Acompanhamento Terapêutico: Tentativa de Suicídio na Adolescência

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Acompanhamento Terapêutico: Tentativa de Suicídio na Adolescência

 

Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida. (Augusto Cury).

 

Acompanhamento Terapêutico: Tentativa de Suicídio na Adolescência

Resumo

A relevância deste artigo se justifica por representar uma possibilidade de melhor compreendermos os motivos que levam o adolescente à tentativa de suicídio. Desta forma, esse artigo busca investigar e levantar as motivações e os fatores de risco que potencializam essa ação. Essa compreensão permitirá que os acompanhantes terapêutico possam criar ferramentas, objetivando dar um apoio adequado e melhorando o acolhimento deste adolescente que se encontra em estado de vulnerabilidade nas emergências psiquiátricas.

Palavras-chave: Acompanhamento Terapêutico; tentativa de suicídio; adolescência.

 

 

Abstract

The relevance of this article is justified because it represents a chance to better understand the reasons why the teenager to attempt to suicídio.Desta way, this article aims to investigate and raise the motivations and risk factors that increase this action. This understanding will allow therapeutic companions can create tools aiming to provide adequate support and improving the reception of this teenager who is in a state of vulnerability in psychiatric emergencies.

Keywords: Therapeutic Accompaniment ; attempted suicide ; adolescence

 

Acompanhamento Terapêutico: Tentativa de Suicídio na Adolescência

Introdução

Muito se debate hoje em dia sobre o suicídio na adolescência sendo este considerado um problema de saúde pública.

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde, no ano 2000, aproximadamente 1 milhão de pessoas se suicidaram, o que se traduz em uma taxa “global” de mortalidade de 16 óbitos por 100.000 habitantes ou uma morte a cada quarenta segundos (WHO – Suicide Prevention Report, 2006).

Além disso, de dez a vinte vezes mais pessoas tentaram suicídio ao redor do mundo, o que significa, em média, uma tentativa a cada três segundos.

Embora tradicionalmente as mais altas taxas de suicídio fossem observadas entre homens idosos, as taxas entre os jovens vêm crescendo de tal forma que, atualmente, são o maior grupo de risco em um terço dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

No Brasil, em 2004, o suicídio foi a quinta causa de óbito entre jovens com idade entre 10 e 19 anos (Ministério da Saúde, 2006).

Considera-se a adolescência um período do desenvolvimento humano marcado por intensas transformações.

O adolescente precisa processar importantes modificações, tanto no nível físico quanto emocional, o que pode acarretar muitos conflitos e inquietações.

Frente a este fluxo de demanda, somam-se fatores referentes ao ambiente no qual o jovem está inserido, evidenciando características marcantes da adolescência: a instabilidade psíquica e a vulnerabilidade (MACEDO, et al., 2006).

Os jovens se fazem presentes nas estatísticas a respeito da grande ocorrência de acidentes, condutas delinquentes e outras situações de risco a vida.

Diante dos dados alarmantes que expressam a manifestação de comportamentos de risco nessa etapa do ciclo vital, torna-se fundamental promover uma reflexão acerca do que se passa com o jovem hoje (WERLANG, SÁ E MACEDO,2006).

Diante desse panorama aponta-se para a importância do trabalho do acompanhante terapêutico, que consiste em uma pratica exercida para além dos espaços fechados do hospital, geralmente em locais públicos da cidade, faz da rua o setting do paciente.

Ibrahim (1991) citado em Londero & Pacheco (2006) diz que o AT, conhecido anteriormente como auxiliar psiquiátrico e tendo como função administrar medicamentos, o papel de ego auxiliar e muitas vezes o de superego, organizar atividades lúdicas e rotinas diárias, começa a ser requisitado para trabalho residenciais, aproximando-se assim do âmbito familiar e da comunidade a que o paciente pertence.

O acompanhamento é uma experiência de atuação em saúde mental no qual se observa, analisa e tentar melhorar a qualidade de vida dos pacientes, que tem como objetivo maior contribuir na organização e implemento de cuidados intensivos em saúde mental, no intuito de modificar uma vida paralisada que não é capaz de encontrar saída alguma (LINS, OLIVEIRA e COUTINHO, 2006).

