As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

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As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

RESUMO:
Objetivo: identificar as atividades e atribuições do acompanhamento terapêutico desenvolvidas pela enfermagem em um Serviço Residencial Terapêutico.

Materiais e Métodos: pesquisa de abordagem qualitativa e descritiva. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, gravadas e transcritas na íntegra, com 12 acompanhantes terapêuticos da equipe de enfermagem de um Serviço Residencial Terapêutico do Rio Grande do Sul.

A análise dos dados baseia-se na proposta de análise temática, sendo investigados e sistematizados a partir das atribuições e atividades do acompanhamento terapêutico.

Resultados: nota-se que os profissionais de enfermagem que compõem a equipe de acompanhantes terapêuticos do serviço possuem um forte potencial cuidador e são dotados de características essenciais para reinserção social dos sujeitos em sofrimento psíquico.

Conclusão: ressalta-se a importância da enfermagem como profissão, uma vez que sua essência está no cuidado, que é fundamental para a prática em saúde mental e, principalmente, para o acompanhamento terapêutico.

Palavras-chave: Cuidados de enfermagem. Enfermagem psiquiátrica. Saúde mental. Serviços de saúde mental. Moradias assistidas.

 

As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

INTRODUÇÃO
Ao longo dos anos o Movimento da Reforma Psiquiátrica, com a aprovação da Lei Nº 10.216 de 6 de abril de 2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica brasileira (BRASIL, 2004), vem ganhando espaço e trazendo novos conceitos do cuidar em saúde mental no país.

Focado na desinstitucionalização da loucura, esse movimento fundamenta suas ações no deslocamento do local de execução das práticas em saúde mental do interior da instituição hospitalar para o território, em diferentes modalidades de serviços, com vistas a um cuidado integral, o desenvolvimento de ações que produzam subjetividade singularizada e a horizontalização das relações interprofissionais e com os usuários (ALVES et al., 2017).

Destaca-se, entre as modalidades de atendimento, o Serviço Residencial Terapêutico (SRT), que surge para suprir as necessidades de moradia, cuidado e inserção das pessoas egressas de longas internações psiquiátricas e que romperam laços familiares.

Esse dispositivo tem caráter de moradia, pois são casas, inseridas no espaço das cidades, funcionam sob a supervisão de profissionais da saúde e têm como objetivo reconquistar a cidadania desses indivíduos, devolvendo-os um direito fundamental, o de ter um lar (BRASIL, 2004).

Nesses dispositivos o modo de operar a clínica faz-se por meio do Acompanhamento Terapêutico (AT), o qual tem se mostrado uma importante ferramenta no contexto de reorientação da atenção em saúde mental.

Os acompanhantes terapêuticos, visando ao resgate dos vínculos sociais, autonomia, emancipação social, política e cultural do usuário de saúde mental, utilizam os espaços públicos e a cidade como locais para processar sua ação de forma integral (ANTONACCI et al., 2013; NETO; DIMENSTEIN, 2016).

Dessa forma, é relevante pesquisar na área do acompanhamento terapêutico com o objetivo de compreender uma modalidade de cuidado não convencional que auxilia no processo de reinserção social dos sujeitos com transtorno psíquico no meio social.

Destaca-se a enfermagem como profissão e ciência do cuidado, que está ao lado e presente junto aos usuários, revelando-se fundamental no seio da equipe interdisciplinar e na consolidação da Reforma Psiquiátrica.

Ainda, especificamente neste serviço, a enfermagem desenvolve seu trabalho baseada nos princípios do acompanhamento terapêutico, utilizando métodos de cuidados, a fim de contribuir para a reabilitação e a reinserção social destes sujeitos, contribuindo no campo da saúde mental, o cuidado em liberdade, favorecendo a construção da autonomia, da cidadania e da busca da identidade de cada indivíduo, questões primordiais na reabilitação psicossocial.

Com isso, o presente estudo pretende analisar as atividades e atribuições do acompanhamento terapêutico desenvolvidas pela enfermagem em um Serviço Residencial Terapêutico.

