Breves considerações sobre Acompanhamento Terapêutico: autismo, família e sociedade


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Resumo: este artigo visa abordar a prática de acompanhamento terapêutico e autismo. Também, conceituar de forma breve esse transtorno global do desenvolvimento, que gera prejuízos na comunicação, interesse social e aprendizagem. Prejuízos esses que implicam em adaptações para a família e para a sociedade, e geram campos de atuação para a essa modalidade de intervenção em saúde mental.

Palavras-chave: Autismo, Acompanhamento terapêutico, família e sociedade.

Breves considerações sobre AT: autismo, família e sociedade

INTRODUÇÃO

Este artigo trata da possível relação pratica do Acompanhamento Terapêutico (AT) com o autismo. Ele também conceitua essa patologia e expõe algumas dificuldades na família e na sociedade.

O autismo é uma doença caracterizada por falhas de processos nas áreas da socialização, comunicação e aprendizagem. Devido a essa forma de funcionamento falho, entendo como muito importante e necessário o trabalho de AT com autistas.

Esses indivíduos precisam de estimulação constante nessas áreas e em todos os contextos, para que se aproximem de uma vida normal. Aqui se inicia a possibilidade de AT; a atuação em um setting diferenciado. Conforme Coda (2010) o AT é uma clínica nova, que promove atendimento psicológico diferenciado e especifico ao paciente, com a possibilidade de realizar atividades em locais distintos. Segundo Barreto (1997), o AT é uma prática que visa potencializar o sujeito e re-significar sua simbolização do cotidiano aproximando-o da realidade compartilhada.

A família de indivíduos portadores de autismo se vê frente ao desafio de ajustar seus planos e expectativas quanto ao futuro, às limitações desta condição, além da necessidade de adaptar-se à intensa dedicação e prestação de cuidados das necessidades específicas do filho. As características clínicas que afetam o indivíduo aumentam a demanda por cuidados e conseqüentemente a dependência dos pais e/ou cuidadores, situação que pode constituir um estressor familiar (SCHMIDT & BOSA, 2003).

Devido a essa possível demanda da família, Silva (2006) alerta para que o acompanhante terapêutico esteja atento para que não seja colocado no papel de “salvador” e responsabilizado pelo sucesso ou fracasso da intervenção. Ainda segundo Silva (2006) a relação com a família do paciente deve ser bem estabelecida para que ela não se torne um elemento negativo a prática de AT. Deve-se tratá-la como elemento importante no processo clínico, levando em conta sua dinâmica pra que não se torne sabotadora do processo.

A questão social abrange a inclusão desses portadores de necessidades especiais de forma correta. A comunidade social busca na inclusão o máximo de autonomia ao deficiente intelectual. Conforme Weschenfelder (1996), a integração social é quem constrói a identidade sócio-cultural. O surgimento da prática do AT vem ao encontro desses pensamentos. A reforma psiquiátrica e a reabilitação psicossocial, primórdios do AT, buscam trazer o individuo de sua situação de dificuldade para criar algo novo que articule essa pessoa em seu espaço social. (Pitia et al 2009  Apud Fonseca).


1.1 Autismo

O autismo é uma síndrome comportamental com etiologias diferentes, na qual o processo de desenvolvimento infantil encontra-se profundamente distorcido (BOSA, 2000). Leboyer (2007) define o autismo como um distúrbio de desenvolvimento a tal ponto complexo que nenhum modelo, nenhuma abordagem clínica, metodológica ou terapêutica poderia, por si mesmo, abranger a verdade.

A primeira descrição dessa síndrome foi apresentada pelo psiquiatra Léo Kanner, em 1943, com base em onze casos de crianças que ele acompanhava e que possuíam algumas características em comum: incapacidade de relacionar-se com outras pessoas, severos distúrbios de linguagem (sendo esta pouco comunicativa), fascinação por objetos e destreza no manuseio deles e um ansioso e obsessivo desejo de preservar a imutabilidade do ambiente e/ou rotinas familiares (ELLIS, 2001).

Ainda que Kanner (apud Schwartzman & Assumpcão, 1995) relacionasse o autismo à esquizofrenia infantil, considerando até a possibilidade do Autismo Infantil ser uma manifestação precoce da esquizofrenia infantil, ele postulou que os dois quadros deveriam ser vistos como distintos, mas considerava o autismo uma verdadeira psicose. Durante muito tempo ele manteve a doença dentro do grupo das psicoses infantis. Porém a partir de 1979 o autismo é definido como uma síndrome comportamental de um quadro orgânico (Schwartzman & Assumpcão, 1995).

