A estreita relação entre a amizade e a função terapêutica no acompanhamento terapêutico

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Resumo: o presente artigo abordará, através de uma pesquisa bibliográfica, o acompanhamento terapêutico focando-se especificamente na relação criada entre a dupla, acompanhante e acompanhado, e criando com isso um paralelo entre amizade e o vínculo afetivo profissional que deve ser trabalhado nesta modalidade. Serão analisados os pontos positivos e negativos desse vínculo afetivo mais intenso e, portanto, pretendo levar à conclusão de como deve ser manejado o relacionamento com o paciente, visto sob a perspectiva do próprio acompanhante terapêutico para o melhor desenvolvimento do processo terapêutico.

Palavras-chave: Amizade. Acompanhamento Terapêutico. Vínculo.

Summary: this article will address, through a bibliographic research, the therapeutic accompaniment focusing specifically on the relationship created between the pair, accompanist and accompanied, creating a parallel between friendship and affective professional bonding that must be dealt with in this modality. It will be analyzed the advantages and disadvantages of this more intense affective bonding and, therefore, I pretend to conclude how the relationships with the patient should be handled under the perspective of the therapeutic accompanist for the better development of the therapeutic process.

Keywords: Friendship. Therapeutic Accompaniment. Link.

A estreita relação entre a amizade e a função terapêutica no acompanhamento terapêutico

Introdução

Há aproximadamente quinze anos atrás se foi instituído o papel do acompanhante terapêutico. Esse mesmo foi feito numa primeira etapa segundo Mauer e Resnizky (1987), por Eduardo Kalina, que o chamou de “amigo qualificado”, o que já nos supõe comparações entre o trabalho mais próximo realizado nesta prática e um laço afetivo mais intenso, como a amizade. A própria nomenclatura utilizada acentuou o grau de simetria entre os participantes de tal relação e isso foi percebido por Kalina que logo alterou a denominação para acompanhamento terapêutico.

O que dificulta o trabalho do A.T., principalmente com pacientes psicóticos, geralmente é criar um vínculo estável e amistoso com o paciente, que por sua vez permite ou não ser “seduzido” pelo próprio profissional. O que colabora, todavia com a relação são as formas que intervimos com o paciente desde o início do processo terapêutico, passando por fases de triagem e, principalmente fornecendo ao mesmo documentos como contrato de trabalho e planejamento das atividades que virão a ser realizadas, sempre de forma clara e específica, para evitarmos futuras discórdias até mesmo com os entes do acompanhado.

Por último, mas não menos importante abordarei no presente artigo a questão da cumplicidade do A.T. consigo mesmo, ou seja, acompanhamento terapêutico só se faz válido quando diante de uma equipe interdisciplinar, e em um trabalho deste tipo não é adequado, nem terapêutico deslizes pessoais como guardar segredos do paciente ou como já foi relatado, criar uma amizade acima do processo de cuidado com o paciente patológico ou não.

Desenvolvimento

Desde que se usara a nomenclatura de “amigo qualificado”, Mauer e Resinsky (1987) concordavam que as próprias palavras utilizadas na denominação aumentavam substancialmente o grau amistoso do vínculo criado em tal área profissional.

Lancetti (2006) diz que a amizade pode surgir, além de ser por questões do próprio acompanhante terapêutico, também por estar, junto com o acompanhado, numa eterna batalha do paciente para atingir objetivos até então inacessíveis ao mesmo, necessitando com isso cuidados e mudanças nas suas características pessoais, o que retomaria a idéia de amigos.

A prática do acompanhamento terapêutico como “essa operação de ajuda como uma aliança, em que se ajudarão mutuamente a encontrar a singularidade produtiva, a escolher o modo de vida e aprender a defendê-lo da sociedade paranóica triunfante”. (BAREMBLITT, 1991 apud LANCETTI, 2006, p. 23).

Por tal fato se sucedendo, Eduardo Kalina apud Mauer e Resinsky (1987) alterou a nomenclatura do serviço para acompanhamento terapêutico, o que na opinião das autoras foi de muito bom grado, pois institui melhor a tarefa a ser prestada e, principalmente o sentido interacional do vínculo. Esse critério foi melhor explicado pelas autoras quando as mesmas expuseram suas idéias, as quais a condição de “amigos” implica, observando a relação, uma certa simetria entre seus participantes e um tempo indefinido de relacionamento, o que confirma a boa alteração feita por Kalina na nomenclatura do serviço.

Lancetti (2002 apud LANCETTI, 2006 diz que é necessário sedução, surpresa e uma busca ativa em função do melhor vínculo com o paciente, todavia, tais atitudes e posturas o levam a acreditar cada vez com mais força a idéia de amizade criada naquela relação.

Lancetti (2006) também diz que o perigo de o A.T. ser um amigo é que por alguns instantes naquela relação o terapeuta torna-se um “igual”, satisfazendo assim, a demanda narcísica do paciente, deixando assim a relação de amizade mais confusa.

