Face Singular do Acompanhamento Terapêutico Utilizando Atividades Físicas Como Estratégia de Enfrentamento às Pessoas Que Vivem com Deficiência Mental

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Resumo: este estudo consiste em uma pesquisa bibliográfica, com foco no Acompanhamento Terapêutico (AT) e sua área de atuação dentro do contexto de saúde mental. São discutidos alguns resultados de estratégias de intervenção psicossocial apoiadas pelas práticas das atividades físicas, como o esporte e a expressão corporal. Tais intervenções têm dois objetivos principais: reduzir ou prevenir os sintomas do sofrimento psíquico e melhorar a qualidade de vida do acompanhado e de toda a família. Para tanto, foram utilizadas as palavras-chave: acompanhante terapêutico, saúde mental e atividades físicas. Os resultados indicam que a maioria dos estudos abordou aspectos positivos do trabalho do AT, apontando para a importância dessa atividade. O acompanhante terapêutico age como uma espécie de ego auxiliar e possibilita que o indivíduo com deficiência mental consiga participar das práticas de atividades físicas, seja no esporte ou na expressão corporal. Práticas essas que enfatizam a esperança, a socialização, reconstrução da autoestima, o aproveitamento dos próprios recursos adaptativos desses acompanhados e de todos os benefícios que essa prática proporciona.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico, Saúde Mental, Atividades Físicas

 

Singular face of therapeutic accompaniment using physical activity as a strategy coping to mental patients

Abstract

This studyconsists ofa literature search, focusing on MonitoringTherapeutic(AT) andits area of ​​operationwithin the context ofmental health.We discusssome resultsofpsychosocial intervention strategiessupportedby thepracticeofphysicalactivitiessuch assport andphysical expression. Suchinterventionhas two main objectives: to reduce or preventthe symptomsof psychological distress andimprovequality of lifetogetherandthe whole family. For thiswe used thekeywords: therapeutic companion, mental health andphysical activity. The resultsindicate that mostof the studiesaddressedthe positive aspectsof the work ofAT,pointing to theimportance of this activity. Thetherapeutic companionacts asa kind ofauxiliary ego, enables theindividual withmental disabilitiescanparticipate inphysical activities, be it sportsorbody expression. Practices thatemphasizehope, socialization, rebuildingselfesteem,use ofownresourcesof theseadaptivefollowedand allthe benefits that this practice provides.

Keywords: MonitoringTherapy, Mental Health, Physical Activities.

 

 

Face Singular do Acompanhamento Terapêutico Utilizando Atividades Físicas Como Estratégia de Enfrentamento às Pessoas Que Vivem com Deficiência Mental

 

Introdução: Acompanhamento Terapêutico 

As profundas modificações da Reforma Psiquiatra, que visam representar uma evolução na vida do indivíduo com deficiência mental, têm exposto estes indivíduos cada vez mais ao convívio social.

Foi constatado na prática que pessoas com transtornos mentais nem sempre sentem-se seguras e tranquilas em seu ambiente familiar cujos níveis de tensão tendem a redimensionar seu estado psíquico e emocional. Eles não conseguem organizar-se sozinhos e necessitam, portanto, de um acompanhamento.

Assim, as famílias ou até mesmo os próprios indivíduos passam a investir no Acompanhamento Terapêutico, incorporado na rotina diária, objetivando um olhar e um cuidado dirigido as suas necessidades específicas.

Com olhar atento ao trabalho do acompanhante terapêutico, dentro do contexto da saúde mental, esta pesquisa teve como objetivo identificar a área de atuação deste acompanhamento e perceber de que forma é estabelecida essa relação acompanhante-acompanhado; bem como identificar também, os efeitos das intervenções voltadas às práticas da atividade física no esporte e na expressão corporal para as pessoas com deficiência mental.

Para tanto, foi elaborada uma pesquisa bibliográfica a cerca da temática acompanhamento terapêutico no contexto da saúde mental e as atividades físicas no esporte e expressão corporal.

Foi utilizado como instrumento desta pesquisa uma busca na base de dados Scielo, Medline e Google Acadêmico, entre os períodos de 1985 e 2011. As palavras-chaves utilizadas foram: acompanhamento terapêutico, saúde mental e atividades físicas.

