O acompanhar e o acompanhante terapêutico: formação


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Autora:

  • Eliane Berger – Psicanalista e acompanhante terapêutica, supervisora de Acompanhamento Terapêutico. Tels.: 283.4982 res. 3813.7005 cons. End. Al. Fernão Cardim, 173, ap. 114. São Paulo – CEP 01403-020. E-mail: [email protected]

 

Resumo
Este trabalho faz uma reflexão sobre o tema do acompanhante terapêutico, mostrando a especificidade desta função. Para isso tenta responder o que é acompanhar e então pensar qual a formação necessária para o acompanhante terapêutico. O trabalho contém quatro vinhetas clínicas, a partir das quais pensa a prática do acompanhamento em seu movimento. Ai desenvolve o conceito de “proposições no mundo”, considerando que as proposições de atividades no acompanhamento têm valor de interpretação. Para problematizar a formação do AT analisa-se a importância do processo supervisivo na construção da escuta do acompanhante, assim como a relevância da escrita e do grupo de pertinência, na constituição desta função.

Palavras-chave: acompanhar, formação, supervisão e interpretação.

 

 

El acompañar y el acompañante terapêutico: formacion

Resumen
Este trabajo hace una reflexion del acompañamento terapêutico, mostrando la especificidad de esta funcion. Intenta responder a la pregunta qué es acompañar y luego pensar qual es la formación necessária para el acompañante terapêutico. El trabajo contiene cuatro fragmentos clínicos, a partir de los cuales se piensa la práctica del acompañamiento em sus movimientos. A seguir desenvuelve el concepto de “proposiciones em el mundo”, considerando que lãs proposiciones de atividades em el acompañamento tienen valor de interpretación. Para problematizar la formación del AT se analiza tanto la importância del proceso de supervisión em la construccion de la escucha del acompañante, quanto la importância de escribir y del grupo de pertinência em la constituición de esta función.

Palabras llaves: acompañar-formación- supervisión- interpretación.

 

 

O acompanhar e o acompanhante terapêutico: formação

Quando comecei a pensar sobre essa mesa, me ocorreu que poderia falar sobre o tema do acompanhamento terapêutico a partir da especificidade dessa função. O que seria isso? Seria tentar responder o que é “acompanhar” , para então pensar qual seria a formação necessária para um acompanhante.

Coloco a ênfase na palavra “acompanhar”, porque me parece que é um conceito que vale a pena dar consistência.

Acompanhar, para o AT seria o correlato de analisar para o psicanalista, campo de intervenção que marca e constrói a especificidade desse lugar.

E para dar visibilidade ao campo do acompanhamento terapêutico, muitas cenas me vem a cabeça. Cenas de minha experiência como AT e como supervisora de acompanhantes, cenas muito diferentes entre si, mas que têm em comum essa singularidade, o acompanhar.

– Júlio, acompanhante de nossa equipe, conta sua história. A história da reconstrução do corpo de João. Acompanhamento sutil, que muitas vezes passou por cuidados básicos, como dar banhos, ajudar João a se limpar… João vinha ao hospital-dia, tinha outros terapeutas de referência, mas em casa, a solidão e o contato enlouquecido com os seus pais explodia seus contornos. Ai a experiência do dia na clínica não era suficiente. Júlio ia, como acompanhante terapêutico, junto com João juntar os pedaços de seu corpo. O AT se dispôs a acompanhar a reconstrução de João ali onde seu corpo esfacelado no delírio pedia pele. Acompanhar era dispor-se a construir essa pele com gestos, palavras, silêncios e com presença.

– Lembro-me de Débora Sereno acompanhante de Pedro. Sua “vidinha”, como Pedro a chamava. Débora, que fazia saídas, comidinhas com Pedro, arrumações no seu apartamento, acompanhava Pedro na construção de uma vida possível que tinha sido perdida desde a morte de seu irmão. Pedro era paciente da “A Casa” desde os anos 80. Há já algum tempo, elegera a equipe de ATs como o seu tratamento. Na sua paranóia precisava escapar da equipe de nazistas torturadores instalados na “A Casa”. Pedro precisava de ar (seu irmão morrera afogado). Precisava de proposições no mundo que o ajudassem a descolar de sua morte psíquica. O acompanhar de Débora sempre foi cheio de graça, o que lhe permitia ir com Pedro dos caixões fétidos dos delírios de horror, até propostas de assistir aulas na Faculdade de Arquitetura com muitas risadas. Acompanhar aqui era e é construir com Pedro essas proposições que juntamente com a terapia de família vão lhe permitindo uma vida-vidinha viável.

A idéia de “proposições no mundo”, para o acompanhar é importante. Assim como no caso de João, aqui acompanhar é dispor-se a inventar estratégias que ajudem o sujeito a ganhar consistência. E como se ganha consistência? Num encontro encarnado com o outro, sempre.

– Penso agora em Eliane, acompanhante de Karem, menininha down. Acompanha-la era encontrar com seu ritmo um pouco mais lento (efeito da síndrome de down), e a partir daí, desse outro ritmo, criar possibilidades. Para seus pais essa “paciência” era impossível. Eles estavam muito machucados por terem tido uma filha completamente diferente de seus desejos. Acompanha-los era compreender isso sem cumpabilizá-los. Não dar exercícios para eles fazerem com Karem em casa, como acontece em geral nos espaços de reabilitação, não esperar deles um amor pela filha, ainda impossível. Acompanhar essa família era ir no cotidiano, através de brincadeiras, conversas e com os avanços de Karem, criando espaços para a emergência de outros afetos, além do ódio e do desejo de morte.

