Acompanhante Terapêutico: Um Novelo a ser conhecido

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Autor: Fabio Ricardo Stramar – Graduando em Psicologia pela Universidade Luterana do Brasil / ULBRA – RS. Formado no “Curso de Capacitação em Acompanhante Terapêutico” da CTDW. E-mail: [email protected]

 

Resumo:

Este artigo tem por objetivo discursar sobre o acompanhante terapêutico, pratica esta, cada vez mais atual em clínicas diferenciadas. Podemos observar fragmentos históricos que datam períodos anteriores à década de 50, mas a idéia não é escrever sobre as bases históricas do AT e sim fazer uma relação da pratica com uma teoria filosófica.

Mas o que é o acompanhante terapêutico? O que Focault quis transmitir com a idéia de dispositivo? E pra finalizar vou colocar uma experiência com um paciente que sofreu uma seria lesão cerebral e que acabei participando de uma pratica diferenciada.

Palavras chave: AT; Dispositivo; Kluver Bucy.

AT:

A proposta de uma definição de Acompanhante Terapêutico abre uma bela discussão, ou melhor, nos oferece uma gama gigantesca de idéias acerca dessa pratica. Gosto de pensar o acompanhante terapêutico através de duas idéias:

A idéia nômade:

O termo nômade vem do latim nomas, que descreve “grupos errantes da Arábia”. Do grego tiramos a idéia de nomas como “errante”, “vagabundo”, “sem destino”, mas que tem a finalidade de alimentar rebanhos.

Quando Suely (2000) descreve em seu artigo que uma dos grandes motivos para o surgimento contemporâneo do Acompanhante terapêutico foi à abertura das portas dos manicômios tentando criar estratégias para estes pacientes institucionalizados.

Mas porque descrevo a pratica do Acompanhante Terapêutico como um nômade? Porque essa é uma das qualidades que entendo como essenciais. Para mim o nômade aqui seria o desprendimento mental de certos paradigmas que estão incrustamos no sujeito. Aqui levo em consideração o acompanhante terapêutico psicólogo, mas se sabe que outras formações acabam funcionando como Ats de uma forma brilhante também.

O setting deixa de ser a sala clássica, fechada, com poltronas extremamente confortáveis e apenas com ruídos de duas vozes a cada quarenta e cinco minutos. O AT busca a rua, o contato com outras pessoas, não busca o conforto e sim o desconforto. Tenta muitas vezes, quando necessário, tirar o paciente de sua zona de conforto adaptada, rígida… O que faz surgir o ruído manifesto ou muitas vezes não manifesto do sofrimento interno que estava inaudível, mas que existe.

O At não vai só sair e passear com o paciente, vai escutá-lo. Escutar no sentido mais profundo, de inconsciente para inconsciente, e partindo disso trazer para o consciente esse dialogo que ocorre a partir da exposição do paciente a situações que anteriormente o sujeito iria evitar por exemplo.

O At deve desprender-se dessa subjetividade que nos é colocada, deve deixar de ser uma pepsicologo (alusão do refrigerante Pepsi com o psicólogo “adequado e subjetivado pela pratica”). O AT vai pra rua vive situações que fazem uma desconstrução do que tem como ideal, mas que vive uma experiência única.

A idéia camaleão:

 O nome camaleão significa “leão da terra”. É derivado das palavras gregas chamai (na terra, no chão) e leon (leão).

Coloco o acompanhante terapêutico como um camaleão, pois é outra qualidade essencial. O AT deve ter o desprendimento e sensibilidade de se movimentar sobre qualquer terreno moldando-se a cada situação por mais inusitada que possa parecer. Ter a capacidade de se desmontar e rapidamente se remontar para a partir do que o paciente lhe trás tirar algum proveito da situação.

O AT não fica só na rua, vai a locais fechados, cinemas, restaurantes a casa do paciente, e nesses locais tem seu foco no paciente. Insere-se sem ser visto, mesmo sabendo que sua presença gera alarde e outras manifestações, mas seu foco esta no paciente. Não esquecendo é claro que o camaleão tem os olhos articulados o que lhe proporciona olhar em outras direções também (muitas vezes um ambiente pode nos oferecer ferramentas de trabalho incríveis).

O acompanhante terapêutico é o profissional que irá acompanhar o paciente em situações que seriam de grande dificuldade para este. Que ira elevar os graus de ansiedade, angustia do paciente e que só o paciente teria a conduta de evitar.