 

As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

MATERIAIS E MÉTODOS
Trata-se de um recorte de Trabalho de Conclusão de Curso intitulado Acompanhamento terapêutico e o cuidado de enfermagem (PINHEIRO, 2011). Este, por sua vez, integrou a pesquisa Redesul desenvolvida pela Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas em parceria com a Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas sob ofício nº 073/2009.

A pesquisa Redesul foi realizada no Estado do Rio Grande do Sul, desenvolvendo dois estudos diferenciados, um quantitativo e outro qualitativo.

Os dados trabalhados neste artigo foram obtidos a partir da etapa qualitativa da pesquisa Redesul, especificamente das entrevistas com a equipe de enfermagem do Serviço Residencial Terapêutico de Caxias do Sul/RS.

Este estudo consiste em uma pesquisa de natureza qualitativa, descritiva. Os participantes do estudo foram 12 profissionais da equipe de enfermagem de um Serviço Residencial Terapêutico, que atuam como acompanhantes terapêuticos nesse serviço. A fim de manter o anonimato da identidade dos participantes, estes foram identificados pela letra “E”, seguido do número da entrevista.

A equipe de enfermagem é composta por dois enfermeiros, quatro auxiliares de enfermagem e seis técnicos de enfermagem.

E os critérios para seleção dos participantes foram os seguintes: possuir vínculo empregatício com o Serviço; ser maior de 18 anos; ter concordado em participar do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e autorizando a divulgação dos dados; desempenhar a função de acompanhante terapêutico no Serviço e fazer parte da equipe de enfermagem do Serviço Residencial Terapêutico.

Todos os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para Participação na Pesquisa, sendo assim respeitados os princípios éticos. A pesquisa atende à Resolução 466 de 12 de dezembro de 2012 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde (BRASIL, 2013) e ao Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem, Resolução do Conselho Federal de Enfermagem nº 311, de 8 de janeiro de 2007 (CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM, 2007).

Os dados foram coletados em maio de 2010 no Serviço Residencial Terapêutico pela equipe da pesquisa
Redesul. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas, as quais foram gravadas e após, transcritas na íntegra.

A partir das entrevistas os dados foram classificados e comparados com a literatura sobre o acompanhamento terapêutico.

Os dados foram tratados e analisados a partir da análise temática, sendo organizados nas seguintes etapas: a préanálise, a exploração do material e o tratamento dos resultados (MINAYO, 2014).

 

As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

RESULTADOS
Neste item são apresentadas as atribuições dos acompanhantes terapêuticos, membros da equipe de
enfermagem, totalizando oito atribuições divididas e conceituadas pelo referencial do Acompanhamento
Terapêutico (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

 

Conter o paciente
Essa atribuição tem a compreensão de o acompanhante oferecer-se como suporte ao acompanhado. Não no sentido de segurar, reprimir ou deter, mas sim de estar junto. Nesse sentido o usuário é acompanhado nos mais variados momentos de sua vida.

Eu acho que tu tendo uma atenção, tu sentando, conversando com ele, dando uma atenção para ele, é o melhor cuidado que tu pode dar, porque, eles são muito carentes e eles necessitam muito da nossa conversa, eles pedem muito para te dar um beijo, te dar um abraço, conversar, dizem preciso te contar uma coisa, preciso te mostrar tal coisa que eu comprei […] (E11).

 

Oferecer-se como modelo de identificação
Constituindo a segunda atribuição do acompanhante terapêutico, trata-se da possibilidade de este apresentar ao acompanhado as diversas formas de reagir diante as questões do cotidiano. Em outras palavras, também é o fato de o acompanhante ser visto como um modelo de identificação aos usuários e de auxiliar no resgate da autoestima e da capacidade de gerenciar atos de vida cotidiana.

[…] Então, eu acho que é bem esse trabalho de cuidado mesmo, de tu ser espelho, de tu ser modelo, que eles nos identificam muito assim, do vínculo que tu cria com os usuários […] E daí tu acessa mais, tu vira referência mesmo para eles […] Tu é um exemplo para eles e tu tenta passar, dentro do que tu aprendeu na tua vida, alguma coisa para eles, da
melhor forma que tu acredita (E8).