Karem teve acompanhamento dos 8 meses até os 6 anos. Sua alta aconteceu junto com sua entrada na escola, momento privilegiado, onde o mundo já é bem maior do que a família, e para esta família em especial, a existência de Karem já não era mais o fim.

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– Isso me faz lembrar de Renata Caiafa e o acompanhamento do Sr. Jonas. Por um tempo Renata acompanhara o Sr. Jonas em longas conversas. O paciente permanecia em geral deitado na própria cama ou sentado em sua poltrona e Renata a seu lado acompanhava a experiência aflitiva de ir percebendo a morte chegar quando se está só. Sr. Jonas se perdia na agitação. Renata lentamente foi se fazendo interlocutora nessa viagem peculiar à morte. No trabalho com a família Renata pode ir transformando a intolerância com a agitação do Sr. Jonas na percepção da proximidade de sua morte. Com o acompanhamento foram percebendo que nas brigas de todos com todos, tentavam evitar a dor da despedida. Sr. Jonas já não estava mais só. Interlocutora-acompanhante e familiares se aquietaram. Sr. Jonas morreu.

Não existem atividades padrão para acompanhar, assim como não existem interpretações padrão em psicanálise. Quando um analista pensa qualquer falta de seus pacientes como um ataque a análise, esta deixando de ser analista por não poder escutar a significação singular deste gesto. Se no acompanhamento terapêutico a um paciente com pânico de sair de casa insistimos em saídas, estamos deixando de ser acompanhantes. Acompanhar é poder escutar a particularidade da experiência de cada paciente pondo-se ao lado, sem pressa, sem um dever ser. Não existe um dever ser no acompanhamento. Sair com um paciente é tão operativo quanto ficar em casa. desde que a escolha do gesto do acompanhante parta do que este entenda ser o momento particular de seu paciente. Sabemos que o projeto do acompanhamento terapêutico diz respeito a restabelecer pontes com o mundo, que os vários tipos de loucuras têm a potência de destruir. Mas o ritmo que estas construções-reconstruções se darão, só cada experiência poderá dizer.É por isso que dizemos que uma boa proposição de atividades no acompanhamento tem valor de interpretação. Mas produzi-la não é simples.

Quero dizer que as boas intervenções demandam do AT muito mais que espontaneidade. Com esta, podemos começar. Afinal todos nós começamos um dia como acompanhantes, e não iniciamos nossa “carreira””já prontos. Mas essa espontaneidade, instrumento inicial há que ser lapidada, retramada, transformada numa certa introspecção que permite ao AT escutar, prestar atenção às vidas radicalmente diferentes de nossos pacientes. E para isso precisamos de supervisão. O processo supervisivo tem a potência de abrir nossos poros, para entrarmos em contacto com o sofrimento do outro. Digo isso porque é preciso estar muito bem acompanhado, na nossa experiência na A Casa, acompanhado por um grupo arrojado e destemido para termos a coragem de nos aproximarmos do sofrimento de nossos pacientes. O sofrimento do outro dói. E dói em quem esta por perto também. Mas é da mistura, no acompanhante, dessa condição de proximidade com o que é radicalmente outro no outro e as mil e uma possibilidades da Cidade encarnadas no AT, essas duas possibilidades juntas que propiciam as belas intervenções.

Mas tornar-se acompanhante também pede palavras escritas. Há muitos anos a escrita tem sido na nossa equipe, o outro lugar de formação. A construção do acompanhamento terapêutico no mundo da clínica nos inquieta, nos instiga, por isso criamos o grupo de escrita, máquina de produção conceitual e de ampliação dos efeitos da clínica em nós. A escrita força, de maneira diferente da supervisão e da análise pessoal, a metabolização da experiência do acompanhar. A escrita permite sermos guerreiros, guerreiros no melhor dos sentidos, daquele que dispõe de suas forças para ir mais longe, ganhar mundo. Acompanhar na nossa equipe é composto então de um triplo vértice. O vértice da clínica, o vértice da escrita e projetos e o vértice da supervisão. Formar-se AT para nós é esse exercício renovado de tornar-se sempre outro, como diria Deleuze, através da clínica, da supervisão e da escrita.

Para terminar quero dizer ainda algumas palavras sobre o grupo. É possível ser um acompanhante cuja formação tenha sido feita fora dos espaços grupais. Mas penso que essa é a escolha de um caminho mais árduo. Fazer parte de uma equipe, na nossa formação da A Casa, tem o sentido de estar acompanhado para poder acompanhar. A experiência cotidiana com pacientes graves, freqüentemente nos tira o chão e é no chão grupal que nos recompomos. Encontrando nossos pares podemos nos descolar da solidão devastadora que em geral consome nossos pacientes, podemos observar outras transferências que estão em jogo nos tratamentos, além de que o espaço grupal é um campo privilegiado para vermos os enganches primários nos quais os acompanhantes ficam presos em seus atendimentos. Por outro lado, é a potência do grupo que nos permite fazer projetos, alçar vôos em cursos, livros, na teorização polêmica sobre a prática e nas pontes com outros saberes. Obrigada.

 

Fonte:

http://www.estadosgerais.org/encontro/o_acompanhar.shtml

 

 

Artigo publicado no “Site AT” em 20/05/2002.

Supervisão em AT.

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