Dispositivo

É uma espécie de novelo, um conjunto multilinear. É composto por linhas de natureza diferente e essas linhas do dispositivo não abarcam nem delimitam sistemas homogêneos por sua própria conta. Seguem direções diferentes, formam processos sempre em desequilíbrio, e essas linhas tanto se aproximam como se afastam uma das outras. Já que estão quebradas ficam submetidas a variações em sua direção.

Essa teoria se aplica a objetos, linguagem e ao sujeito. Os objetos visíveis, as enunciações formuláveis, as forças em exercício, os sujeitos em uma determinada posição, são como os vetores ou tensores desse novelo. É um conjunto, em um primeiro momento heterogêneo que engloba discursos, instituições, leis, enunciados científicos, morais… O que é dito e o não dito, tudo são os elementos do dispositivo. Para Foucault (2008), dispositivo é a rede que  pode se estabelecer entre estes elementos. É nesse ponto que o acompanhante terapêutico entra como essa rede que articula os elementos desse conjunto, que os põe a funcionar.

Para desemaranhar as linhas de um dispositivo é imprescindível traçar um mapa, mas para isso é necessário percorrer por terras desconhecidas, é o que Foucault chama de trabalho de terreno. É colocar os conhecimentos já obtidos nos vários contextos de vida, mas sempre respeitando a idéia de que cada situação é algo novo, que deve esmiuçado.

Com a teoria de dispositivo Foucault vai contra as idéias universais já que todas as linhas são variações, que não tem se quer coordenadas constantes. O que fica evidente que uma pratica ou abordagem pode funcionar para uma pessoa, mas isso não é um indicativo que ira funcionar para o todo. O sujeito não é universal é singular, unificado, objetivado e subjetivado… Um processo inerente a um dado dispositivo. E cada dispositivo é uma multiplicidade na qual esses processos operam em devir, distintos dos que operam em outro dispositivo.

Kluver Bucy

A síndrome de Kluver Bucy é provocada por alguma lesão no lobo frontal e/ou temporal. A lobotomia nessas áreas leva o sujeito a um quadro de hipersexualidade e inadequação somado a diminuição ou aumento da agressividade.

Muitos artigos fazem uma comparação da síndrome de Kluver Bucy a animais. Essa comparação ocorre, pois os pacientes passam a manifestar comportamentos sem repressão. São pacientes que passam a ter grande prejuízo social já que tem difícil adaptação.

Lobo Frontal:

Situa-se na frente da cissura central e acima da cissura lateral. De uma forma ampla esta relacionada com a motricidade.

No homem, o lobo frontal sofreu uma proeminência ou um abaulamento na parte anterior o que formou a região pré-frontal. Essa região é considerada superior já que tem como funções a elaboração do pensamento, capacidade de atenção e idealização a adequação comportamental a cada situação social ou física. É considerada como a sede da psique (APARECIDA, 1997).

Abaixo do lobo frontal localiza-se o bulbo olfatório que é o órgão sensorial do olfato, também ligado às emoções. Acima do bulbo olfatório localiza-se o córtex olfatório que faz o registro e decodifica os estímulos olfatórios.

OBS: Córtex: camada mais externa do cérebro, rico em neurônios e faz o processamento neural mais sofisticado e distinto. Desempenha um papel central em funções complexas do cérebro como na memória, atenção, consciencia, linguagem, prcepção e pensamento (WIKIPÉDIA).

Lobo Temporal:

Situa-se à frente do lobo occipital e abaixo do lobo parietal. Está relacionado com a audição, a memória e as emoções.

Na porção superior fica o córterx auditivo. Em torno as áreas interpretativas auditivas como tinbres, som, intensidade, etc.

Aparecida (1997) transmite que na porção temporal superior fica situada a área de expressão sensória ou de interpretação da palavra e de reconhecimento destas (área de Wernicke) e  da área da expressão motora,  de articulação da palavra (área de Broca).

As emoções são tambem mediadas pelo lobo temporal, jutamente com o frontal.

Lesão Cerebral:

É uma situação clínica, que anteriormente era denominada paralisia cerebral. A diferença se fez necessária porque a paralisia cerebral é um estado de funcionamento orgânico situado entre o coma profundo e a morte cerebral. Na paralisia cerebral não a mais resposta do cérebro, e sim do tronco encefálico, isto é respostas reflexas.

Na lesão cerebral (neurofisiologia), não há prejuízo total do cérebro, e sim de determinadas áreas, geralmente as áreas motoras, podendo, em alguns casos haver consciência e até mesmo a preservação e integridade da parte cognitiva.

