O trabalho clínico do AT: perfil, dificuldades e convívio com os familiares 2


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Autora: Isadora Pellegrini Onófrio – graduanda em Psicologia (PUCRS). Formada no “Curso de Capacitação em Acompanhante Terapêutico” da CTDW. E-mail: [email protected]

1) RESUMO

Introdução: Artigo que mostra o trabalho realizado pelo Acompanhante Terapêutico, enfatizando a importância do mesmo para o tratamento de doentes mentais. O setting utilizado pelo doente mental em suas intervenções será enfatizado por meio de sua importância na atuação terapêutica. O contexto e movimento histórico do surgimento do trabalho do AT não serão excluídos do artigo, bem como as características que um AT deve possuir e a importância de um trabalho com a família do paciente.

Desenvolvimento: Doentes mentais, antigamente, eram isolados e incomunicáveis com o mundo. Com as experiências antipsiquiátricas, os terapeutas buscavam se colocar em lugares do cotidiano. Com o declínio das comunidades terapêuticas, os ATs passaram a executar trabalhos autônomos, tendo o espaço urbano de uma forma criativa, capaz de propiciar saúde. O AT visa à formação de vínculo com o paciente contribuindo para que o mesmo desenvolva uma interação com o contexto social. O AT utiliza os interesses do paciente, servindo como ponte entre o mundo interno e externo do mesmo e dando significado ao seu transtorno. Ao escolher o Acompanhante Terapêutico, deve-se levar em conta características individuais e grau de instrução. Deve-se levar em conta o grupo familiar por trás do paciente, identificando possíveis funcionamentos disfuncionais, bem como ajudar no manejo com este paciente, sem esquecer-se da contratransferência.

Considerações finais: Trabalho do AT é muito importante para o doente mental. Ele é visto como um desafio, pois se necessita estar sempre atento, escutando e criando. Ele é visto como um elo entre o paciente e sua família, deixando a mesma integrada sobre o tratamento, sem deixar de colocar limites nesta relação.

Palavras-chaves: AT, setting, doente mental, família.

 

1) ABSTRACT

Introduction: Article shows that the work of the Companion Therapy, emphasizing its importance for the treatment of mental patients. The setting used by the mentally ill in their interventions will be emphasized through its role in therapeutic action. The historical context of the emergence and movement of the work of AT will not be excluded from the article, as well as the characteristics that must have an AT and the importance of working with the patient’s family.

Development: Mental patients formerly were isolated and incommunicated with the world. With the experiences anti-psychiatry, therapists sought to put in places of everyday life. With the decline of therapeutic communities, the ATs began to run self-employment, and urban space in a creative, capable of health. The AT aims to bond with the patient that it contributes to develop an interaction with the social context. The AT uses the patient’s interests by serving as a bridge between the inner and outer worlds of the same and giving meaning to their disorder. When choosing the Companion Therapy should take into account individual characteristics and level of education. One should take into account the family group behind the patient, identifying possible dysfunctional workings as well as help in managing this patient, without forgetting the counter.

Conclusion: Work AT is very important for the mentally ill. He is seen as a challenge, because it needs to be always attentive, listening and creating. He is seen as a link between the patient and his family, leaving on the same integrated treatment, while placing limits on this relationship.

Keywords: AT, setting, mental patient, family.

 

 

2) INTRODUÇÃO

O presente estudo mostrará o funcionamento do trabalho realizado pelo profissional AT, apontando a importância deste trabalho para o tratamento de pessoas com transtornos mentais dos mais diversos, bem como as dificuldades encontradas por este profissional no exercício de seu trabalho com doentes mentais.

O trabalho falará do setting utilizado pelo Acompanhante Terapêutico em suas intervenções, enfatizando a sua importância na adaptação do paciente ao meio social e familiar, bem como participar do cotidiano do mesmo, através dos diferentes recursos oferecidos pelo setting e utilizados pelo AT na atuação terapêutica. Também apontará o que este setting representa para o paciente que está desfrutando de um Acompanhante Terapêutico.

Será apresentado também o contexto e movimento histórico no qual o trabalho de AT se deu e que forças participaram da criação da sua clínica.

Também serão realizados apontamentos acerca da escolha da pessoa que realizará o papel de Acompanhante Terapêutico, considerando aspectos importantes como qualidades individuais e grau de instrução.

Por último serão realizados apontamentos a cerca da família do paciente com Acompanhante Terapêutico. Será possível identificar expectativas e frustrações dos familiares bem como o manejo do profissional AT com estes.

