Isso é um trabalho para a dupla dinâmica! O acompanhante terapêutico no ambiente escolar

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Resumo: o presente artigo trata de uma breve revisão bibliográfica sobre a importância do Acompanhamento Terapêutico (AT) no ambiente escolar com o objetivo de esclarecer o papel do acompanhante escolar (at) e sua atuação com pacientes dentro da sala de aula. No final dos anos 1990, época em que foi criada a Lei Federal que prevê a inclusão de alunos com necessidades especiais na rede de ensino, o AT passa a ganhar um novo campo de atuação. Alguns dos artigos revisados apontam sobre o pouco preparo das instituições em acolher o aluno de inclusão, devido à atenção especial que deve ser dispensada ao aluno com debilidades, geralmente crianças com distúrbios globais (autismo, psicose, neuroses, etc.). Atendendo a crescente demanda, na modalidade particular, sendo contratado e pago pelos responsáveis do paciente, o at tem sido nos últimos tempos, um personagem frequente e efetivo em sala de aula.

Palavras Chave: acompanhante terapêutico, aluno de inclusão, AT Escolar.

 

Isso é um trabalho para a dupla dinâmica! O acompanhante terapêutico no ambiente escolar

INTRODUÇÃO

No final da década de 60 nos países escandinavos houve um intenso questionamento sobre o descaso em instituições residenciais e a forma cruel com que eram tratados os pacientes.

Bank-Mikkelsen e Nirje tomaram frente dessa discussão e propuseram uma solução simples para o eterno desconforto dos considerados alienados: Propuseram que todos os pacientes tivessem uma vida normal e que lhe fossem apresentados situações de igualdade de direitos oportunizando assim a participação dentro dos contextos culturais e sociais.

Desde esta época um intenso movimento cresceu mundo afora. (BANK MIKKELSEN) (NIRJE).

Em 1977 nos Estados Unidos Leis Federais passaram a garantir que a educação pública fosse um direito nacionalmente reconhecido e assegurado a todas as crianças sem restrições. Esse conceito chegou ao Brasil somente no final dos anos noventa, quase duas décadas depois. (BOOTH, AINSCOW, 1998).

Mesmo com o atraso em relação aos outros países a Lei entrou em vigor no Brasil rapidamente, tendo de ser acatada por todas as Instituições sem um período prévio de treinamento. (Lei 9.394/96 BRASIL, 1996).

Dentro da realidade brasileira onde a Instituição de Ensino e alunos de inclusão se encontra em fase adaptativa, pacientes com debilidades e limitações patológicas tem sido auxiliados com frequência pela figura do acompanhante terapêutico (at).

 

 

MAS O QUE É UM AT?

O Acompanhamento Terapêutico (AT), não é uma modalidade nova de terapia, tampouco é necessariamente vinculada a uma clínica. Alguns autores falam desta prática ter nascido na Argentina na década de 70, porém já havia surgido desde 1960 no Brasil em Porto Alegre na Associação de Internação Blaia – PINEL. (TAVARES, 2013).

José Eggers definiu a função do acompanhante terapêutico (at) da seguinte forma:

 

Profissional de saúde mental que só existe dentro da equipe terapêutica, com papel complementar do psicoterapeuta, agindo fora do setting com pacientes críticos, com a função de operar no social. (EGGERS, 1984).

 

O acompanhante terapêutico (at) já teve várias denominações: Amigo Qualificado, Auxiliar Psiquiátrico, Agente Terapêutico (TAVARES, 2006), entre outras. A denominação de Auxiliar ou Atendente Psiquiátrico foi usada no passado, pois seu funcionamento estava intrinsecamente ligado a uma instituição hospitalar, e sua demanda funcionava através de encaminhamentos dados somente por médicos psiquiatras do hospital. (SANTOS, MOTTA E DUTRA 2005).

Com a reforma psiquiátrica e o período antimanicomial, esta forma de intervenção deixou de estar vinculada a instituições e passou a atuar de maneira autônoma. (PELLICCIOLI, 1998).