No DSM-IV (2002) o autismo é classificado como uma síndrome que pertence aos Transtornos Globais do Desenvolvimento e se manifesta no comprometimento de três áreas: socialização, comunicação e aprendizagem.

Para Rhoden (2006) geralmente quem possui o transtorno apresenta um quociente de inteligência (QI) abaixo da média. Entretanto os autistas podem ser tratados e desenvolver suas habilidades de uma forma mais intensiva do que outra pessoa que não apresenta o quadro e, então, assemelhar-se muito a esse indivíduo em alguns aspectos de seu comportamento.

O desenvolvimento dessas habilidades dependerá de seu grau de comprometimento e da intensidade e adequação do tratamento que, em geral, é realizado por uma equipe multidisciplinar, nas áreas de fonoaudiologia, psicologia, educação física, entre outras.  Porém, é importante salientar que sempre existirá um déficit nas áreas atingidas pelo autismo, principalmente de comunicação e interação social.

O início do autismo é sempre antes dos três anos de idade. Os pais normalmente começam a se preocupar entre os 12 e os 18 meses, na medida em que a linguagem não se desenvolve.

Ainda que os pais possam estar preocupados pelo fato de que a criança não escuta (devido à falta de resposta às abordagens verbais), normalmente eles podem observar que a criança responde de forma dramática aos sons de objetos inanimados; ocasionalmente, os pais relatam retrospectivamente que a criança era “demasiadamente boa”, tinha poucas exigências e tinha pouco interesse na interação social. Isso contrasta claramente com as crianças com desenvolvimento normal, para as quais a voz e a interação social estão entre as características mais evidentes do desenvolvimento (KLIN, 2006).

Ainda conforme Klin (2006) os pais podem relatar que a criança parecia desenvolver alguma linguagem e, então, a fala permaneceu no mesmo patamar ou perdeu-se; tal histórico é relatado em cerca de 20 a 25% dos casos. Claramente, esta sensibilidade aos atrasos e desvios no desenvolvimento social é maior em famílias em que um irmão mais velho já tenha sido diagnosticado com autismo. Ocasionalmente, os pais de crianças autistas com alto grau de funcionamento podem se preocupar menos no primeiro ou no segundo ano de vida, especialmente se a fala e a linguagem estiverem surgindo, mas mesmo nesses casos os pais ficam preocupados antes dos três anos de vida, na medida em que os graves déficits na interação social se tornam mais aparentes em outras situações além do contato próximo com os pais.

Conforme dados apresentados por Rhoden (2006) dois terços das pessoas autistas têm um desfecho pobre (incapazes de viver independentemente) e talvez somente um terço é capaz de atingir algum grau de independência pessoal e de auto-suficiência como adultos; entre estes, a maioria pode ter um desfecho razoável (ganhos sociais, educacionais ou vocacionais a despeito de dificuldades comportamentais e de outra ordem), ao passo que uma minoria pode ter um bom desfecho (capacidade de exercer atividade profissional com eficiência e ter vida independente).

1.2 Autismo, Família e AT

Umas das funções do acompanhante terapêutico é servir de catalisador das relações familiares (MAUER & RESNIZKI, 1987). O acompanhante terapêutico deve ser continente para o paciente em relação à dinâmica familiar. Qualquer intervenção que enfoque menos o individuo e mais o sistema familiar é denominada terapia familiar (OLSON APUD AYUB, 1996).

Cabe ao acompanhante terapêutico orientar a família. Se for o caso, estruturar tratamento multidisciplinar, neurologista, psicólogo, terapeuta ocupacional, fonoaudióloga, etc, dentro daquela realidade, orientar quanto ao manejo de situações de crise, ser um multiplicador das técnicas que funcionam com o acompanhado, identificar o papel daquele individuo na família, promover a autonomia do individuo, acolher essa família de forma correta e impondo limites, orientar quanto ao controle da medicação e tudo aquilo que o acompanhante achar pertinente para o tratamento.

