos limites do setting de terapia convencional. O acompanhamento terapêutico irá estender-se para suas atividades do dia a dia, podendo obter alguns objetivos bem específicos (FIGUEIREDO; SEGAL, 1998).

Vicente Coda (2010) trata também dos benefícios que podem ser obtidos por meio do acompanhamento terapêutico em idosos, visando essencialmente à promoção de saúde e qualidade de vida dos pacientes. Caberá ao at incentivar o idoso a organizar sua vida, manifestar suas vontades e planejar suas atividades, além de manter-se sempre atento ao estado de saúde físico e mental do paciente.

Será por meio destas funções executadas no dia a dia que o acompanhante terapêutico poderá criar uma aliança terapêutica, com potencial analítico, fazendo com que passe a existir um processo de simbolização das vivências do paciente. O idoso, ao perceber que é escutado, se sentirá aceito, mesmo com suas limitações, capaz de compartilhar vivências e experiências, o que já é de grande importância para o mesmo. Além disso, as atividades fora do setting, como passeios, viagens, formação de grupos, entre outros, tendem a ser muito benéficas. O at pode atuar inclusive dentro da família do idoso, auxiliando-o no relacionamento com filhos, netos, etc. (CODA, 2010).

Outra modalidade diferenciada trata da possibilidade de acompanhamento terapêutico escolar. O aluno contará com a ajuda de um profissional na realização e organização de suas atividades escolares. O at atua na escola, na família e no próprio paciente, como um facilitador dos processos de aprendizagem, estimulando sua criatividade, motivação e auxiliando em questões práticas como conforto, horários de estudo, etc. (DUARTE, 2008)

Foi criado em Porto Alegre pela psicóloga Alice Peres Duarte o projeto Ex-cola, que conta com o auxílio do acompanhante terapêutico nestes aspectos tratados, objetivando facilitar o processo de aprendizagem, transformando-o em um processo terapêutico (DUARTE, 2008)

É importante ressaltar que acompanhamento terapêutico e psicoterapia são atividades complementares. Cabe ao terapeuta, em conjunto com o AT, traçar os objetivos para o caso em questão, discutindo-os de forma sistemática, para que o andamento e os progressos do paciente sejam sempre levados em consideração (FIGUEIREDO; SEGAL, 1998).

Assim, percebe-se que o campo de aplicação do acompanhamento terapêutico é muito grande e variado. Desde que exercido com competência e responsabilidade, muitas pessoas com diferentes problemas podem ser beneficiadas.

 

O Acompanhante Terapêutico

Denis Roberto Zamignani e Joana Singer Vermes (2010) citam algumas características necessárias para um bom acompanhante terapêutico. Além das habilidades comuns a todos os profissionais da psicologia, como uma boa formação teórico-técnica, boa capacidade de comunicação verbal e não verbal, estes autores trazem habilidades mais específicas, que não podem deixar de ser observadas.

Dentre estas habilidades, é necessário que o at possua uma boa capacidade de improvisação. O profissional deve estar sempre atento às interações, com o objetivo de conduzir boas estratégias clínicas, já que em um ambiente externo ao consultório, surgem muitas oportunidades de intervenção, que devem ser aproveitadas de forma terapêutica (ZAMIGNANI; VERMES, 2010).

Além disso, o profissional que trabalhe com acompanhamento terapêutico deve estar preparado para lidar com momentos de crise que podem acontecer, estando habilitado a manejar em casos de acidentes, agressividade extrema, etc. (ZAMIGNANI; VERMES, 2010).

A atuação ética do acompanhante terapêutico é também de extrema importância, trazendo a tona a relevância dos limites em sua atuação, o sigilo intrínseco a esta atividade, bem como o posicionamento a ser adotado em casos de conflito com a lei, entre outros (ZAMIGNANI; VERMES, 2010).

Segundo observações de Roberto Antonucci (2003), o profissional que trabalha com acompanhamento terapêutico deve apresentar um ego forte, que suporte as projeções e agressões de seus pacientes, que tendem a ser extremas. Daí a necessidade de um tratamento pessoal, com a finalidade de evitar o fortalecimento de sua própria patologia.

De extrema relevância é também a disponibilidade afetiva que o acompanhante deve possuir. Depende desta disponibilidade a possibilidade de se criar um vínculo com o paciente, para que se desenvolva uma boa aliança terapêutica entre ambos, o que irá tornar possível a evolução do tratamento e conseqüentemente do paciente em questão (ANTONUCCI, 2003).