Diante dessa realidade, evidencia-se a importância deste estudo, pois embora o acompanhamento terapêutico e as práticas das atividades físicas no esporte e expressão corporal sejam atividades distintas, elas se interinfluenciam, pois a atuação do acompanhamento terapêutico aliado a estas práticas, exerce, entre outros tantos efeitos, um papel equilibrador sobre a pessoa com deficiência mental.

Portanto, pretende-se a partir desta pesquisa, destacar a importância da inserção do Acompanhamento Terapêutico no contexto da saúde mental, aliado às intervenções voltadas as práticas da atividade física no esporte e expressão corporal; provocando ainda novos olhares a essas intervenções.

 

Acompanhamento Terapêutico

O acompanhamento terapêutico existe desde a década de 1960 como uma perspectiva de intervenção aos profissionais da saúde mental.

Lidar com pessoas com deficiência mental, que sofrem com transtornos emocionais, é muitas vezes se deparar com situações e relações familiares envoltas em estresse, desconhecimento, negação, impotência e desesperança.

Em sua grande maioria, as relações familiares desestruturam-se, e existe uma tendência na forma de olhar esse familiar colocando-o no lugar de doente, de louco (OLIVEIRA, 2009).

As doenças mentais dificultam as relações tanto internas das próprias pessoas com deficiência, quanto de todo seu entorno.

Choques são inevitáveis. As famílias nem sempre estão preparadas para lidar com essas questões e as manifestações da doença, muitas vezes perdem a organização de alguns eixos básicos de sua vida: moradia, família e trabalho (VARELLA, LACERDA & MADEIRA, 2000).

Aliada a perspectiva da Reforma Psiquiátrica, o Acompanhamento Terapêutico contribui para o cuidado e manejo de pessoas com deficiências mentais, possibilitando que o atendimento ganhe espaço no interior de suas casas, das rua se ainda coloque o paciente em contato com novas culturas e vivências.

Se de fato está fora dos consultórios e hospitais, participam então, da clínica do mundo, do fora, sem um espaço típico para realização.

Permite que essas pessoas estejam contato com os mais diversos espaços, experimentando novas relações, novas situações de viver e estar no mundo (NETO, PINTO & OLIVEIRA, 2011).

Esta prática, em foco neste trabalho, surge como prática oferecida aos pacientes  acometidos por transtornos mentais ou por sofrimento psíquico que requerem mais ou menos do que oferecem os espaços tradicionais de tratamento.

Numa perspectiva de reabilitação, a ênfase é dada no favorecimento da autonomia a partir da diversificação dos lugares e possibilidades de manter e estabelecer novas relações.

Conforme Shirakawa (2000) o acompanhante terapêutico, muitas vezes também apresentado como um “amigo qualificado”, é um profissional que vai junto com o seu paciente, conduzindo, acompanhando e ajudando-o a recuperar suas habilidades perdidas.

O acompanhante terapêutico assume uma função, como de um ego auxiliar; ocupa um lugar de suposto saber, o saber cuidar, e é nessa relação entre o cuidador e o cuidando que se estabelece esse significado de confiança, que permite o acompanhamento nas mais diversas atividades, desde as tarefas mais simples dentro de casa, nos shoppings, nas áreas de lazer entre outras tantas.

Trabalham na readaptação desse paciente, com a finalidade de evitar inadequações e situações de constrangimento, procura restabelecer o caminho de volta a realidade.

Em situações mais críticas, acompanha ainda, esse paciente em internações, quando necessárias.

Estes pacientes, junto com seus acompanhantes, fazem coisas que dificilmente fariam sozinhos, que nunca foram feitas, superam limitações e valorizam suas potencialidades.

O acompanhante foca na vivência do acompanhado e possibilita que algo novo seja experimentado, numa tentativa de provocar maior autonomia (ESTELLITA-LINS, OLIVEIRA & COUTINHO, 2000).

Como os encontros podem ser em diversos lugares, fora de um setting terapêutico específico, possibilita uma maior flexibilidade nas intervenções com esse acompanhado, colocando-o em contato com sua realidade diária.

Uma pessoa com deficiência mental, um psicótico, por exemplo, precisa entrar em contato com pessoas reais, com suas vivências e experiências, para, pelo menos, servir como modelo de identificação, fundamental para o tratamento (OLIVEIRA, 2009).

Para Neto, Pinto e Oliveira (2011) o acompanhante terapêutico age também como um facilitador de novos laços, através da escuta, por exemplo, que destitui a força do delírio nos psicóticos no momento em que este o compartilha; ou no próprio deslocamento para o espaço público, pelo que o próprio espaço possa oferecer.