Com a idéia de assimetria entre os participantes da dupla, Mauer e Resinsky (1987) afirmam que o acompanhante terapêutico não é um amigo, todavia é comum e saudável que o mesmo estabeleça fortíssimos laços afetivo com o paciente.

Para Mauer e Resnizky (1987) o acompanhante terapêutico sofrerá diversas vezes a tentação de criar uma amizade com seu paciente. Isso se dará porque inicialmente uma amizade pode ter um lado amistoso e terapêutico, mas com o passar do tratamento percebe-se que a mesma funciona não só como resistência, mas também como um obstáculo difícil de ser manejado. Por essas razões as autoras afirmam que está na habilidade de cada acompanhante terapêutico suportar tal tentação para melhor seguir o curso do processo terapêutico.

Para Mauer e Resnizky (1987) quando falhamos em discernir a diferença, principalmente para o paciente, entre o acompanhamento terapêutico e uma possível amizade, seja consciente ou inconscientemente, damos abertura a que se dissolvam as diferenças entre o acompanhante e o acompanhado, gerando assim um vínculo ilusório, muito ambíguo para o paciente e conseqüentemente afetando o processo terapêutico, seja a curto ou a longo prazo.

Em função disso, portanto, Mauer e Resnizky (1987) colocam em xeque a habilidade pessoal de cada um para lidar com suas próprias dificuldades para estabelecer um bom vínculo terapêutico com o paciente, sem deixar-nos esquecer do papel o qual desempenhamos, o lugar que ocupamos enquanto acompanhante terapêutico e nossa postura diante do acompanhado, para não cometermos a gafe de adotar o papel ou o lugar que o paciente quer nos atribuir.

Se analisarmos as transferências descritas por Freud apud Baremblitt (2000), contudo, percebemos que dentre as três classificações, somente a que diz respeito a sentimentos amistosos seriam o “motor da cura”, ou seja o tratamento só se faz válido no momento em que tais sentimentos entram na relação. As outras classificações de transferências propostas por Freud nos dariam um melhor entendimento do paciente.

Baremblitt (2000) ainda afirma que o acompanhante terapêutico se opõe a ser um lixo descartado na memória do paciente, pelo contrário, o acompanhado deve ser auto-suficiente sem o profissional, mas que o mesmo tenha sido suficientemente marcante para não ser esquecido.

Segundo Mauer e Resnizky,(1987) portanto, os acompanhantes terapêuticos têm importantes funções no processo terapêutico dos pacientes e que se confundem, muitas vezes, para o acompanhado com amizade. Contenção física ou emocional, empréstimo do próprio ego para o paciente, atenuar a distância do acompanhado com a realidade entre outras, são funções dos A.T’s que abordarei nos próximos parágrafos para relevar a importância dos mesmos na vida de um sujeito com demandas problemáticas e conseqüentemente à confusão que pode ser feita pelo mesmo em relação aos afetos e emoções envolvidas nesta relação.

O acompanhante terapêutico se empresta como se fosse um “motor com combustível” capaz de planificar e decidir pelo paciente naquelas situações onde este não é ainda capaz de agir por si mesmo. Serve-lhe de “Ego” auxiliar, assumindo funções que o Ego do paciente, por estar comprometido e debilitado pela enfermidade, não pode desempenhar naquele momento. Empresta-lhe seu Ego, por exemplo, para ajudá-lo a organizar e cumprir atividades diárias, para conduzi-lo ao médico e ao dentista, se tal for necessário, e mesmo para tomar decisões se o paciente não está em condições de fazê-lo por si só. (MAUER E RESNYZKY, 1987, p 40 e 41).

O acompanhante terapêutico por exercer papel tão relevante no processo de cura do indivíduo que é capaz de até mesmo emprestar o próprio ego, o que a meu ver, só aumenta a nossa clareza para o quão ambígua é a relação que temos com o paciente e, ao mesmo tempo, o quão difícil é para o profissional dissociar-se das próprias emoções internas, em prol do paciente. (Mauer e Resnizky, 1987)

Outra função muito importante, segundo Mauer e Resnizky (1987), do acompanhante terapêutico é, à medida que o tratamento o permita atenuar a distância do paciente, psicótico geralmente, com a realidade externa que o envolve, fazendo assim com que o mesmo, de maneira lenta e dosada, reencontre-se com o conteúdo já perdido.

Mauer e Resnizky (1987) também comentam que a contenção é uma função fundamentalmente do acompanhante terapêutico, não importando a situação clínica ou o instante do processo terapêutico que o mesmo se encontra.

Deve oferecer-se como suporte tal qual um “agasalho humano”, acompanhando o paciente em sua ansiedade, sua angústia, seus temores, sua desesperança, inclusive naqueles momentos de maior equilíbrio. (MAUER E RESNISKY, 1987).