           

3) DESENVOLVIMENTO

 

3.1) UM POUCO DA HISTÓRIA DO AT

Antigamente o doente mental era visto como um alienado da sociedade e perigoso à sua estrutura. Por conta disso, a medida mais freqüente era a internação, pois ela visava isolar e excluir o doente mental do convívio com os demais. Estes eram mantidos em ambientes que impediam as trocas com o mundo exterior. Assim sendo, a indiferença, o isolamento e a incomunicabilidade que são características comuns das doenças mentais, eram reforçadas pela estrutura de isolamento no qual estavam submetidos.

O Acompanhamento Terapêutico (AT) surgiu com as experiências antipsiquiátricas. Elas buscavam colocar os terapeutas em lugares diferentes dos tradicionais. Eles eram postos em lugares do cotidiano, lugares comuns para os pacientes e os terapeutas. Assim, o cotidiano tornou-se um espaço terapêutico e também um espaço diferente dos locais de tratamento psiquiátrico.

Nas décadas de 60 e 70, o AT era visto como uma estratégia clínica, ou seja, como um auxiliar assistencial do psicoterapeuta para o tratamento de pacientes com graves psicopatologias. Era visto como alguém que executava comandos do psicoterapeuta. Na mesma época, no Brasil, o termo AT já é pensado como uma abordagem que utiliza a rua como clínica.

Na época da ditadura brasileira, as comunidades terapêuticas entraram em declínio. Os profissionais ATs perderam seus cargos institucionais e os hospícios voltaram a buscar o controle total dos pacientes que lá estavam, através de programas de treinamento, somente acreditando na melhora através da medicalização.

Mesmo com a falência das comunidades terapêuticas, os ATs continuaram a ser solicitados pelos psicoterapeutas e também pelos familiares dos pacientes que acreditavam que este trabalho era eficiente. Estes profissionais passaram a executar trabalhos autônomos, uma vez que não possuíam mais uma equipe de referência. Esta prática deixa de ser apenas assistencial e auxiliar e passa a ser também uma prática Clínica, tendo o espaço urbano como setting terapêutico. O próprio profissional AT passa a ser visto como provedor de saúde, mostrando-se como uma clínica resistente à burocratização, ao modelo manicomial e a hierarquização da atividade terapêutica.

Os ATs, de acordo com Silva (2005), passaram a ir até os pacientes nas suas casas, apartamentos, sítios, andar pela cidade circulando pelos possíveis campos de ação. A rua se torna uma rede de forças capaz de propiciar saúde tanto quanto o psicoterapeuta.  Ela é vista de uma perspectiva criativa.

3.2) A CLÍNICA AT

Conforme já mencionado no capítulo anterior, o AT utiliza a rua como espaço terapêutico, ou seja, ela é utilizada como setting. O profissional AT integra a vida cotidiana do paciente por um número de horas pré-estabelecido, visando à formação de vínculo com ele. Cada profissional vai construindo a sua clínica, conforme o referencial teórico que mais o agrada.

Ao usar a rua como setting, conforme relatado por Pellicioli et al (1998)o profissional AT busca possibilitar ao paciente a tomada de uma outra integração possível no contexto social. Este tenta adaptar o paciente a sociedade em que vive explorando suas potencialidades transformadoras de uma situação de crise, a compreensão e intervenção na dinâmica familiar e na rede social.

O trabalho do Acompanhante Terapêutico também consiste em escutar o inconsciente do paciente para assim poder demarcar o paradigma com qual o trabalho será realizado. Qual referencial teórico será utilizado com aquele paciente. Esta escuta consiste também em observar os gestos, limitações e criatividade do paciente.

O AT intervém no cotidiano do paciente, aproveitando seus interesses para buscar outra integração possível. Ele não só leva o paciente para passear na rua, ir ao cinema, a uma praça, a um restaurante ou até mesmo a andar por sua casa como também o acompanha dando o significado ao mesmo de seu transtorno. Ele intervém e interpreta a conduta do paciente não somente pela fala, mas também por gestos, olhares, pelo silêncio e até mesmo pela sua própria presença.

Este profissional reapresenta o mundo para o paciente, fazendo com que este possa reencontrar a melhor forma para que isso ocorra. Ao lidar com a rua o paciente pode significar algo jamais vivido anteriormente e que é capaz de revelar coisas surpreendentes. É um trabalho tido como uma construção da existência, capturando o inédito de cada passeio pelos diferentes ambientes onde o AT funciona como uma ponte entre o mundo interno e o mundo externo do paciente.