De acordo com Berger, uma vez que a sua história faz sentido para alguém, o at e o paciente pode se conectar e construir uma outra cena(MANONII, 1995), sustentado no encontro e não no isolamento.

 

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A prática do Acompanhante Terapêutico com o Adolescente em Risco de Suicídio

As indicações para acompanhante terapêutico (AT) são influenciadas pelas “incapacidades funcionais” que o paciente apresente.

O termo “incapacidade” representa uma restrição da habilidade para desempenhar uma atividade considerada normal para o ser humano, e surge como consequência direta ou é resposta do indivíduo a uma deficiência psicológica, física ou sensorial. (AMIRALIAN e cols., 2000).

O ato de suicídio significa uma intenção de terminar com a vida, no momento em que o adolescente se sente incapaz de resolver os seus problemas como se a única solução fosse à morte. (MACEDO, et al., 2012).

O comportamento suicida é classificado, como frequência em três categorias diferentes: ideação suicida, tentativa de suicídio e suicídio consumado.

O suicídio na adolescência torna-se singular, na medida em que, geralmente, nesta fase do desenvolvimento, aparecem sentimentos intensos de baixa autoestima e mesmo quadros psiquiátricos de grande risco.

Atitudes de arrogância e enfrentamento, que procuram demonstrar muita força interior, que na realidade, podem significar pedidos de ajuda, de limites, de carinho, de expressão de dúvidas e angústias.

Os adolescentes podem adotar condutas deliberadamente danosas à sua integridade e atravessam toda uma gama de manifestações que podem indicar uma patologia, crescendo os riscos de problemas emocionais, dentre os quais, os sintomas depressivos se encontram em 70% dos casos de suicídio consumado. (SERFATY, 1998; WELANG, BORGES, FENSTERSEIFER, 2005).

A ideação suicida significa um predomínio da ideia de acabar com a própria vida, um pensamento de que não vale a pena continuar vivendo pois se considera um peso para os outros, sendo ela é um dos preditores para a tentativa de suicídio. (SERFATY, 1998).

A tentativa de suicídio é considerada um suicídio interrompido. Esse termo caracteriza uma ação de autodestruição sem consequências fatais podendo envolver situações como mutilação e automedicação exagerada, feitas por vontade do próprio adolescente.

A ocorrência apresenta-se principalmente entre mulheres adolescentes ou jovens. É uma ação impulsiva, frequentemente envolve pessoas com súbitas modificações de humor ou com personalidade antissocial. (SERFATY, 1998; LOPES, BARREIRA, PIRES, 2001; ZAVASCHI, 2009).

De acordo com Kaplan e Sadock (1981,p.624) “embora alguns suicidas procurem realmente a morte, outros estão tentando comunicar seu sofrimento, mitigar sua solidão e evitar as sequelas de uma alteração do status; também podem estar em busca de vingança, bem como transmitindo uma quantidade de outros significados”.

Alguns fatores precipitantes ao possível ato suicida, são: ruptura de relação amorosa, rejeição afetiva e/ou social, modificação da situação econômica ou financeira, vergonha e graves pertubações familiares (BERTOLOTE; SANTOS; BOTEGA,2010).

Os profissionais consideram indicada a intervenção do AT tanto para os pacientes cuja internação psiquiátrica tenha sido prolongada, pelas características da psicopatologia ou das condições socioeconômicas da família, quanto para aqueles que não têm condições de internação, por motivos financeiros ou familiares.

Entre estes últimos estão os pacientes que apresentem risco iminente de suicídio, pois podem ser monitorados pelo AT em seu próprio ambiente doméstico (LONDERO & PACHECO,2006).

Observa-se que o AT é percebido pelos profissionais participantes como um co-terapeuta, influenciando o terapeuta principal em suas decisões e participando desde a elaboração do planejamento terapêutico até mudanças de conduta frente a determinado paciente.

Quando ocorre a intervenção do AT no ambiente natural do cliente, a troca de informações entre os profissionais é de crucial importância.

Essa troca pode ser realizada na supervisão ou em reunião, onde são discutidos assuntos relevantes e decididas as ações terapêuticas (BAUMGARTH e cols., 1999).