[…] Eles passaram tempos sem fazer nada disso […] Voltar a se adaptar às tarefas da casa, a sair, […] Meio que mostrando que eles podem fazer, que eles não têm que ficar naquele mundo que a maioria deles não faziam nada […] E aqui eles estão voltando à vida praticamente, a viver o que é o dia a dia (E5).

 

Emprestar o ego
É a terceira atribuição do acompanhante terapêutico, na qual é necessário que este sirva como alguém que auxilie o usuário a organizar sua vida, assumindo responsabilidades junto e com o sujeito.

[…] Eu me sinto muito importante e responsável, porque eles precisam […] Eu sempre digo assim, eles precisam desse ego […] Como se tu fosse uma bengala para eles. Tu vai até um certo ponto […] A gente coloca eles em pé, eles uma hora vão conseguir, eles vão que nem criança quando está começando a aprender a andar! (E3).

 

Perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente
Na quarta atribuição do acompanhante terapêutico, evidencia-se que no desempenhar este papel o
acompanhante precisa perceber as capacidades apresentadas ou não pelos sujeitos.

Assim, trabalhar a inserção dos sujeitos no tecido social é algo desenvolvido pelos acompanhantes terapêuticos.

Em especial na introdução dos usuários em toda a sociedade, ou seja, quando utilizam um transporte coletivo para se deslocar na cidade, onde outros sujeitos estão.

Mesmo que, na maioria das vezes, os usuários não notem como algo extraordinário, os acompanhantes, diferentemente, verificam como um progresso e desenvolvimento das capacidades dos sujeitos.

Uma vez que, anteriormente, não saíam do interior da instituição hospitalar/manicomial em que se
encontravam e hoje circulam pelas ruas livremente, tendo toda a possibilidade de se desenvolverem como sujeitos de direitos.

[…] A gente introduz eles entre os desiguais, isso que eu acho que mais marca. Eles podem até não perceber isso, muitos não percebem isso […] Mas é através de nós que eles estão no meio dos desiguais […] Acho que a grande coisa que a gente faz nem é cuidar a medicação, nem se andam sujos, se andam limpos […] Nós é que proporcionamos isso a eles! Nenhum outro serviço proporciona! (E6).

 

Informar sobre o mundo objetivo do paciente
Outra atribuição do acompanhante diz respeito ao estabelecimento do contato diário com o usuário, situando-o no seu cotidiano.

Dessa forma, o acompanhante apropria-se de informações sobre o usuário, nos mais diversos campos da vida, tudo isso para, conjuntamente com o usuário, construir o processo terapêutico, colaborando em
suas atividades, na construção da autonomia, na reinserção social e na reabilitação psicossocial do sujeito.

Eu procuro auxiliar eles nas atividades, desde o banco, banho, higiene, arrumação de roupa. Eu procuro levar eles para parques, sabe meu fim de semana, eu levo mesmo, vamos para o parque, vamos jogar bola, vamos jogar vôlei, tem yoga […] Eu gosto muito de levar eles pra fora, atividade externa mesmo. Para eles chega de cadeia! 36 anos de internação […] Nem um assassino fica tanto tempo. Então, a nossa coordenadora falou: o que o cara fez de errado? […] é doente! […] (E2).

[…] Eles têm que se acostumar a coisas que eles não estavam mais acostumados. Eles têm que aprender coisas que em um hospital psiquiátrico eles já não faziam mais. E isso é todo dia mesmo. É todo dia, tu está falando sempre a mesma coisa e retomando com eles, para que eles façam” (E10).

 

As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

DISCUSSÃO
A atribuição de conter o paciente é a primeira e fundamental função do acompanhante terapêutico, pois para o usuário é importante que o acompanhante se ofereça como um suporte. Neste contexto, conter está no sentido de ser, estar incluído ou estar junto com. Assim, o usuário é acompanhado em diferentes momentos de sua vida, sejam eles de maior fragilidade ou tranquilidade (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

O fato de os profissionais se colocarem ao lado dos moradores para escutá-los e oferecer atenção pode ser confundido como conduta tutelar ou assistencialista, entretanto a tutela tem o intuito de subtrair as trocas e de estabelecer relações de simples dependência do acompanhado ao acompanhante (ROTELLI, 2001).