Pode ser dito que o Acompanhamento Terapêutico possui finalidades múltiplas por trazer propostas de reintegração social ao paciente, possibilitando sua melhor autonomia e desenvolvimento através de terapia. A possibilidade do AT em atuar em settings diferentes e a flexibilidade de horários potencializa o progresso no tratamento. (FRANÇA; TEIXEIRA; GORGATTI, 2010).

Em um atendimento clínico o paciente muitas vezes se restringe a estar em um lugar determinado. Com a prática do Acompanhamento Terapêutico  esse “dispositivo clínico” é estendido até ao local de necessidade.  (PALOMBINI, 2006).

Para dar uma ideia panorâmica geral na função que desempenha um AT, Maurer e Resnizky apontam algumas das principais atribuições na relação at para com o paciente: Emprestar o Ego, Estimular a Criatividade, Conter, Ser Modelo Identificador, Representar a Figura do Terapeuta, Ressocializar, Intermediar Relacionamentos Familiares, Representar a Todos o Paciente. (MAURER E RESNISKY, 1987).

Desde a migração da função inicial do Acompanhamento Terapêutico  dentro de uma instituição para sua nova proposta de se dispor agir na rua, o AT se transforma em agente potencializada de uma nova expectativa de tratamento, tendo uma nova visão mais ampliada da terapia e fazendo parte da história cotidiana do paciente. (DUTRA, NOGUEIRA, PEIXOTO, PEREIRA & SANTOS, 2002).

O AT precisa ser criativo e testemunhar as diversas ocorrências do cotidiano que o paciente vive, facilitando sua compreensão naquilo em que ele  se dispõe a produzir e conquistar. Ser um agente facilitador implica em estar em uma posição de assumir riscos em prol da eficácia na terapia, trabalhando com a perspectiva do paciente compreendendo suas estratégias para lidar com as situações a fim de refinar seu aprendizado e proporcionar maior qualidade de vida ao sujeito.

 

O PAPEL DO AT COM O ALUNO DE INCLUSÃO NA ESCOLA

INCLUSÃO Definição:

s.f. Ação ou efeito de incluir. / Estado de uma coisa incluída. / Matemática Propriedade de um conjunto A cujos elementos fazem parte de outro conjunto B. (Diz-se que A está incluso em B.). Dicionário Aurélio (1)

A modalidade do Acompanhamento Terapêutico  foi ao encontro do ambiente escolar, devido a dificuldade de adaptação de alguns pacientes com necessidades especiais em sala de aula.

Desde 1996, ano em que foi criada a lei de diretrizes e bases da educação nacional (lei 9.394, de 20.12.1996), mais especificamente no capítulo v, o estado prevê a inclusão do aluno que tem esse tipo de necessidade: “modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para portadores de necessidades especiais. (2)

Sem discutir a fundo os méritos ou déficits da aprendizagem acadêmica  (licenciaturas), tampouco se as Instituições cumprem ou não as resoluções da Educação Nacional, cabe aqui um breve parecer, de que as instituições de ensino não tem sido encontradas devidamente preparadas para receber o aluno de inclusão especial, conforme está previsto na Lei.

Em um artigo publicado em 2001 na Revista Eletrônica Interação em Psicologia (3), é divulgado o resultado de pesquisas realizadas em escolas públicas de Curitiba com as seguintes impressões:

(…) Os resultados da pesquisa indicaram que a maioria das escolas investigadas não tem um projeto específico de inclusão. (…) Constatou-se que a concepção de aluno vigente na escola tende à homogeneização, o que é incompatível com a inclusão. Assim, ainda é creditada ao aluno com necessidades especiais a responsabilidade por seu aprendizado nas classes regulares de ensino. Pôde-se concluir que a implementação da inclusão requer o preparo das escolas e dos profissionais da educação para esta nova realidade. (KAFROUNI; PAN, 2001).