Ainda para os mesmos autores, o acompanhante terapêutico contribui também para a prevenção de ações em que nos momentos de crise, o acompanhado aja inadequadamente, desencadeando numa internação ou exclusão do convívio social, usualmente chamado de “contenção simbólica”.

O acompanhamento terapêutico proporciona um atendimento singular, direcionado e focado nas necessidades emergentes do acompanhado, fazendo uso de técnicas personalizadas e intervenções apropriadas ao contato desse acompanhado com o mundo externo, com a realidade.

 

Atividade Física: esporte e expressão corporal

O movimento corporal é natural às pessoas e constitui uma forma de linguagem com a qual elas se expressam e comunicam sentimentos.

Os efeitos psicológicos e sociais que acompanham algumas pessoas com deficiência podem gerar mais problemas do que propriamente a incapacidade física ou mental produz.

Apesar de sua deficiência, o paciente necessita de oportunidades especiais para uma autoexploração, de modo a tornar-se envolvido com alguma coisa, ser aceito pela sociedade.

Muitos chegam à escola ou aos núcleos de atividades em tal estado de confusão, medo e dependência que a adaptação e aprendizagem se tornam muito difíceis (SCAZUFCA, 2000).

O indivíduo com deficiência necessita de oportunidades para desenvolver totalmente seu potencial físico e mental a fim de participar da sociedade.

Pesquisas revelam que a pratica da atividade física, no esporte e na expressão corporal, seja ela através da educação física ou dança, reflete não apenas uma melhora significativa na qualidade de vida do indivíduo, nas questões de comunicação e participação social, mas, também, minimiza os preconceitos, estimula o respeito às diferenças e busca alcançar resultados na melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência. Previne também fatores como a obesidade, doenças respiratórias, melhoram a coordenação motora e a resistência física (SILVA, 2004).

Resende (2000) destaca que o corpo das pessoas com deficiências, por representar também um local de expressão de pensamentos e sentimentos, adquire significados de grande relevância para as próprias pessoas. Repensar o corpo, sugere, antes de tudo, repensar na totalidade de discursos que o produzem e, portanto, em ressignificar a própria diferença no contexto social que estamos inseridos.

Segundo Alves (2003), a atividade física deveria ser sempre, parte da reabilitação de um indivíduo, pois todos indivíduos apresentam um grau de potencial residual que deve ser estimulado em busca de uma vida mais saudável e digna.

Na expressão corporal, destaca Iolanda Silva (2004), são exploradas a participação e a criatividade, muito importantes na vida das pessoas com deficiência, pois possibilita um reconhecimento espaço-corpo, promove a convivência, a atuar em grupos, trabalhar em equipes, respeitar o próximo, expandir capacidades, superar desafios, faz reconhecer hábitos saudáveis de vida e diminui as diferenças e os preconceitos.

O esporte como atividade física, para pessoas com deficiência mental, apresenta vários fatores que também devem ser levados em conta: integração social; atividade mais ativa e não tão passiva; independência nas atividades propostas; competitividade; atividades individuais e em grupos; concentração, coordenação e cumprimento de regras. Essas atividades visam promover não só as percepções corporais mas também todo um entendimento de capacidades e diferenças, possibilitando um novo posicionamento, uma nova visão de si e do mundo (SASSAKI, 1997).

 

Acompanhamento terapêutico e atividades físicas

A interferência causada por algum tipo de transtorno psíquico ou emocional interrompe o ciclo normal de expressão da qualidade de vida.

Esta, diretamente ligada ao ser humano, pode ser definida como a expressão de diversos fatores individuais, participante de um contexto que satisfaça suas necessidades biopsicossociais, tanto de realização, recuperação ou reestruturação pessoal.

As pessoas com deficiência mental não conseguem estabelecer plena realização do seu potencial, perdendo muitas vezes o controle de tarefas muito simples de executar.

Neste contexto, é possível afirmar que a utilização dos recursos da atividade física no indivíduo é uma ferramenta acessível e viável, objetiva a reorganização do indivíduo, tanto na adequação, equilíbrio ou controle nos estados emocionais.

Sob a interferência de determinadas deficiências mentais ou emocionais, o indivíduo não consegue desempenhar ou produzir suas atividades eficientemente.