Neste espaço de moradia também percebe-se outras formas de relações dotadas de trocas sociais, de sentimentos e de atenção por parte dos profissionais e dos moradores, pois os acompanhantes terapêuticos colocam-se ao lado dos acompanhados e auxiliam no processo de tomada de consciência das situações e de decisão.

Dessa forma, o acompanhante demonstra que existem cuidados importantes além dos de saúde, incluindo outros eixos da vida, que são os cuidados gerais, entre eles o fato de sentar e ouvir o usuário.

Enfim, o morador necessita de pessoas que o acolham como um ser humano que possui uma trajetória de vida marcada por situações de exclusão social e agora vive um momento diferenciado de reinserção no meio social.

O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) lança o desafio da desconstrução de formas hegemônicas instauradas, ocasionando o encontro da loucura com a cidade, a fim de proporcionar uma reinserção social, transformando o usuário de um ser alienado para um ser de direitos (ANTONACCI et al., 2013).

Assim, destaca-se a importância de o acompanhante estar junto com o usuário, a fim de despertar nele esse sentimento de pertencimento ao mundo, de atuação e de participação.

Na atribuição de se oferecer como modelo de identificação, o acompanhante precisa mostrar ao sujeito diferentes modos de reagir às dificuldades cotidianas. Isto leva o usuário a ter novas perspectivas e a romper com o estereótipo do louco institucionalizado. Também ajuda o sujeito a aprender, a esperar, a escolher e oferece possibilidade de o indivíduo adquirir mecanismos de defesa adaptáveis ao seu meio (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

Desse modo, os trabalhadores do SRT apresentam algumas ideias que vão ao encontro desta função do
acompanhante terapêutico, evidenciando que muitos deles são exemplos para os moradores do SRT, como foi demonstrado nas falas anteriormente citadas.

Sendo assim, o acompanhante terapêutico refere ser um modelo de identificação para os moradores, facilitando a criação de vínculo, fazendo com que esse profissional acesse mais o acompanhado, buscando conhecê-lo ao máximo.

Dessa forma, o acompanhante tenta fazer com que este indivíduo se insira da melhor forma na rotina da casa, nas atividades propostas, no trabalho.

São elencadas pelos entrevistados algumas atividades valorizadas pela equipe, como a higiene corporal, o cuidado com a casa, a realização das tarefas domésticas, as atividades fora do residencial. Isso torna-se
importante para o morador a partir do momento em que o acompanhante terapêutico assume essas tarefas como fundamentais para si, pois assim, sendo o modelo de identificação destes sujeitos, o trabalho do profissional começa a surtir efeitos a partir dos exemplos. Enfatiza-se que o trabalho do acompanhante terapêutico é fortalecido nas experiências de vida de cada um e nas diferentes maneiras de lidar com cada acompanhado.

Para a atribuição “emprestar o ego”, esta expressão foi empregada para indicar que o acompanhante precisa se comportar como um ego auxiliar, visto que neste momento da vida a pessoa acompanhada está fragilizada.

Logo, precisando de alguém que a auxilie a organizar sua vida e suas atividades diárias, e se for preciso, até mesmo tomar decisões por ela em momentos nos quais essa não tenha condições de fazer por si. De fato, referem que nessa atribuição o acompanhante terapêutico trabalha no sentido de assumir as funções do ego do usuário, uma vez que esse se encontra debilitado (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

Por outro lado, outros autores descrevem que a função do ego auxiliar não está colocada no sentido de
emprestar o ego do acompanhante ao acompanhado, mas sim no fato de pensar junto, fazendo com que o ego do acompanhado se fortaleça, que isso o auxilie na percepção da realidade individual e do ambiente em que vive (CENAMO; PRATES; BARRETO, 1991).

Interessante nesse processo é que a própria equipe reconhece a sua importância e sua responsabilidade no interior destas trocas, como foi explicitado nas falas citadas.