O acompanhante terapêutico deve ter a família do paciente como um forte aliado para o sucesso de sua intervenção. Ela é uma fonte terapêutica. Quanto mais saudável for o funcionamento familiar melhor será as condições de cuidar do doente

Conforme Gauderer (1996) a psicoterapia pode auxiliar os pais no tratamento com seus filhos, o objetivo principal é poder orientá-los sobre a melhor maneira de manejo, visto que na maioria das vezes a criança autista tem comportamentos agressivos e difíceis de lidar. No segundo momento, ajudar estes pais a diminuir a culpa existente e ajuda-los a manter um bom relacionamento com seus filhos. Então, faz-se necessário tratamento da família, mas ficando claro o papel do acompanhante terapêutico cujo foco é o paciente.

1.3 Autismo, Sociedade e AT

É de extrema importância auxiliar crianças e jovens a melhorar o desenvolvimento de aptidões sociais, para que estes possam sentir-se mais à vontade em um mundo que é, em grande parte, social (WILLIAMS & WRIGHT, 2008). Os autores acreditam que esta ajuda precoce reduz o isolamento e a ocorrência de comportamentos repetitivos. Ellis (2001) concorda com a idéia de que a educação precoce favorece o desenvolvimento do indivíduo autista, pois a finalidade principal é que estas pessoas conquistem a independência máxima.

Entretanto, em muitos momentos os autistas precisarão de uma trégua do mundo social, considerando que para eles esta inclusão exige um cuidado maior.  Ao AT cabe desenvolver essas aptidões do individuo e estimula-lo. A intenção de se trabalhar com esses indivíduos é pelo fato de fazê-los conhecer o mundo que fica fora de suas barreiras. Para isso, o convívio fora de instituições e com outras pessoas é importante.

Sabemos que uma simples mudança de ambiente pode provocar uma grande crise. Parar tanto se deve estimular conhecer novos ambientes respeitando os limites do paciente, mas também os tirando de sua zona de conforto.

Para Rhoden (2006) a partir do momento que se diz que esta identidade está sendo criada através do diálogo da criança e dos grupos sociais, criam-se duas faces: a da valorização e a da rejeição. Para a autora a escola deve ser uma fonte importante para o desenvolvimento da valorização e diminuição da rejeição, pois é um meio de incluir o paciente na sociedade e eliminar o processo ativo da discriminação, exclusão e estigmatização.

Para que haja oportunidade de construção social é preciso que as escolas quebrem o estigma de não trabalhar com portadores de necessidades especiais (PNE) e construam um novo modelo de atuação. Conforme Cacciari & Bernardi (2005), é muito freqüente a exclusão de alunos que não se adaptam as regras da instituição devido a sua condição especial: autismo, hiperatividade e até mesmo as que não conseguem acompanhar e se desenvolver de acordo com o que seria esperado delas. Para as autoras os argumentos usados pelas escolas para a não aceitação de portadores de necessidades especiais são um reflexo de sua incapacidade em trabalhar com  os mais diversos contextos que necessitam uma forma específica de metodologia.

Elas deveriam se adaptar a nova demanda e não querer enquadrar os alunos no seu método. É preciso desenvolver nas escolas de classes comuns um trabalho terapêutico em conjunto, visando sempre o melhor e mais aceitável método para o desenvolvimento deste educando. Segundo Sereno (2010) “o AT na escola é levar a clinica para lá”. E segue dizendo que é uma articulação radical, pois está se invertendo o processo, já que agora experiências patológicas estão migrando para a escola e não mais o contrário.

O movimento inclusivo nas escolas, por mais que seja ainda muito contestado e de caráter ameaçador de toda e qualquer mudança, especialmente no meio educacional, é irresistível e convence a todos pela lógica de seu desenvolvimento social (ELLIS, 2001).

Dentre todos os fatores citados, há que se ter o cuidado de não confundir inclusão com colocação, a partir da idéia de que “democratizar as oportunidades educacionais” seja apenas colocar alunos portadores de deficiências nas escolas, o que não significou um ato democrático, no sentido de dar oportunidades iguais para todos. Uma vez que na medida em que o acesso esteja garantido, torna-se necessário assegurar-se de que a permanência se dê com qualidade (CIACCARI & BERNARDI, 2005).

Além do mais, Ellis (2001) ainda cita a importância da família em todo este processo de inclusão social e destaca que muitas vezes é necessário que elas sejam treinadas para utilizar técnicas comportamentais que auxiliam no desenvolvimento do paciente e lhes ajudam a lidar com situações de estresse.