Lesões relacionadas ao lobo frontal e pré frontal:

Traumas ou lesões no lobo frontal ou na região pré-frontal fazem com que o sujeito fique preso obstinadamente a estratégias que não funcionam ou que não consigam desenvolver uma seqüência de ações adequadas (Wikipédia).

Aparecida (1997) descreve também dificuldades na elaboração de pensamentos, adequação de comportamentos em situações sociais, físicas e registros de estímulos olfatórios. A também alteração de personalidade e perda critica.

Lesões relacionadas ao lobo temporal:

Aqui aparecem os prejuízos em relação à parte auditiva como distinguir som, timbre de voz, intensidade (WIKIPÉDIA)

Também no lobo temporal podemos observar dificuldade no reconhecimento da palavra e articulação da palavra.

As emoções também sofrem alguma alteração se houver alguma lesão nessa região, já que estas são mediadas pelo lobo frontal e temporal.

Sistema Límbico:

Machado (1993) traz que a criação do termo Límbico decorre de sua localização, limbus é igual a bordo ou em torno, pois o conjunto de estruturas que o compõem forma uma espécie de anel em torno do tronco encefálico, do hipotálamo e tálamo. É responsável pelas emoções. Tem sua constituição formada por neurônios, que formam uma massa cinzenta.

Funciona em um constante feedback, isto é repete as mesmas funções hipotalâmicas, com a diferença de as mesmas serem mais elaboradas.

O hipotálamo é a sede dos nossos instintos mais primitivos (agressividade, sexualidade, fome, sono, etc.), o sistema límbico também os controla da mesma forma sofre a atuação deles. É tão intensa a correlação anatômica e funcional entre hipotálamo e sistema límbico que o hipotálamo é considerado parte integrante deste sistema (APARECIDA, 1997).

Sendo o homem o animal que possui o neocórtex mais desenvolvido, é também o que possui o sistema límbico mais encoberto e, conseqüentemente, com uma maior censura à sua parte mais instintiva e primitiva. O sistema límbico é a sede do comportamento característico da espécie, isto são os diferentes tipos de registro (córtex – aprendizado), geram diferentes tipos de emoções (sistema límbico) frente a uma determinada situação (Machado, 1993).

Partindo dessa idéia, somente através do aprendizado, que gera o pensamento, que irá gerar a consciência, a qual poderá formar a memória, poderá ser alterada a atuação do sistema límbico.

O sistema límbico esta relacionado com os comportamentos agressivos e sociais:

Comportamento agressivo:

O comportamento agressivo esta, em senso comum como uma manifestação negativa e prejudicial. Entretanto, ela é a mola propulsora para se atingir qualquer objetivo, para qualquer ação ou atividade humana ou animal.

Deve-se considerá-la como uma reação para se tomar uma atitude, defender algo, buscar alimento… E é importante diferenciá-la da violência, sendo esta ultima uma alteração negativa ou inadequada da agressividade (APARECIDA, 1997).

Comportamento Social:

É uma manifestação límbica que deve ser diferenciada de “conduta social” já que esta decorre do aprendizado. O comportamento social límbico esta relacionado à capacidade genética de adquirir status, considera-se uma capacidade inata ou límbica para a liderança ou para o comportamento social.

Por ação cortical ou de aprendizado e pela troca entre límbico e o neocórtex, tal manifestação pode ser alterada em ambos os sentidos. Pode-se fazer um líder de quem não o é limbicamente, ou destruir a capacidade de liderança de alguém (APARECIDA, 1997).

E a possível mudança?

Aparecida (1997) Descreve que o comportamento é estabelecido através de programas determinados filogenética e geneticamente, sendo que cada espécie terá um programa estabelecido de atuação hipotalâmica e límbica. Mas o ser humano por ter um neocórtex, o que proporcionou o aparecimento da linguagem e de formas mais elevadas de consciência e aprendizado, o que permite a dissimulação do comportamento límbico.

Isto ocorre devido à capacidade humana de formular um pensamento, que é levado à consciência e, de uma forma posterior à memória. Isto claro pelo ponto de vista neural.

Partindo da visão neural de funcionamento podemos descrever que: 

  1. Pensamento: é resultado da estimulação de diferentes partes do córtex ao mesmo tempo. Por exemplo, para pensar em uma tarde na praça será acionado o córtex visual, olfativo sensório-motor, etc.
  2. Consciência: É o fluxo continuo de percepção, seja do ambiente onde estou ou da seqüência de pensamentos.
  3. Memória: Ocorre quando o córtex recria o padrão do pensamento ou da ocorrência em outra ocasião que não aquela que se sucedeu. Por exemplo, para pensar “naquela tarde na praça”, você recriou o padrão do pensamento em outro momento que não aquele, porque se formou uma memória daquela ocasião.