A comparação que este acompanhante terapêutico faz convida a refletir que, em outros espaços e momentos da vida, o ser humano também funciona como este ego auxiliar para outra pessoa. O exemplo citado anteriormente pelo entrevistado é o que a equipe de enfermagem faz, estando presente, mostrando-se um suporte para esses usuários.

“Perceber, reforçar e desenvolver a capacidade criativa do paciente” é uma atribuição que evidencia que o acompanhante precisa perceber as capacidades apresentadas ou não pelos sujeitos, a fim de realizar uma seleção e organização delas, possibilitando o desenvolvimento em dois sentidos: o de liberar a capacidade criativa latente e o de estruturar a personalidade do indivíduo acompanhado ao redor de um eixo organizador (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

No andar do processo faz-se importante que o acompanhante terapêutico proponha atividades de interesse do sujeito. Assim, o acompanhante estará auxiliando-o a se reencontrar com o mundo real e objetivo, reforçando e promovendo a noção de processo, aspecto este negado quando o indivíduo se encontra em desconexão com a realidade (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

Em consequência, esse profissional tem uma percepção diferenciada no sentido de inserção social e
desenvolvimento da capacidade criativa dos moradores.

Dessa forma, estimulando a inserção social ele completa esta função, pois desenvolve a capacidade criativa, de estar em situações distintas das vivenciadas no dia a dia e entre indivíduos diferentes de si, contribuindo para a capacidade de improvisação e de convivência.

Reforçando esta responsabilidade do acompanhante terapêutico, ele busca transformação na qual seja possível o convívio com os diferentes modos de estar no mundo e de lidar com outras temporalidades.

Assim, estar no mundo significa estar no meio de pessoas diferentes, de situações diferenciadas e espaços variados, sendo preciso que o sujeito desenvolva mecanismos para conviver bem nesse contexto e, para isso, é preciso criatividade e desprendimento (PALOMBINI et al., 2004).

O acompanhante terapêutico é considerado uma ferramenta que estimula a criatividade, a espontaneidade, a improvisação e a ação de compartilhar.

Ainda existem outros fenômenos ligados ao acompanhamento terapêutico e que o acompanhante precisa desenvolver, que estão ligados a situações corriqueiras que as pessoas enfrentam, mas nem todos são capazes de desenvolver esta capacidade de superar situações (ANTONACCI et al., 2013).

Assim, torna-se importante o acompanhante valorizar e reforçar esta capacidade, que muitas vezes está latente, pelo fato de o morador encontrar-se debilitado. Por isso o acompanhante terapêutico é peça-chave nesse processo de construção de diferentes formas de estar no mundo.

Na atribuição “informar sobre o mundo objetivo do paciente”, o acompanhante busca estabelecer contato diário com o usuário. O profissional possui informações relevantes acerca do acompanhado, do seu comportamento na rua, na casa, com as pessoas com as quais se relaciona, com a família e com seu grupo.

Enfim, tudo contribui para uma compreensão global do indivíduo por parte do acompanhante e do restante da equipe, a fim de realizar uma avaliação para, a partir de então, construir conjuntamente o processo terapêutico (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

Os profissionais de enfermagem evidenciam suas atividades no dia a dia como modo de informar o usuário sobre o mundo objetivo por meio das atividades de vida diária.

Os acompanhantes terapêuticos relatam nas entrevistas que suas atividades são vinculadas à vida diária, ou seja, auxiliam os moradores em todo o processo cotidiano, desde o acordar, realizar higiene, alimentação, atividades domésticas, sair do SRT, ir ao Caps, à hidroterapia, ao futebol, à igreja, aos passeios, enfim nos mais diversos lugares possíveis em que os indivíduos passam a circular.

Para os moradores que vivenciaram um processo de institucionalização e hoje vivem um transcurso inverso, essas atividades se apresentam a cada dia como um novo desafio que precisa de empenho e atenção por parte do acompanhante terapêutico e vontade por parte do acompanhado para superar os limites diários.