Para o êxito em tais funções, todavia, não podemos deixar de citar a família do paciente. Mauer e Resnizky (1987) alertam os acompanhantes terapêuticos para ficarem atentos com sua postura diante dos familiares do acompanhado. Essa deve ser menos defensiva e mais flexível, para que consiga entenda e aceite os recursos e limites da família e se enquadre nos mesmo, conquistando assim, uma relação de abertura e proximidade.

O A.T. deve ser capaz de dissociar-se para poder, por um lado, relacionar-se com o paciente e, por outro, manter um distanciamento crítico que lhe permita observar e avaliar a interação. Por isso, é imprescindível que, em certo sentido, possa descentrar-se de suas necessidades propriamente subjetivas e tornar-se útil como promotor de tarefas, como alguém capaz de contar, acolher, acompanhar e pensar com o paciente. (MAUER E RESNISKY, 1987, p. 38 e 39).

O que facilita essa relação com a família e principalmente com o paciente é a comunicação intra-equipe auxiliando-se e principalmente a formulação, no início do trabalho de um contrato de trabalho que evite futuros mal-entendidos. (Mauer e Resnisky,1987)

É freqüente que o paciente, em certos momentos, peça ou mesmo exija do seu A.T. que não transmita determinada informação à equipe, que se faça cúmplice de alguma mentira. Se por fim não se atende a seu pedido, pode não entender, ofender-se ou sentir-se abandonado e, deste modo, o vínculo com seu acompanhante ficará seriamente afetado, quando não ameaçado por uma ruptura definitiva. (MAUER E RESNYSKY, 1987, p. 38).

O A.T. é visto como amigo e necessita repetidas vezes recordar e argumentar a sua verdadeira relação com o paciente que é de cuidado e suporte terapêutico, de acordo com Mauer e Resnizky (1987).

Quando falha, contudo essa cumplicidade do acompanhante terapêutico com sua equipe e principalmente com seu objetivo terapêutico, Mauer e Resnizky, (1987) dizem que frustramos o paciente criando no mesmo um sentimento de desconfiança e conseqüentemente num pior desenvolvimento da estratégia grupal ali imposta.     

CONCLUSÃO

Os integrantes da dupla, além de atores/personagens, desempenham as funções de roteirista, diretor e cenógrafo. Numa seqüência de encontros, criam e recriam uma trama de tempo presente. O roteiro e o cenário se revelam no momento da cena impedindo os atores de ensaiar em suas falas. A criação está, não no ato da interpretação mas na própria constituição da história.

O acompanhamento terapêutico, enquanto modalidade profissional, nos demonstra diversas peculiaridades e problemáticas. Exige dos acompanhantes terapêuticos muita seriedade, tranqüilidade e principalmente caráter no que diz respeito ao assunto abordado anteriormente.

A amizade, por sua vez, é uma relação, a qual não temos o controle algum e muito menos temos conhecimento das inúmeras maneiras que ela pode se apresentar.

Unindo as dificuldades do acompanhamento terapêutico e a complexa denominação de amizade, temos um campo muito ambíguo e confuso diante do nosso trabalho profissional, enquanto acompanhantes terapêuticos. Nos resta agir da maneira mais ética possível, evitando os relacionamentos mais íntimos, correlacionados com as relações entre amigos e nos apoiar nos documentos como contrato de trabalho e programa de atividades, além de sempre contar incansavelmente com a equipe multidisciplinar que sempre está presente por trás de todo o acompanhamento terapêutico.

Ao mesmo tempo não podemos esquecer dos acontecimentos terapêuticos, que subitamente aparecem em casos muito raros e, por vezes, bem sucedidos como diria Lancetti (2006).

BIBLIOGRAFIA

  1. Equipe de Acompanhantes Terapêuticos do Hospital-Dia A Casa (Organizadores). A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. São Paulo (SP): Escuta; 1991.
  2. FIGUEIREDO, Ângela L.; SAGAL, Jair. Indicações e expectativas do trabalho do acompanhante terapêutico. In: PELLICCIOLI, Eduardo et alli (orgs). Caderno de AT: uma clinica itinerante. Porto alegre: grupo de acompanhamento terapêutico circulação, 1998. P. 79-82.
  3. LANCETTI, A. (2006). A amizade e o acompanhante terapêutico. Textos, Texturas e Tessituras no acompanhamento terapêutico. SP. Instituto A casa. Editora Hucitec.
  4. MAUER, S. K. de. & RESNIZKY, S. Acompanhantes Terapêuticos e Pacientes Psicóticos: Manual Introdutório a uma Estratégia Clínica. Campinas: Papirus,1987.
  5. A CASA, EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA (org.) (1997). Crise e Cidade: Acompanhamento Terapêutico. São Paulo: EDUC. 308p

Autor: Douglas Möllerke Norte – Graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Formado no “Curso de Capacitação em Acompanhamento Terapêutico” da CTDW. Facebook. E-mail: [email protected]

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