De acordo com A Casa (1991) o Acompanhante Terapêutico é um intérprete ativo, pois atua no mundo real, concreto e cotidiano do paciente. Exerce um papel de investigador social, pois está no lócus do mesmo funcionando este lócus como um contexto terapêutico ampliado.

O trabalho do AT também é visto como um desafio, pois se caracteriza por um constante exercício de escutar e criar. Assim sendo, ao circular por diversos espaços com o paciente, cria-se uma postura terapêutica.

Este trabalho também é visto como sendo difícil, pois o AT precisa conviver com um diagnóstico que muitas vezes causa desespero a família do paciente e precisa desconstruir o que já está estabelecido. O paciente é alguém que deseja se inserir ou se reinserir de forma prazerosa no cotidiano. É alguém que deseja recuperar os sentidos acometidos pelo seu transtorno mental.

Sentimentos de ambivalência por parte do paciente em relação à presença do Acompanhante Terapêutico são freqüentes. Isso faz com que o AT precise de observação, atenção e manejo especial.

Ao executar a clínica do AT, deve-se pensar ao redor, ou seja, perceber os mecanismos de exclusão das diferenças, os jogos de poder e as relações entre poder e conhecimento.

3.3) A ESCOLHA DO PROFISSIONAL AT

Quando escolher uma pessoa para preencher o papel de Acompanhante Terapêutico é importante que se considerem dois aspectos, qualidades individuais e grau de instrução.

É fundamental que o AT possua qualidades individuais, que seja uma pessoa saudável, que tenha vocação para lidar com problemas referentes a saúde mental, ter capacidade de trabalhar em equipe, facilidade em adaptar-se a situações inesperadas, ter controle sobre a ansiedade, ser capaz de tolerar frustrações, poder colocar-se como observador participante.

Valores pessoais como a simpatia, o carinho pelo doente, a imparcialidade a constância, a disciplina e a receptividade, existentes na pessoa do AT, ao serem estimuladas e excitadas, podem auxiliar o paciente.

Na escolha da pessoa que realizará o AT com determinado paciente é importante que esta pessoa tenha características individuais que sejam compatíveis com o paciente. Isso posto, dificuldades na formação de vínculo pela diferença de estilos pessoais, não surgirão. É muito importante que o paciente se identifique com alguém com quem gostaria ser parecido. Dentro das características individuais se incluem aspectos físicos como idade, sexo, maneira de se vestir e a maneira como o AT se comunica.

3.3) A FAMÍLIA DO PACIENTE COM AT

Ao começar um trabalho de Acompanhante Terapêutico com um paciente, deve-se sempre levar em conta o grupo familiar que está por trás dele, pois o trabalho sempre inicia dentro de um contexto de intenso sofrimento por parte do paciente e de sua família. O AT gera na família um sentimento de ambivalência, onde ao mesmo tempo em que causa o alívio da angústia vivida gera uma dificuldade em aceitar uma pessoa de fora na dinâmica familiar.

Este profissional é recebido pela família como alguém que é capaz de mostrar o funcionamento muitas vezes disfuncional da dinâmica familiar, o papel ocupado pelo doente na família e os benefícios que o adoecimento do paciente trás para os demais membros constituintes da mesma.

Assim sendo, é fundamental que o AT realize um trabalho não só com o paciente, mas também com toda a sua família, porque desse trabalho depende o sucesso do tratamento. Embora o AT não seja um terapeuta de família, ele causa uma influência significativa na mesma, pois o seu contato periódico adquire um caráter terapêutico. É importante que o AT tenha bastante presente o fato de o paciente fazer parte de uma conjunção familiar, ou seja, que ele não é alguém isolado do mundo.

Muitas vezes, não se faz possível que haja um distanciamento significativo do paciente, do AT e da sua família. Assim sendo, por conta disso, a família acaba projetando neste profissional uma expectativa com relação a um melhor desempenho nas suas dificuldades junto com o paciente e por conta disso, busca nele um apoio para as questões que lhe geram sofrimento. Desta forma é importante que o AT fique alerta a contratransferência para que ela não interfira na relação com o paciente e com a família. Ele deve usar o fenômeno contratransferencial como uma ajuda para a percepção da dinâmica familiar.

O AT serve como um elo do paciente com a sua família. Ele oferece ao mesmo a possibilidade de compreender seus sentimentos e percepções sobre a relação familiar.

Ás vezes a família do paciente com acompanhante terapêutico interfere negativamente na relação de vinculação do paciente e do AT. Ela pode interferir através de manifestações de ciúme, inveja, raiva, boicotes, entre outras.