A prática das atividades físicas neste contexto é capaz de produzir uma melhora nessa configuração, porém, incapaz de conduzir por si próprio seu próprio  monitoramento e participação dessas práticas, esse indivíduo não consegue reestruturar-se sozinho. Surge então, como um “ego auxiliar” o acompanhante terapêutico, capaz de conduzir, acompanhar e monitorar seus movimentos, conduta e comportamento, o apoio necessário àquele indivíduo com dificuldades psíquicas/ emocionais para executar e participar destas práticas da atividade física.

 

Conclusões

Na análise dos estudos apresentados, observa-se que o Acompanhamento Terapêutico corresponde a uma prática ainda em construção, que faz uso de diversos contextos de intervenção; atendendo a uma gama enorme de pacientes, nas mais variadas necessidades dos transtornos mentais.

No contexto da doença mental, a Reforma Psiquiatra veio colaborar para uma procura mais efetiva deste atendimento, colocando o acompanhamento terapêutico em um patamar de necessidade efetiva, numa posição mais visível e valorizada frente a necessidade de auxiliar a pessoa com deficiência mental.

O acompanhamento terapêutico proporciona confiança ao acompanhado, com isso o paciente se permite ser cuidado, possibilitando então, um movimento em direção à autonomia desse indivíduo. E é nessa suposta permissão, que o acompanhante terapêutico vai expandindo seu setting, saindo de dentro de casa e ampliando seu espaço de circulação e vivências sociais, favorecendo a quebra dos dogmas de exclusão, isolamento e sofrimento psíquico.

Aliada a essa nova alternativa de atendimento, na “clínica do fora”, é que se faz uso de intervenções incluindo as práticas de atividades físicas, como o esporte e a expressão corporal que tanto auxiliam no processo de reconstrução da identidade do indivíduo.

Estas intervenções fazem bem para a mente e para o corpo, trazem benefícios tanto para o desenvolvimento psicomotor quanto para o psicossocial e mental, além de preparar para a vida em sociedade.

A partir do momento em que se estabelece a convivência com os demais, o medo, o preconceito e outros sentimentos começam a diminuir e novos sentimentos começam a tomar espaço, ajudando a pessoa com deficiência a completar a integração e inclusão social.

Neste contexto, articular o acompanhamento terapêutico e suas intervenções voltadas às práticas das atividades físicas, como o esporte e a expressão corporal, é sem dúvida, proporcionar ao indivíduo com deficiência mental, a possibilidade de superar barreiras e novas formas de reorganização. Tais tarefas podem ser bem executadas com a presença efetiva de um acompanhante terapêutico.

 

Referências Bibliográficas

  1. ALVES, Fátima. Psicomotricidade: corpo, ação e emoção . RJ: Rio de Janeiro, 2003
  2. ESTELLITA-LINS, C; OLIVEIRA, V. M. & COUTINHO, M. F. Clínica ampliada em saúde mental: cuidar e suposição de saber no acompanhamento terapêutico, RJ: Rio de Janeiro, 2009
  3. MAUER, S. K. & RESNIZKY, S. Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicóticos,SP: Campinas, 1985.
  4. NETO, R. O. N.; PINTO, A.C.T & OLIVEIRA, L. G. A. Acompanhamento Terapêutico: história, clínica e saber, Brasília, 2011.
  5. RESENDE, Moisés S. Entre Liberdades e Interdições: significados corporais em uma instituição para pessoas com deficiência, SP: São Paulo, 2000.
  6. RIBEIRO, AlessandraA ideia de referência: o acompanhamento terapêutico como paradigma de trabalho em um serviço de saúde mental SP: São Paulo, 2009.
  7. SASSAKI, R. K.Inclusão – construindo uma sociedade para todos,RJ: Rio de Janeiro, 1997
  8. SCAZUFCA, Marcia. Abordagem familiar em esquizofrenia. SP: São Paulo, 2000
  9. SHIRAKAWA. Aspectos gerais do manejo do tratamento de pacientes com esquizofrenia. SP: São Paulo, 2000
  10. SILVA, Iolanda A. A importância da educação física, esporte e lazer para o portador de deficiência física ,RJ: Rio de Janeiro, 2004.
  11. VARELLA, M. R. D.; LACERDA, F. & MADEIRA, M. Acompanhamento terapêutico: da construção da rede à reconstrução do social. SP: São Paulo, 2006.

 

Autora: Júlia Cristina Bertoglio Bloise. Graduada em Psicologia (ULBRA). Formado no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” (CTDW).
Formulário de contato on-line e 24 horas com o autora:

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