Com base em pesquisas como esta se constata que o Acompanhamento Terapêutico  mesmo sendo uma modalidade terceirizada e paga pelos responsáveis do paciente, torna-se uma ferramenta complementar de um excelente ganho, tanto para o paciente quanto para os educadores que por vezes amargam com a falta de treinamento para a função que requer cuidados especiais dos que sofrem de alguma patologia.

Alguns professores vêem o at em sala de aula como um  mediador de relações ou por vezes porta-voz do aluno de inclusão que se adapta a um universo onde antes tinha dificuldade de entrar ou simplesmente não era aceito devido as suas restrições.

Nos casos de distúrbios que afetam a motricidade, a fala ou a capacidade cognitiva, o at passa a ser os ”membros” ou a ”voz” do sujeito dentro da perspectiva que ele vivencia.

O falar arrastado, o mau funcionamento dos membros, a depressão, a irritabilidade entre outras sintomáticas são em algumas situações extremamente angustiantes para o paciente dentro da sala de aula. Fatores como estes em muitos casos são decisivo para o êxodo escolar.

 

A DUPLA DINÂMICA

O at deve lutar pela permanência do paciente no ambiente escolar, pois este é um dos objetivos principais desta modalidade de acompanhamento, encorajando a autonomia nas relações sociais deste ambiente riquíssimo de aprendizagem social.

Em uma citação de Piaget ele afirma que: “… Se indivíduo é passivo intelectualmente, não conseguirá ser livre moralmente” (JEAN PIAGET), daí a preocupação com o social do sujeito e seus atravessamentos em relacionamentos sociais. (4)

Nos estudos de Winnicott é exemplificada essa relação de parceria e envolvimento de uma forma sublime:

(…) A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. “Em conseqüência, onde brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado em que é.” (WINNICOTT, 1975).

A cumplicidade faz parte essencial de um bom tratamento. No texto de Winnicott percebe-se que o envolvimento entre o terapeuta e o paciente é intenso e ao mesmo tempo não deixa de ser pontual referente às funções do terapeuta, que é trazer a realidade o paciente de uma forma lúdica.

Além de cumprir seu papel terapêutico, para a eficácia do Acompanhamento Terapêutico  é importante que o at esteja integrado com a equipe escolar para não se tornar um “estranho adereço”, que acaba por intimidar as relações. Parcerias auxiliam na sua comunicação com a escola.

A iniciativa de se integrar trabalhando se possível em equipe, receber e repassar informações sobre o aluno trocando experiências, pode possibilitar o aprendizado conjunto e instrumentalizar o at para novos desafios, aperfeiçoando o que já está bom e corrigindo o que não deu certo.

Mais do que uma Dupla Dinâmica é necessário formar uma rede de trocas de informações, de aprendizado e de amizade, para todos se beneficiarem com a terapia.

 

CONCLUSÃO

É crescente demanda da educação e a forma ainda homogênica de tratamento mostra a fragilidade das instituições.

Dentro desse ambiente o acompanhante terapêutico (at) deve estar atento as relações e as trocas de experiência que podem proporcionar ganhos ou perdas significativas.

A ideia não é segregar pacientes de não-pacientes, mas integrar ambos, fazendo proveito desta interação (PORTO; SERENO, p. 1991).

A percepção do at deve estar focada, aproveitando da melhor forma o tempo em sala de aula.  A troca de experiências servirá como um estímulo para os que estão a sua volta, tornando possível o desafio da permanência do aluno de inclusão.