Os profissionais têm consciência de que não é simples o processo de informar o usuário sobre o mundo
objetivo, sobre os aspectos concretos e cotidianos, pois muitos deles perderam totalmente o contato com a realidade material e por isso é preciso assessorá-los com paciência.

O profissional é peça-chave da informação sobre a realidade, pois a cada dia é preciso recomeçar e orientá-los novamente.

Já na atribuição de “atuar como agente ressocializador”, a tarefa do acompanhante é também diminuir o
distanciamento do acompanhado com o mundo real, uma vez que, por vezes, esse sofre desconexão com a realidade e assim o acompanhante facilita o reencontro com o todo perdido e desconexo, de forma cuidadosa e dosada (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

A partir dos comentários dos profissionais, pode-se observar um discurso compatível com os valores da
reabilitação psicossocial. Assim, os acompanhantes terapêuticos favorecem o desenvolvimento dos moradores no sentido de deixar que eles tenham autonomia no dia a dia e em sua vida. O simples fato de o morador poder escolher o que ele quer já faz uma diferença considerável, porque no processo de institucionalização, que viviam anteriormente eram passivos, e a partir do momento em que são questionados e têm a liberdade de escolha, tornam-se sujeitos sociais e ativos. Nesse sentido, ser sujeito autônomo significa ter intencionalidade e ser um corpo no mundo, antes de qualquer pensamento que possa ser refletido, isto é, ser capaz de reelaborar o discurso do outro em função de suas vontades (KANTORSKI; SILVA, 2001).

Outro fato interessante ressaltado pelo acompanhante terapêutico é o de deixar o morador escolher, pois isso colabora para a criação de uma consciência, dado que suas escolhas mais ou menos adequadas contribuirão para o seu amadurecimento e lhe oferecerão bagagem que podem balizar novas escolhas.

Com isso, o acompanhamento terapêutico aponta para a construção de uma autonomia que é do sujeito, porque ele torna-se livre por si.

E por fim, “servir como catalisador das relações familiares e grupais” significa que o acompanhante terapêutico precisa facilitar as relações do indivíduo com a sua família ou grupo, ajudá-lo a conviver melhor e entender como se dão essas relações. E, ainda, orientar a família para que seja colaboradora no processo terapêutico (MAEUR; RESNIZKY, 1987).

Quando a questão é relacionamento com o grupo, ressalta-se que o acompanhante vê a necessidade de trabalhar este quesito, pois nos diversos ambientes frequentados pelos moradores os relacionamentos podem tornar-se conturbados caso não saibam lidar com isso. Ainda, destaca-se a aceitação como uma peça-chave, por que as pessoas que fazem parte do grupo são diferentes e precisam ser compreendidas em suas individualidades.

No que diz respeito às ações de catalisação das relações familiares, nota-se a equipe como um suporte para colaborar com a aproximação entre a família e o sujeito. Atentando para trabalhar na família todo o processo de reinserção do indivíduo no seu meio familiar, mesmo sendo difícil esse retorno, os acompanhantes terapêuticos buscam inserir a família em algumas atividades do SRT, levam os moradores para passar o final de semana com a família, enfim, trabalham para que esse diálogo seja possível.

 

As Atribuições da Enfermagem no Exercício do Acompanhamento Terapêutico em um Serviço Residencial Terapêutico

CONCLUSÃO
Após serem analisadas as atribuições e atividades de acompanhamento terapêutico no Serviço Residencial Terapêutico, exercidas pela equipe de enfermagem, pode-se evidenciar que estas são funções intrínsecas da profissão, que tem como essência o cuidado.

Além de serem realizadas diariamente, não há nenhum tipo de divergência, ou seja, tal atividade não é apenas de enfermagem ou de acompanhamento terapêutico, pois a equipe consegue ter uma visão integral do cuidado dispensado aos moradores desse serviço.

E ainda, evidencia-se o desafio do cuidado com vistas à reinserção social de indivíduos com transtornos psíquicos que sofreram longos anos de internação psiquiátrica.

Pode-se considerar que existem potencialidades neste trabalho, pois traz essa discussão para a área da saúde mental, a qual necessita constituir práticas potencialmente eficazes e integrais como o acompanhamento terapêutico, no cuidado aos indivíduos portadores de transtorno psíquico.