CONCLUSÃO

O AT como pratica de intervenção em saúde mental é bastante indicado para o transtorno autista. As debilidades dessa patologia necessitam de estímulos e desenvolvimentos constantes para uma melhor chance de evolução do quadro. Pratica essa que corresponde ao papel do AT e pode ser desenvolvida nas diversas áreas de vida do paciente.

O trabalho prestado pelo acompanhante terapêutico deve ter o apoio da família por ser também terapêutica, e por ser peça fundamental para a aceitação ou não da modalidade de AT. A relação acompanhante e família deve ser muito bem conduzida, tendo o acompanhante bem claro seu papel e seu foco de atuação.

A inclusão de autistas através do AT é uma realidade. Autistas de alto funcionamento podem ter uma vida próxima do normal se bem acompanhados e desenvolvidos no contexto social real. Autistas com prejuízos severos podem se desenvolver bastante se conduzidos de forma correta, melhorando sua condição de fala, interesse e relacionamento com seu contexto social.

REFERÊNCIAS

  1. AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION. DSM-IV-TR: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 4. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002.
  2. AYUB, P. Do Amigo Qualificado ao Acompanhante Terapêutico. Disponpível em: http://www.psiquiatriainfantil.com.br/revista/edicoes/Ed_04_2/in_10_08.pdf Acessado em 05/08/2011
  3. BARRETO, K.D. Uma proposta de visão ética no acompahnamento terapêutico. In: A CASA. Equipe de acompanhamento terapêutico.(Org). Crise e Cidade. Acompahnamento terapêutico. São Paulo: Educ, 1997.
  4. BOSA, Cleonice. Atenção compartilhada e identificação precoce do autismo. Psicol. Reflex. Crit., 2002, vol.15.
  5. CACCIARI, M. F e BERNARDI, R. M. Ressignificando a prática: Um caminho para a inclusão. Constr. Psicopedag. V. 13, São Paulo, 2005. Disponível em:
  6. CODA, Vicente. Acompanhamento terapêutico e a terceira idade: Da constituição de uma clínica a promoção de saúde. Disponível em: http://siteat.wordpress.com/2010/01/02/vicente/. Acessado em 05/08/2011.
  7. ELLIS, Kathryn. Autismo. Rio de Janeiro : Revinter, c1996. 181 p
  8. GAUDERER, E. Christian. Autismo e outros atrasos do desenvolvimento: uma atualização para os que atuam na área: do especialista aos pais. Brasília (DF): CORDE, 1993. 348 p. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1415-69542005000100011&script=sci_arttext
  9. KLIN, Ami. Autismo e síndrome de Asperger: uma visão geral. Rev. Bras. Psiquiatr., Maio 2006, vol.28.
  10. LEBOYER, Marion. Autismo infantil: fatos e modelos. 6. ed. Campinas: Papirus, 2007. 192p.
  11. MAUER, S.K.; RESNIZKI, S. Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicóticos. São Paulo: Papirus, 1997.
  12. PITIA et al 2009 APUD FONSECA, K.B. Um panorama geral sobre o acompanhamento terapêutico. Disponível em: http://siteat.wordpress.com/2011/05/26/karla/. Acessado 05/08/2011.
  13. SCHAWARTZMAN, José S.;  ASSUMPÇÃO Jr, Francisco B. Autismo infantil. São Paulo: Memnon, 1995. 285 p.
  14. SCHMIDT, Carlo; BOSA, Cleonice. A investigação do impacto do autismo na família: Revisão crítica da literatura e proposta de um novo modelo. 2003
  15. SERENO, Débora . O acompanhamento terapêutico e inclusão escolar. Disponível em: http://siteat.wordpress.com/2010/02/17/deborah-2/. Acessado em 05/08/2011
  16. SILVA, A. S. T. Acompanhamento Terapêutico e Família do Paciente. Disponível em: http://siteat.wordpress.com/2006/12/23/alex-6/. Acessado 05/08/10.
  17. SPROVIERI, Maria Helena S. e ASSUMPÇÃO Jr, Francisco B. Dinâmica familiar de crianças autistas. Arq. Neuro-Psiquiatr., Jun 2001, vol.59.
  18. WILLIAMS, Chris; WRIGHT, Barry. Convivendo com o Autismo e Síndrome de Asperger. M. Books, 2008.

Autor: Tiago Araújo Duarte – Graduando em Psicologia pela PUCRS, acompanhante terapêutico (at). Formado no “Curso de Capacitação em AT” (CTDW). E-mail: [email protected]

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