Conclusões

O acompanhamento terapêutico, mesmo sendo uma modalidade relativamente recente, já é muito utilizado nas clínicas em geral. A idéia de que sua aplicabilidade seria restrita a pacientes psicóticos há muito foi superada, e hoje diversos tipos de pacientes com problemas distintos se beneficiam do acompanhante terapêutico, como observado no decorrer deste estudo.

Sua extensão e abrangência são, sem dúvida, muito grandes. A convivência que o acompanhante terapêutico estabelece com o paciente, com sua família e com seu meio em geral é muito produtiva e de muita ajuda no processo terapêutico. Por meio do at o terapeuta terá também outro olhar sobre a realidade de seu paciente.

É importante salientar, no entanto, que o acompanhamento terapêutico é um trabalho complementar. Terapeuta e acompanhante terapêutico devem agir juntos em benefício do seu paciente, e quando outros tratamentos forem necessários, como fonoaudiologia, pedagogia, entre outros, não devem em hipótese alguma ser dispensados.

Os benefícios desta modalidade de tratamento são muitos. O paciente contará com ajuda de um profissional qualificado para reinserir-se em um meio social, reconstruir relações prejudicadas, organizar suas vidas, realizar projetos ou até mesmo construí-los.

É uma forma de aumentar a qualidade de vida de pessoas que já não desfrutam ou talvez nunca tenham desfrutado de uma condição plena e capaz. Não se pode esquecer o papel de promoção de saúde, também exercido pelo at que estará sempre atento às necessidades de seu paciente.

Assim, esta é uma clinica que deve ser respeitada e levada em consideração. Desde que se haja com responsabilidade, ética e embasado por uma boa formação profissional, os benefícios que se podem extrair do acompanhamento terapêutico são muitos e valiosos.


Referências Bibliográficas

  • ANTONUCCI, Roberto (2003). O acompanhante terapêutico. On line. Disponível em http://www.robertoantonucci.com.br/notvis.php?op=9&cod=30&pagina=0. Acesso em 08 de agosto de 2010.
  • BERGER, E; MORETIN, A. V.; NETO L.B.; (1991) Introdução à clínica do acompanhante terapêutico: história in Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital-dia A Casa (1991). A rua como espaço clínico – Acompanhamento terapêutico.  São Paulo: Editora Escuta Ltda. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA A CASA, (Org.). A rua como espaço clínico. Acompanhamento terapêutico. São Paulo: Escuta, 1991.
  • CARVALHO, Sandra S. Acompanhamento Terapêutico : Que Clínica é Essa?. São Paulo: Annablume, 2004
  • CODA, Vicente. Acompanhamento Terapêutico e a terceira idade: Da constituição de uma clínica à promoção de saúde. Porto Alegre, 2010. On line. Site AT – Acompanhamento Terapêutico. Disponível em https://siteat.net/vicente/. A.cesso em 09/08/2010
  • DUARTE, Alice P. A inserção do AT na vida escolar. Porto Alegre, 2008.  On line. Site AT – Acompanhamento Terapêutico. Disponível em  https://siteat.net/alice/. Acesso em 10/08/2010.
  • FIGUEIREDO, Angela L.; SEGAL, Jair. Indicações e expectativas do trabalho do acompanhante terapêutico in  PELLICCIOLLI, Eduardo (org) et al. Cadernos de AT: uma clínica itinerante. Porto Alegre: Grupo de Acompanhamento Terapêutico Circulação, 1998.
  • LONDERO, I.;  PACHECO, T. Por que encaminhar ao acompanhante terapêutico? Uma discussão considerando a perspectiva de psicólogos e psiquiatras. Porto Alegre, 2006. On line. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722006000200004&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em 08 de agosto de 2010.
  • VERÍSSIMO, Flávio. Sobre a função do acompanhamento terapêutico na atualidade.  Porto Alegre, 2010. On line. Site AT – Acompanhamento terapêutico. Disponível em https://siteat.net/flavio-2/. Acesso em 30 de julho de 2010.
  • ZAMIGNANI, Denis R.; VERMES, Joana S. O acompanhamento terapêutico e suas fronteiras com a terapia tradicional. (2010) in LONDERO, Igor (org). Acompanhamento Terapêutico: teoria e técnica comportamental e cognitivo comportamental. São Paulo: Santos. 2010.

Artigo publicado no “Site AT” em 22/01/2011.

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