É importante ressaltar que o Acompanhante Terapêutico, além das funções já mencionadas, pode auxiliar a família do paciente no sentido de explicitar a esta as potencialidades do tratamento. Ele deve explicar a família o próprio trabalho que será realizado com o paciente e isto deve ser feito logo no início, no estabelecimento do contrato.

O AT não deve esquecer, porém, que o paciente pode ter dificuldade para se separar do grupo familiar. Com isso, o paciente pode mostrar a patologia da família para sentir-se menos culpado por sua doença. Assim sendo, o AT deve estar preparado para lidar com estas situações, sempre procurando integrar a família ao tratamento, mas sem deixar de estipular limites nesta relação.

4) CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Diante do artigo apresentado, foi possível concluir que o trabalho do profissional AT é muito importante para o paciente doente mental e não data de muito tempo. Ele surge na necessidade de colocar o terapeuta em um lugar diferente do tradicional, onde o doente mental era isolado e mantido em instituições fechadas. Este profissional visa colocava o doente mental em contato com o ambiente externo, direcionando o mesmo a lugares do cotidiano tanto do terapeuta quanto do paciente.

Com o declínio das comunidades terapêuticas, os ATs perderam seus cargos institucionais, mas continuaram sendo requisitados por psicoterapeutas e familiares de pacientes com transtornos mentais. Eles então passaram a exercer trabalho autônomo passando a sua prática a ser clínica e utilizando a rua como setting terapêutico. Estes profissionais vão até o paciente na sua residência levando o paciente para a rua, um espaço terapêutico capaz de produzir mudanças. Ela é vista de uma forma criativa.

O AT vai construindo o vínculo com o paciente trabalhando com o referencial teórico que mais lhe agrada. Ao tentar adaptar o paciente a sociedade em que vive o profissional Acompanhante Terapêutico busca explorar as potencialidades do paciente bem como a compreensão e intervenção no grupo familiar.

O trabalho do AT é visto como um desafio, pois é preciso estar sempre atento, escutando e criando, além disso, o AT precisa conviver com um diagnóstico que pode causar desespero na família do paciente e precisa desconstruir o que já está estabelecido por este diagnóstico.

Ao executar o seu trabalho clínico o AT deve pensar ao redor percebendo os mecanismos de exclusão das diferenças, os jogos de poder e as relações entre poder e conhecimento.

O AT precisa possuir qualidades individuais, sendo uma pessoa saudável, com vocação para lidar com problemas referentes a saúde mental, tendo capacidade de trabalhar em equipe, facilidade em adaptar-se a situações inesperadas, tendo controle sobre a ansiedade, sendo capaz de tolerar frustrações e podendo colocar-se como observador participante.

O AT deve possuir características individuais que sejam compatíveis com o paciente, para que este se identifique com o AT e busque se parecer com ele.

Deve-se levar em conta, o grupo familiar que está por trás deste paciente, o sentimento de ambivalência que gera neste grupo, sendo capaz de mostrar o funcionamento da dinâmica familiar e o papel do paciente dentro desta dinâmica. Ele precisa fazer um trabalho também com a família do paciente doente mental, causando uma influência positiva na mesma.

O AT serve como um elo do paciente com a sua família, explicando para ela as potencialidades do tratamento e o trabalho que será realizado com o paciente. Sempre deixando a família integrada ao tratamento, sem deixar, porém, de estipular limites para esta relação.
4) REFERÊNCIAS

  1. CERQUEIRA, Áurea Chagas. Acompanhamento Terapêutico: um olhar sobre a família. Brasília: www.acompanhamentoterapeutico.hpg.ig.com.br, 2002.
  2. EGGERS, José Carlos. O Acompanhante Terapêutico: Um Recurso Técnico em Psicoterapia de Pacientes Críticos. Porto Alegre: Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 1985.
  3. EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL DIA- A CASA. A rua como espaço clínico: acompanhamento Terapêutico. São Paulo: Escuta, 1991.
  4. MAUER, S.K e RESNIZKY, S. Acompanhantes Terapêuticos e pacientes psicóticos. Campinas: Papirus, 1987.
  5. MITTMANN, Nauro e PELLICIOLI, Eduardo. Cadernos de AT: Uma clínica itinerante. Porto Alegre: Grupo de acompanhante Terapêutico Circulação, 1998.
  6. SILVA, Alex Sandro. A Emergência do Acompanhamento Terapêutico: o processo de constituição de uma clínica. Porto Alegre: Dissertação de mestrado na UFRGS, 2005.

O trabalho clínico do AT: perfil, dificuldades e convívio com os familiares
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