 

REFERÊNCIAS

  1. BANK-MIKKELSEN,  Neils Erik. A Metropolitan area in Denmark: Copenhagen. In: R. KUGEL, Robert B.; WOLFENSBERGER, Wolf (Eds.). Changing patterns in residential services for the mentally retarded. Washington: President fs Committee on Mental Retardation, 1969. Disponível em: <http://www.disabilitymuseum.org/lib/docs/ 1942.htm>.
  2. BOOTH, Tony; AINSCOW, Mel. (Eds.). From then to us: an international study of inclusion in education. London: Routledge, 1998.
  3. BRASIL (1996). Lei 9.394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
  4. DUTRA, J. B. R., NOGUEIRA, A., PEIXOTO, D. G., PEREIRA, A. C., SANTOS, L. G. (2002). Pesquisando a história do Acompanhamento Terapêutico. Plural. Belo Horizonte, MG: FUMEC, (17), pp. 17-23.
  5. DUTRA, J. B. R., NOGUEIRA, A., PEIXOTO, D. G., Pereira, A. C., Santos, L. G. (2002). Pesquisando a história do Acompanhamento Terapêutico. Plural. Belo Horizonte, MG: FUMEC, (17), pp. 17-23.
  6. EGGERS, José. (1984). PUCRS
  7. KAFROUNI, Roberta Kafrouni; PAN, Miriam A.G. de Souza. A inclusão de alunos com necessidades educativas especiais e os impasses frente à capacitação dos profissionais da educação básica: um estudo de caso. 2001. Revista Eletrônica Interação em Psicologia. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewArticle/3316http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewArticle/3316>.
  8. MAUER, Susana Kuras de; RESNIZKY, Silva. Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicótico: manual introdutório a uma estratégia clínica. Campinas, SP: Papirus, 1987.
  9. NIRJE, Bengt. The normalization principle and its human management implications. In: KUGEL, Robert B.; WOLFENSBERGER, Wolf. (Eds.). Changing patterns in residential services for the mentally retarded. Washington: President’s Committee on Mental Retardation, 1969. Disponível em: <http://www.disabilitymuseum.org/lib/docs/1941.htm>.
  10. PALOMBINI, Analice de Lima. Acompanhamento terapêutico: dispositivo clínico-político. Revista Psyche, São Paulo, vol. 10, n. 18, pp. 115-127, 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382006000200012&lng=pt&nrm=iso>.
  11. PELLICCIOLI, E. Considerações sobre a prática do acompanhamento terapêutico. In:. et al. (Org.). Cadernos de AT: uma clínica itinerante. 1. ed. Porto Alegre: Grupo de Acompanhamento Terapêutico Circulação, 1998. p. 39-43.
  12. PORTO, M.; SERENO, D. Sobre acompanhamento terapêutico. In: EQUIPE DE ATS DO HOSPITALDIA A CASA (org): A rua como espaço clínico. São Paulo: Escuta, 1991.
  13. SILVA, Alex Sandro Tavares da (org.) E-BOOK AT: Conexões Clínicas no Acompanhamento Terapêutico. Porto Alegre: Edição do Autor, 2012. Disponível em: https://siteat.net/biblioteca/e-book-at/
  14. TAVARES, A.; Silva R. N.(2006) A emergência do Acompanhamento terapêutico e as políticas de saúde mental. Psicologia ciência e profissão, 26 (2) Brasília
  15. TEIXEIRA, Ricardo Rodrigues. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de conversações. In: ROSENI, P.; MATTOS, R.A.M. (org). Construção da integralidade: cotidiano, saberes e práticas em saúde. Rio de Janeiro:, 2003.
  16. WINNICOTT, D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1975.

 

NOTAS

(1) Dicionário Aurélio Online http://www.dicionariodoaurelio.com/Inclusao.html

(2) BRASIL (1996). Lei 9.394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Capítulo V.

(3) Artigo: A inclusão de alunos com necessidades educativas especiais e os impasses frente à capacitação dos profissionais da educação básica: um estudo de caso (Roberta Kafrouni e Miriam A.G. de Souza Pan). Recebido em 25.04.2001; revisado em 10.11.2001; aceito em 30.11.2001) Disponível em: Revista Eletrônica Interação em Psicologia. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewArticle/3316http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewArticle/3316>.

(4) JEAN PIAGET Citação Livre.

 

Autor: Mozart Lobato Moreira. Acadêmico de Psicologia pela Universidade do Vale dos Sinos (UNISINOS). Formação no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. Facebook.

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