Portanto, somente através do aprendizado, que gera o pensamento, que irá gerar a consciência, a qual poderá formar a memória, poderá ser alterada a atuação do sistema límbico.

Lembrando que é a partir do sistema límbico que podemos acessar os instintos mais primitivos como fome, sono, agressividade… Emoções.

Mas em que ponto essas informações se relacionam?

Quando estava cursando o estagio de psicopatologia no segundo semestre do ano passado, 2010, recebemos um novo paciente. Sua passagem foi meteórica, ficou na clinica pouco mais de um mês.

Era um paciente do sexo masculino de doze anos. Ficamos sabendo apenas que havia sofrido uma grave lesão cerebral. A lesão é conhecida pelo nome de difícil pronuncia: Kluver Bucy. O quadro de estagiários passou a buscar informações, mas o paciente estava prestes a iniciar seu tratamento na ambientoterapia. Tive a oportunidade de recebê-lo com outra estagiaria.

O paciente foi empurrado quando estava jogando futebol e bateu com a parte frontal de sua cabeça em uma viga. Ficou um período em coma e o medico que estava cuidando de seu caso colocou que seria necessário fazer uma lobotomia da região frontal do paciente, mas deixou claro que este iria ficar com graves seqüelas.

OBS: Lobotomia é uma intervenção cirúrgica que consiste em seccionar, cortar as ligações de qualquer lobo cerebral que por algum motivo perdeu sua função. No passado essa pratica foi utilizada em casos graves de esquizofrenia.

O paciente chegou cantando, gritando, dançando, usando muitos “palavrões”, extremamente agressivo e com agitação motora constante.

A idéia de dispositivo vem corroborar com este paciente. Em uma clinica psiquiatra a situação de caos e mudança é constante, e a idéia de universalidade não condiz com as situações apresentadas, vivenciadas.

Foi um paciente muito difícil, batia muito e as abordagens que estávamos tentando colocar não estavam surtindo efeito algum. Poucos estagiários ficaram com ele, o que me fez lembrar, hoje, de uma situação de acompanhante terapêutico na instituição. Alguns estagiários ficaram revezando para ficar com o paciente.  No decorrer dos dias o novelo foi sendo desemaranhado.

Ate que chegamos à idéia de que o paciente deveria ficar sentado um minuto a cada insulto, cada vez que batesse… Para cada falta de respeito. Nos primeiros dias chegou a ficar sentado muitos minutos. O interessante é que a cada dia esse período foi diminuindo, o paciente passou a “se controlar”, a controlar seus impulsos. Infelizmente seu tratamento foi interrompido.

As bases biológicas fundamentam a vivência que o paciente teve na clinica. Através de um “novo aprendizado”, colocamos novos pensamentos o que é levado a consciência. Isso promoveu respostas diferenciadas em relação a instintos primitivos como agressividade e seus comportamentos sociais.

Para mim fica clara a abordagem focada que o acompanhante terapêutico pode oferecer para cada dispositivo, ou melhor, cada paciente. Neste exemplo não havia pensado ainda em AT ou algo parecido, mas fica claro que o paciente foi muito beneficiado e principalmente em uma situação tão diferente, impar.

Nessa situação os estagiários se utilizaram de seus conhecimentos técnicos, sua subjetividade, objetividade, do conhecimento de terreno… Tudo isso com atenção e sensibilidade para tentar desfazer essa trama que se apresentou, esse dispositivo único como os outros.

Referencia Bibliográfica:

  1. APARECIDA, Maria Domingues de Oliveira. Neurofisiologia do Comportamento. 1.ed..Canoas: Ulbra, 1997.
  2. MACHADO, Angelo. Neruroanatomia funcional. 2ed. São Paulo: Atheneu, 1993.
  3. www.wikipédia.com.br
  4. FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 7ed. Rio de Janeiro: Forence, 2008.
  5. CARROZZO, Nelson Luiz. Et al. A Rua Como Espaço Clínico- Acompanhante Terapêutico. 1ed. São Paulo, Escuta, 1991.
  6. PELLICCIOLI, Eduardo. Et Al. Cadernos de AT: Uma Clínica Itinerante. 1ed. Porto Alegre, Grupo de Acompanhante Terapeutico Circulação, 1998.
  7. PALOMBINI, Analice de Lima. Acompanhamento Terapêutico: Dispositivo Clínico-Político. Psyche (Sao Paulo) v.10 n.18 São Paulo set. 2006.

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