Acredita-se que um diagnóstico precoce, tratamento imediato, suporte psicoterápico para familiares e pacientes, além de intervenções de at´s no cotidiano bastante desorganizado desses pacientes possam melhora o prognóstico e diminuir eventos auto-agressivos.

É importante a utilização de escalas ou instrumentos clínicos para avaliar o risco de suicídio para caracterizar o grau de perturbação, mensurar o risco e auxiliar na tomada de decisão. (LINS, OLIVEIRA e COUTINHO, 2006).

Quando o acompanhamento terapêutico é indicado em função de risco de suicídio, prioriza-se o monitoramento do paciente, fornecendo informações aos clínicos e/ou cuidadores, contribuindo significativamente na tomada de decisão sobre hospitalização ou manutenção do paciente em seu domicílio sob acompanhamento regular e contínuo.

Também há fatores de proteção que podem diminuir esses pensamentos do adolescente que considera a morte como saída para o sofrimento. Dentre esses fatores protetores, estão destacados os seguintes: boa relação com a família, boa habilidade social, senso de valor pessoal, receptividade com ajuda e projetos, lazer, esporte, fatores culturais e sociodemográficos positivos e favoráveis, boa qualidade de alimentação e frequente atividade física. (WERLANG, BORGES, FENSTERSEIFER, 2005).

O at deve estabelecer alianças em contextos que prezem a vida do paciente. Fatores protetores com valor impeditivo para um ato suicida são tão importantes quanto a mitigação dos fatores de risco.

O acompanhamento terapêutico entra nesse contexto de proteção de forma  mais radical, pois poderá intervir diretamente em um contexto singular, em que todos os fatores estarão presentes e outros poderão vir, auxiliando os outros profissionais envolvidos, dando maior segurança ao paciente e sua família, além de montar estratégias para prevenção do comportamento suicida e reabilitação psicossocial (LINS, OLIVEIRA e COUTINHO, 2006).

Para a prevenção é importante haver mudanças na política de saúde e educação, em que integrantes da sociedade (familiares, professores, amigos, at´s) possam compor uma rede de apoio aos adolescentes. Nesses projetos de proteção é necessário um tratamento interdisciplinar justamente pelo suicídio na adolescência ser uma problemática determinada por variados fatores, tanto psicológicos, quanto físicos e contextuais (TEIXEIRA, 2004).

É indispensável um bom vinculo com o paciente, pois dificilmente relatam tal desejo espontaneamente, não é incomum confiarem seus planejamentos e/ou desejos suicidas apenas a amigos.

Segundo Scivoletto et al (2010):

 

A intenção de morrer pode ser explícita e forte ou ambígua e indefinida. A avaliação da intencionalidade pode ser difícil, principalmente entre crianças e pré-adolescentes, que podem se autoagredir sem o desejo consciente de morrer, num acesso de raiva e frustração. Portanto, é fundamental reconhecer as características da criança/adolescente e de seu ambiente para avaliar o potencial de letalidade do CS.

 

Acompanhamento Terapêutico: Tentativa de Suicídio na Adolescência

Considerações Finais

O objetivo do artigo foi investigar e discutir os fatores de riscos e a contribuição do acompanhamento terapêutico com o adolescente em risco de suicídio.

Foi constatado que são encaminhados para o acompanhamento terapêutico os adolescentes cujas características refletem uma situação de incapacidade e/ou desvantagem, principalmente quando provêm de quadros psicopatológicos graves.

Vimos que a intervenção do at em caso de suicídio é pontual, pois desenvolve um conjunto de ações para viabilizar a reabilitação e a reconstrução do cotidiano, o resgate da autoestima, a criação de momentos de confronto do estado mental com a realidade, possibilitando modificações no comportamento e melhoria da qualidade de vida.

Conseguir conter o momento de crise e o impulso de se matar é eficaz para prevenir o suicídio.

Assim sendo, foi possível considerar que o AT constitui em uma modalidade terapêutica a contribuir para a assistência e reabilitação psicossocial e para a reduzi as tentativas de suicídio.