A saúde mental, como uma área do conhecimento, apresenta-se na busca constante por métodos ou formas de aperfeiçoamento no que diz respeito aos cuidados com seus usuários.

Dessa forma, nota-se que os sujeitos que compõem a equipe de acompanhantes terapêuticos do Serviço Residencial Terapêutico de Caxias do Sul/RS têm um forte potencial cuidador e são dotados de características essenciais para inclusão dos sujeitos que são acompanhados por este serviço.

Evidencia-se os limites da presente análise que se deteve em uma experiência em particular, do Serviço
Residencial Terapêutico de Caxias do Sul/RS, privilegiando o aprofundamento deste em detrimento da extensão de outras situações ou experiências.

Marca de um cuidado diferenciado e que somente alguns profissionais terão o dom e a possibilidade de vivenciá-lo. Tarefa de abertura de profissionais de enfermagem para um cuidado libertador.

Por fim, entende-se a enfermagem como uma profissão importante e que vem contribuindo a cada dia com a consolidação da reforma psiquiátrica no Brasil, pois a essência da profissão está no cuidado, que é fundamental para a prática em saúde mental e, principalmente, para a prática do acompanhamento terapêutico.

LIVROS/REFERÊNCIAS DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO

  1. ALVES, P. F. et al. Indicadores qualitativos de satisfação em saúde mental. Saúde Debate, n. 41, v. esp, p. 50-59, 2017.
  2. ANTONACCI, M. H. et al. Estrutura e fluxo da rede de saúde como possibilidade de mudança nos serviços de atenção psicossocial. Rev. Esc. Enferm., USP, n. 47, v. 4, p. 891-898, 2013.
  3. BRASIL. Legislação em saúde mental: 1990-2004. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
  4. ______. Resolução n° 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Brasília, 2013. Disponível em:<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html>.
  5. CENAMO, A. C. V.; PRATES, A. L. B.; BARRETO, K. D. O setting e as funções no Acompanhamento Terapêutico. In: EQUIPE DE ACOMPANHANTES TERAPÊUTICOS DO HOSPITAL-DIA – A CASA (Org.). A rua como espaço clínico: acompanhamento terapêutico. São Paulo: Escuta, 1991.
  6. CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem. Resolução 311 de 8 de fevereiro de 2007. Brasília, 2007. Disponível em: <http://site.portalcofen.gov.br/node/4345>.
  7. KANTORSKI, L. P.; SILVA, G. B. A Reforma Psiquiátrica em questão. In: KANTORSKI, L. P.; SILVA, G. B. Ensino de enfermagem e reforma psiquiátrica. Pelotas: Editora UFPel, 2001.
  8. MAEUR, S. K.; RESNIZKY, S. Acompanhantes terapêuticos e pacientes psicóticos: manual introdutório a uma estratégia clínica. Campinas: Papirus, 1987.
  9. MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014.
  10. NETO, M.; DIMENSTEIN, M. Experiência de acompanhamento terapêutico: do hospital à cidade. Pesquisas e Práticas Psicossociais, n. 11, v. 2, p. 489-498, 2016.
  11. PALOMBINI, A. L. et al. Acompanhamento terapêutico na rede pública: a clínica em movimento. Porto Alegre: UFRGS, 2004.
  12. PINHEIRO, G. E. W. Acompanhamento terapêutico e o cuidado de enfermagem. 2011. Monografia (Graduação) – Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2011.
  13. ROTELLI, F. Desinstitucionalização: uma outra via. In: NICÁCIO, M. F. Desinstitucionalização. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2001.

 

Autores: Guilherme Emanuel Weiss Pinheiro, Luciane Prado Kantorski, Karine Langmantel Silveira, Priscila Borges Silveira, Ariane da Cruz Guedes, Michele Mandagará de Oliveira, todos da Universidade Federal de Pelotas/Pelotas, RS/Brasil. Autor correspondente: Guilherme Emanuel Weiss Pinheiro, e-mail: [email protected]

 

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