 

Referências do Acompanhamento Terapêutico (AT)

  1. AMIRALIAN, M., PINTO, E., B.,GHIRARDI, M.,MASINI, E. & PASQUALIN. L. (2000). Conceituando deficiência. Revista de Saúde Pública, 34(1), 97-103.
  2. BAUMGARTH, G. C., GUERRELHAS, F. F., KOVAC, R., MAZER, M. & ZAMIGNANI, D. R. (1999). A intervenção em equipe de terapeutas no ambiente natural do cliente e a interação com outros profissionais. Em R. R. Kerbauy & R. C. Wielenska (Orgs.), Sobre comportamento e cognição: psicologia comportamental e cognitiva: da reflexão teórica à diversidade na aplicação. (Vol. 4, pp. 164-171). Santo André: Esetec.
  3. BERTOLOTE, José Manoel; MELLO-SANTOS, Carolina de; BOTEGA, Neury José. Detecção do risco de suicídio nos serviços de emergência psiquiátrica. Rev. Bras. Psiquiatria. v. 32, p. 87-95, Out. 2010. Disponível em: http://search.scielo.org/index.php. Acesso em: 27 Nov. 2014.
  4. KAPLAN, Harold I.; SADOCK, Benjamin J. (1984) “Esquizofrenia: epidemiologia”, in Compendio de psiquiatria dinâmica. Porto Alegre: Artes medicas.
  5. LONDERO,I.;PACHECO, J.T.B.; Por que Encaminhar ao Acompanhante Terapêutico? Uma discussão considerando a Perspectiva de Psicólogos e Psiquiatras. Psicologia em Estudo, Maingá, v.11, n.2, p. 259-267,mai./ago.2006. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/pe/v11n2/v11n2a03.pdf>;. Acessos em 26 nov. 2014.
  6. LOPES, Paula ; BARREIRA, Davi Pires; PIRES, Ana Matos. Tentativa de suicídio na adolescência: avaliação do efeito de gênero na depressão e personalidade. Psic., Saúde e Doenças, Lisboa, Vol.2, n.1, julho 2001.
  7. MACEDO, et al. Tentativa de Suícidio na Adolescência. In: MACEDO, Monica Medeiros Kother (org). Adolescência e Psicanálise. Porto Alegre: Edipucrs, 2012. p. 149 – 163
  8. Ministério da Saúde (2006). Saúde Brasil 2006: uma análise da desigualdade em saúde. Acessado em novembro de 2014, em http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/arquivos/saudebrasil2006_cap12.pdf
  9. SCIVOLETTO, Sandra; BOARATI, Miguel Ângelo; TURKIEWICZ, Gizela. Emergências psiquiátricas na infância e adolescência. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbp/v32s2/v32s2a08.pdf. Acesso em: 28 nov. 2014.
  10. SERFATY, Edith. Suicídio na adolescência. Rev. Adolescência latino-americana. Vol. 1, n.2, p. 105 – 110, jul/set 1998.
  11. TEIXEIRA, Célia Maria Ferreira da Silva. Tentativa de suicídio na adolescência. Revista da UFG, Goiás, Vol.6 ,n.1, junho 2004.
  12. WERLANG, B. S.G.;SÁ,S.D.:MACEDO, M.M.K. A agressão e o ser humano: uma relação inevitável.In: WERLANG, B.S.G.;OLIVEIRA, M.S (orgs), Temas em Psicologia Clínica (pp.57-66). São Paulo: Casa do Psicólogo,2006.
  13. WERLANG, Blanca Susana Guevara; BORGES, Vivian Roxo; FENSTERSEIFER, Liza. Fatores de Risco ou Proteção para a Presença de Ideação Suicida na Adolescência. Rev. Interamericana de Psicologia, Vol. 39, n.2, p. 259 – 266, 2005.
  14. ZAVASCHI, Maria Lucrécia Scherer. Crianças e adolescentes vulneráveis: O atendimento interdisciplinar nos centros de atenção psicossocial. 1ª Ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

 

Autora: Lais Marcele Pires Fialho – aluna do 4º período de Graduação em Psicologia, pela Faculdade de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul – FADERGS.

 

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